Jogar soda cáustica no oceano parece exatamente o tipo de coisa que cientistas tentariam impedir. Mas, em uma área cuidadosamente monitorada dos Estados Unidos, pesquisadores fizeram justamente isso. O objetivo não era contaminar o mar, e sim testar uma estratégia capaz de ampliar uma habilidade natural dos oceanos: retirar dióxido de carbono da atmosfera. Os primeiros resultados mostraram que a ideia merece atenção, embora ainda esteja longe de ser uma solução pronta.
Uma espécie de “antiácido” gigantesco para o oceano
O experimento faz parte do projeto LOC-NESS, liderado por pesquisadores da Woods Hole Oceanographic Institution (WHOI). O teste foi realizado em agosto de 2025, em águas federais do Golfo do Maine, nos Estados Unidos, e seus resultados foram apresentados em 2026.
A técnica investigada recebe o nome de Aumento da Alcalinidade Oceânica, ou OAE na sigla em inglês.
Sua lógica parte de uma característica fundamental dos oceanos: eles já funcionam naturalmente como enormes reservatórios de carbono. Parte do CO2 presente na atmosfera dissolve-se na água do mar, ajudando a limitar a quantidade desse gás que permanece no ar.
O problema é que esse processo também altera a química oceânica. Conforme mais dióxido de carbono é absorvido, a água fica mais ácida, afetando seu equilíbrio químico.
É aí que entra uma substância que dificilmente associaríamos à proteção ambiental: o hidróxido de sódio, popularmente conhecido como soda cáustica.
Por ser alcalino, ele pode neutralizar parte dessa acidez e modificar o equilíbrio químico da água. A expectativa é que, depois disso, o oceano consiga retirar mais CO2 da atmosfera.
É como administrar um enorme antiácido ao mar, mas em condições extremamente controladas.
Durante seis horas, os cientistas acompanharam uma mancha no mar
Para colocar a hipótese à prova, os pesquisadores liberaram hidróxido de sódio de alta pureza na superfície do oceano durante aproximadamente seis horas.
Junto dele foi utilizado um corante vermelho biodegradável, cuja função era permitir que a equipe acompanhasse a dispersão da água modificada.
O experimento estava longe de consistir simplesmente em despejar a substância e esperar.
Robôs submarinos e veículos autônomos mediram continuamente a química da água. Satélites e boias acompanharam o deslocamento da mancha, enquanto pesquisadores a bordo de um navio coletaram amostras durante aproximadamente cinco dias.
Os cientistas também observaram diferentes formas de vida presentes naquela região.
Bactérias, fitoplâncton, larvas de peixes e até larvas de lagostas entraram no monitoramento, porque aumentar a capacidade do oceano de capturar carbono teria pouca utilidade se o processo causasse danos significativos ao ecossistema.
Foi justamente nessa parte que os resultados chamaram atenção.
O oceano respondeu como os modelos haviam previsto
Segundo os resultados divulgados pelos pesquisadores, a mancha alcalina se comportou de maneira compatível com as previsões feitas previamente por modelos computacionais.
O pH retornou aos níveis normais dentro do período esperado e, mais importante, a superfície oceânica passou a absorver mais dióxido de carbono da atmosfera.
Durante os cinco dias de acompanhamento, os pesquisadores também não detectaram impactos negativos mensuráveis sobre os organismos marinhos monitorados na área do experimento.
Isso não significa, porém, que despejar soda cáustica nos oceanos em grande escala tenha sido declarado seguro.
O teste foi limitado espacialmente, utilizou material purificado, aconteceu sob condições controladas e teve um período relativamente curto de observação. Descobrir como a técnica se comportaria em áreas muito maiores exige novas pesquisas.
Os próprios cientistas veem o experimento como uma forma de aprender como futuros testes podem ser monitorados.
David “Roo” Nicholson, um dos líderes da pesquisa, afirmou que os dados obtidos podem ajudar a criar sistemas de observação adequados para experimentos em escalas maiores.
A ideia é promissora, mas não substitui cortar emissões
Existe uma razão para estratégias desse tipo estarem recebendo tanta atenção.
Mesmo com a rápida expansão das energias renováveis, as emissões globais de CO2 provenientes de combustíveis fósseis continuam extremamente elevadas. Os oceanos já desempenham um papel essencial ao absorver parte desse carbono.
Aumentar artificialmente essa capacidade poderia, em teoria, ajudar na remoção de parte do CO2 acumulado na atmosfera.
Mas existe uma diferença enorme entre demonstrar que um mecanismo funciona durante um teste controlado e provar que ele pode ser aplicado de forma segura, econômica e ambientalmente responsável em escala planetária.
Questões sobre impactos de longo prazo, monitoramento, quantidade de material necessária e efeitos sobre diferentes ecossistemas ainda precisam ser respondidas.
Por isso, os próprios pesquisadores ressaltam que a técnica não deve ser interpretada como alternativa à redução das emissões. Ela seria, no máximo, uma ferramenta complementar.
O experimento do Golfo do Maine mostrou algo importante: alterar cuidadosamente a química do oceano pode aumentar sua capacidade de capturar carbono.
Agora começa a parte mais difícil: descobrir se uma ideia que funcionou durante alguns dias em uma pequena região do mar pode algum dia ajudar a enfrentar um problema que envolve o planeta inteiro.
[Fonte: CNN]