Parece contraditório: como um planeta potencialmente maior que a Terra poderia permanecer escondido dentro do próprio Sistema Solar? O chamado Planeta Nove nunca foi fotografado e talvez nem exista, mas modelos sugerem que ele poderia estar orbitando centenas de vezes mais longe do Sol do que nós. Nessa região, até um mundo gigantesco pode se transformar em um ponto de luz absurdamente difícil de encontrar.
O Planeta Nove não seria exatamente pequeno

Uma das estimativas mais utilizadas para o hipotético planeta vem de um estudo de Michael Brown e Konstantin Batygin.
O modelo aponta para um mundo com aproximadamente 6,2 vezes a massa da Terra, embora exista uma margem considerável de incerteza. Sua órbita poderia ter um semieixo maior próximo de 380 unidades astronômicas (UA). Uma UA corresponde aproximadamente à distância entre a Terra e o Sol.
Isso significa que não estaríamos procurando uma pequena rocha perdida depois de Plutão.
Dependendo de sua composição, esse mundo poderia ter mais de duas vezes o raio da Terra e lembrar um sub-Netuno extremamente frio.
Mas existe um detalhe fundamental.
Nenhuma dessas características foi medida diretamente.
Não existe fotografia confirmada, raio conhecido ou massa determinada experimentalmente. As propriedades são inferências produzidas por modelos que tentam explicar comportamentos incomuns nas órbitas de determinados objetos transnetunianos. A própria NASA continua tratando o Planeta Nove como hipotético.
A luz do Sol quase desaparece antes mesmo de chegar lá

Imagine colocar esse planeta a 500 UA do Sol.
A intensidade da luz diminui seguindo a lei do inverso do quadrado da distância.
A 500 UA, portanto, o planeta receberia apenas cerca de 1/250.000 da quantidade de luz solar que chega à Terra.
A 300 UA, seriam aproximadamente 90 mil vezes menos luz. A 700 UA, cerca de 490 mil vezes menos.
Ser maior ajuda.
Um planeta com duas vezes o raio terrestre possui aproximadamente quatro vezes a área transversal e consegue interceptar mais luz.
Uma atmosfera muito refletiva também poderia torná-lo um pouco mais brilhante.
Mas nada disso compensa facilmente uma redução de centenas de milhares de vezes na iluminação recebida.
E o problema ainda está apenas começando.
A pouca luz refletida precisa fazer toda a viagem de volta
Planetas não produzem a luz visível que normalmente usamos para observá-los.
Eles refletem uma pequena parcela da luz recebida do Sol.
Portanto, a pouca iluminação que alcançasse o Planeta Nove teria de ser refletida e percorrer novamente centenas de unidades astronômicas até nossos telescópios.
Essa segunda viagem também sofre o efeito do inverso do quadrado.
Combinando ida e volta, o brilho refletido cai aproximadamente com a quarta potência da distância.
É aqui que os números ficam impressionantes.
Se colocássemos o mesmo objeto a 500 vezes a distância entre a Terra e o Sol, seu fluxo de luz refletida poderia ser, em uma comparação idealizada, aproximadamente 62,5 bilhões de vezes menor.
De repente, não parece tão absurdo que um planeta enorme consiga permanecer escondido.
Encontrá-lo seria procurar um ponto quase imóvel entre bilhões
Estimativas anteriores colocaram o brilho aparente do Planeta Nove aproximadamente entre magnitudes 22 e 25 em regiões plausíveis de sua órbita.
Isso seria algo entre cerca de 1 milhão e 40 milhões de vezes mais fraco que o limite normalmente perceptível pelo olho humano.
Para um telescópio moderno, objetos assim podem ser detectáveis.
O problema é descobrir qual deles é o planeta.
Uma busca realizada com dados do Pan-STARRS1 começou com aproximadamente 1,26 bilhão de detecções individuais. Depois de eliminar ruídos, fontes estacionárias e candidatos incompatíveis, nenhum Planeta Nove apareceu.
Somando dados desse levantamento aos do Zwicky Transient Facility e do Dark Energy Survey, pesquisadores conseguiram excluir cerca de 78% da população de referência gerada a partir do modelo orbital de 2021.
Isso não significa que exista apenas 22% de chance de o planeta ser real.
Significa que aproximadamente 78% das posições e brilhos previstos por aquele modelo específico deveriam ter sido detectados por esses levantamentos.
Um novo telescópio pode finalmente colocar a hipótese contra a parede
Agora existe uma ferramenta especialmente poderosa entrando nessa história.
O Observatório Vera C. Rubin iniciou sua pesquisa principal do céu em junho de 2026. Sua estratégia consiste em fotografar repetidamente enormes regiões do céu austral, permitindo identificar objetos que mudam lentamente de posição.
Isso é perfeito para procurar corpos extremamente distantes.
O Rubin poderá fazer duas coisas.
Talvez encontre diretamente um ponto muito fraco se movendo no lugar esperado e forneça uma pista decisiva para a descoberta do Planeta Nove.
Mas existe outra possibilidade igualmente importante.
O telescópio descobrirá muito mais objetos no Sistema Solar exterior. Com uma amostra maior, astrônomos poderão verificar se o estranho agrupamento orbital que ajudou a originar a hipótese realmente existe ou se parte dele resulta de vieses dos levantamentos anteriores.
Talvez o maior mistério não seja onde ele está
Depois de uma década de buscas, o Planeta Nove continua sendo uma hipótese.
Pode existir um grande mundo congelado escondido centenas de vezes mais longe do Sol do que a Terra.
Também é possível que novos dados enfraqueçam as evidências que motivaram sua existência.
O Observatório Rubin deverá ajudar a separar essas possibilidades.
Mas uma coisa já está clara: o fato de ainda não termos fotografado o planeta não significa necessariamente que ele precisaria ser pequeno.
Nas regiões mais distantes do Sistema Solar, a escuridão consegue esconder até mundos gigantescos.
[Fonte: Space daily]