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Uma ideia que parecia enterrada voltou a circular no Brasil — e ganhou espaço nas redes sociais

Vídeos, podcasts e influenciadores transformaram uma discussão aparentemente marginal em conteúdo para milhares de pessoas. Uma investigação acompanhou durante três meses como essa rede funciona.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Certos debates parecem pertencer definitivamente aos livros de história. Mas as redes sociais têm mostrado que ideias antigas podem reaparecer com nova linguagem, novos protagonistas e enorme capacidade de circulação. Uma investigação acompanhou durante três meses um ecossistema de influenciadores que questiona uma conquista política consolidada há décadas. O fenômeno envolve homens e mulheres, atravessa fronteiras e já alcançou o debate político brasileiro.

O assunto saiu dos nichos e começou a ganhar visibilidade

Uma ideia que parecia enterrada voltou a circular no Brasil — e ganhou espaço nas redes sociais
© Pexels

O debate ganhou maior repercussão em junho de 2026, depois que o influenciador Paulo Figueiredo, ligado à família Bolsonaro, criticou publicamente a “qualidade” do voto feminino. A declaração gerou reação, mas a investigação mostrou que ela estava longe de ser um episódio isolado.

Nas redes sociais circulam vídeos, podcasts e cortes nos quais participantes questionam diretamente o sufrágio feminino ou associam a participação política das mulheres a problemas sociais contemporâneos.

A BBC News Brasil passou três meses acompanhando esse universo e entrevistando alguns dos influenciadores envolvidos. Segundo a reportagem, conteúdos desse tipo acumulam milhares de curtidas e comentários e passaram a aparecer além dos grupos digitais nos quais originalmente circulavam.

Parte dessas discussões se conecta à chamada machosfera, um conjunto amplo e heterogêneo de comunidades online centradas em temas relacionados aos homens e que inclui segmentos associados ao movimento red pill. Alguns desses espaços difundem críticas ao feminismo e defendem modelos tradicionais de relacionamento entre homens e mulheres.

Mas um detalhe torna o fenômeno menos óbvio: não são apenas homens que aparecem defendendo essas ideias.

Há mulheres que dizem que abririam mão do próprio voto

Entre os nomes identificados pela reportagem está Fernanda Guardian, empresária do setor de investimentos que reúne cerca de 300 mil seguidores no Instagram.

Guardian já declarou publicamente que considera o voto feminino um erro e que abriria mão do próprio direito de votar. Ela também relaciona suas críticas à percepção de que mulheres tenderiam a apoiar eleitoralmente partidos de esquerda. A influenciadora não aceitou conversar sobre essas declarações.

Outro nome é Pietra Bertolazzi, influenciadora com mais de 1 milhão de seguidores e que produz conteúdos relacionados a desenvolvimento pessoal, rotina e religião.

Bertolazzi afirmou que considera a democracia problemática e disse defender uma monarquia. Ao mesmo tempo, contestou interpretações segundo as quais estaria propondo concretamente retirar das mulheres o direito de votar. Segundo ela, suas declarações estariam sendo tratadas com uma dimensão maior do que pretendia.

Essa distinção é relevante: as pessoas citadas pela reportagem não necessariamente defendem exatamente o mesmo modelo político nem apresentam propostas idênticas. O que as conecta é a circulação de críticas ao sufrágio feminino ou ao modelo atual de participação política das mulheres.

A discussão também chegou ao mundo político

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© YouTube

O debate não ficou restrito aos influenciadores.

Em julho, a Folha de S.Paulo mostrou que discussões semelhantes também apareciam em círculos conservadores nos Estados Unidos e em materiais políticos brasileiros. Entre eles estava o chamado Livro Amarelo, publicação ligada ao partido Missão, que apresenta uma discussão sobre um modelo de “democracia familiar”.

Nesse sistema, a família voltaria a ocupar uma posição central como unidade política. Questionado pela Folha, Renan Santos, pré-candidato presidencial do Missão, afirmou que o conteúdo não constituía uma proposta oficial e descreveu as ideias como discussões e especulações sobre modelos democráticos.

A BBC também levou alguns dos vídeos investigados à ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal.

A ministra ressaltou uma aparente contradição: a democracia permite inclusive que cidadãos expressem oposição ao próprio direito ao voto. Ao mesmo tempo, afirmou que eliminar especificamente o voto feminino seria incompatível com a Constituição brasileira vigente.

O voto feminino brasileiro tem uma história relativamente recente

As brasileiras conquistaram o direito ao voto nacionalmente com o Código Eleitoral de 1932, durante o governo de Getúlio Vargas. A Constituição de 1934 consolidou posteriormente a participação feminina no sistema eleitoral.

Quase um século depois, a discussão reaparece em um ambiente completamente diferente.

Agora, ideias políticas não dependem de partidos, jornais ou grandes organizações para alcançar públicos expressivos. Um trecho retirado de um podcast pode circular por diferentes plataformas, ser republicado inúmeras vezes e alcançar pessoas que nunca assistiriam ao programa original.

É justamente essa dinâmica que ajuda a explicar por que declarações antes confinadas a grupos pequenos podem ganhar uma audiência muito maior.

O fenômeno também não é exclusivamente brasileiro. A reportagem aponta conexões com debates existentes em setores conservadores dos Estados Unidos, onde grupos também voltaram a questionar a 19ª Emenda, que garantiu constitucionalmente o voto feminino no país em 1920.

O que a investigação mostra, portanto, não é que exista uma única campanha organizada com uma proposta uniforme para acabar com o voto das mulheres. O cenário descrito é mais fragmentado: diferentes influenciadores, comunidades digitais e correntes políticas passaram a colocar novamente em circulação questionamentos sobre sufrágio universal, participação feminina e organização familiar.

Uma discussão que durante décadas parecia resolvida voltou a aparecer na timeline. E entender como essas ideias circulam pode ser tão importante quanto discutir o conteúdo delas.

[Fonte: bbc]

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