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Ciência

A geração Z busca notícias onde menos confia

Jovens universitários recorrem diariamente às redes sociais para acompanhar as notícias, apesar de considerá-las pouco confiáveis. Estudos revelam como algoritmos e desinformação aprofundam essa contradição.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Para a geração Z, acompanhar as notícias já não significa necessariamente abrir um jornal ou procurar a manchete do dia. A informação surge no celular entre memes, vídeos, publicidade, opiniões e mensagens de amigos. Essa mistura criou uma relação curiosa com a atualidade: os jovens estão permanentemente expostos às notícias, mas nem sempre confiam nos lugares onde as encontram. Novas pesquisas mostram por que essa contradição merece atenção.

Três em cada quatro jovens buscam notícias nas redes sociais

A geração Z busca notícias onde menos confia
© Pexels

Um estudo internacional com 405 universitários de Espanha, Estados Unidos e Portugal ajuda a dimensionar a transformação. A pesquisa, conduzida por Ana Pérez-Escoda, da Universidade Francisco de Vitoria, e Cristina Ruiz-Poveda, da Universidade Complutense de Madri, analisou os hábitos informativos da geração Z.

Os resultados revelaram que 75% dos universitários pesquisados utilizam redes sociais para se informar. As páginas da internet aparecem em seguida, com 64%, enquanto a imprensa digital alcança 47% e a televisão, 37%.

Rádio, jornais impressos e televisão online ocupam posições bem menos relevantes.

Os números refletem uma mudança profunda. Para esses jovens, a notícia não está necessariamente em um ambiente separado destinado à informação. Ela aparece no mesmo fluxo em que estão músicas, memes, vídeos de entretenimento, influenciadores, publicidade e conversas pessoais.

Isso significa que conteúdos de naturezas completamente diferentes disputam os mesmos segundos de atenção.

E é justamente quando os pesquisadores perguntam em quais desses canais os jovens realmente confiam que surge a grande contradição.

Eles se informam justamente onde menos confiam

A geração Z busca notícias onde menos confia
© Pexels

Redes sociais e páginas da internet estão entre os meios mais utilizados pelos universitários analisados, mas também aparecem entre aqueles que despertam menor confiança.

Os veículos tradicionais apresentam a situação inversa: ocupam menos espaço na rotina diária dos jovens, embora sejam considerados mais confiáveis.

A constatação contraria a ideia de que a geração Z simplesmente abandonou os meios tradicionais porque acredita mais nas plataformas digitais. Na realidade, conveniência e credibilidade parecem seguir caminhos diferentes.

As redes vencem pela velocidade, facilidade de acesso e integração à rotina. Basta abrir um aplicativo e as notícias aparecem sem que o usuário necessariamente tenha decidido procurá-las.

O problema é que a informação chega fragmentada e frequentemente sem contexto.

Como o estudo foi realizado especificamente com universitários, seus resultados não podem ser automaticamente aplicados a todos os jovens. Ainda assim, eles ajudam a revelar um desafio importante: saber identificar uma notícia não significa necessariamente possuir ferramentas suficientes para avaliar sua confiabilidade.

E essa dificuldade fica ainda mais evidente quando entram em cena as fake news.

Muitos acreditam que quase nunca recebem notícias falsas

Outro resultado chamou a atenção dos pesquisadores. Aproximadamente três em cada dez jovens afirmaram nunca receber notícias falsas, enquanto proporção semelhante disse encontrá-las apenas raramente.

Somente cerca de dois em cada dez reconheceram receber desinformação frequentemente ou sempre.

Existem pelo menos duas interpretações possíveis. Uma delas é que mecanismos de combate à desinformação estejam reduzindo efetivamente a exposição. Outra, mais preocupante, é que parte dos usuários talvez não consiga reconhecer determinados conteúdos falsos quando eles aparecem.

Uma segunda pesquisa, envolvendo 1.186 adolescentes entre 12 e 17 anos e 166 professores, reforça a necessidade de atenção.

Embora quase todos conhecessem o conceito de fake news, apenas 43,7% dos estudantes disseram utilizar estratégias de verificação. Entre os professores, o índice chegou a 56%.

Além disso, cerca de três em cada dez participantes dos dois grupos admitiram que poderiam ter compartilhado alguma informação falsa sem perceber.

A desinformação, portanto, nem sempre é propagada deliberadamente. Muitas vezes ela avança porque alguém acredita no conteúdo e decide repassá-lo.

O algoritmo se tornou um novo porteiro das notícias

Existe ainda um personagem invisível nessa transformação: o algoritmo.

Durante décadas, jornalistas e editores exerceram uma função conhecida como gatekeeping: selecionavam quais acontecimentos mereciam destaque e definiam como seriam apresentados ao público.

Nas redes sociais, parte dessa função passou para sistemas automatizados.

Um estudo realizado com 508 universitários de Espanha, Colômbia e Costa Rica identificou padrões semelhantes entre diferentes países. As plataformas digitais passaram a ocupar posição central na circulação de informações entre jovens.

Mas o usuário nem sempre percebe que existe uma seleção acontecendo.

Uma notícia pode aparecer porque recebeu muitas interações, porque combina com interesses identificados anteriormente, porque foi compartilhada por alguém próximo ou simplesmente porque o sistema acredita que aquele conteúdo manterá a pessoa conectada por mais tempo.

Assim, a notícia deixa de ser algo que necessariamente procuramos e passa a ser algo que nos encontra.

Esse mecanismo torna ainda mais importante compreender por que determinado conteúdo chegou à tela.

Aprender a desconfiar pode ser uma habilidade essencial

Os pesquisadores defendem que a alfabetização midiática precisa acontecer justamente nos ambientes digitais onde os jovens já passam boa parte do tempo.

Isso envolve aprender a separar informação de opinião, identificar a origem de uma afirmação, comparar fontes, reconhecer conteúdos persuasivos e compreender os mecanismos que fazem determinadas publicações viralizarem.

Também significa perceber como emoções podem interferir no julgamento. Conteúdos que provocam indignação, medo ou surpresa frequentemente incentivam compartilhamentos rápidos antes que o usuário verifique sua procedência.

O desafio também recai sobre os próprios veículos de comunicação.

Muitos jovens ainda consideram a imprensa tradicional mais confiável, mas enxergam seus formatos como distantes da maneira como consomem conteúdo diariamente. Esse espaço acaba ocupado por influenciadores, criadores independentes, algoritmos e outros intermediários cuja transparência pode variar enormemente.

A grande contradição da geração Z talvez esteja justamente aí: nunca foi tão fácil receber notícias e, ao mesmo tempo, tão necessário descobrir quem escolheu aquela informação, por que ela apareceu e se merece confiança.

Em um ambiente no qual jornalismo, memes, publicidade, opiniões e desinformação dividem a mesma tela, saber consumir conteúdo deixou de ser suficiente. A habilidade decisiva pode ser aprender a duvidar, verificar e contextualizar antes de acreditar ou compartilhar.

[Fonte: UFV]

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