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Ciência

Cientistas russos criam líquido capaz de detectar partículas quase invisíveis que atravessam a Terra

Pesquisadores russos desenvolveram dois líquidos especiais que emitem luz ao registrar interações de partículas extremamente difíceis de detectar. Tecnologia pode abrir novas possibilidades para investigar os mistérios do Universo.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A cada segundo, trilhões de partículas atravessam nosso corpo sem que percebamos. Elas também cruzam montanhas, oceanos e até o interior da Terra, quase sempre sem interagir com nada. Conhecidas como neutrinos, essas partículas estão entre os maiores desafios da física moderna. Agora, cientistas russos anunciaram a criação de dois líquidos especiais capazes de ajudar a identificar seus raríssimos sinais, uma inovação que pode ampliar a capacidade dos observatórios de investigar fenômenos cósmicos.

O líquido que transforma partículas invisíveis em flashes de luz

Pesquisadores do Instituto de Pesquisa Nuclear da Academia Russa de Ciências, em colaboração com a Universidade Estatal de Kabardino-Balkária, desenvolveram e patentearam duas novas formulações de líquidos cintiladores.

Esses materiais apresentam uma propriedade fundamental: emitem pequenos flashes luminosos quando recebem energia de determinadas interações entre partículas.

O processo permite transformar fenômenos subatômicos praticamente imperceptíveis em sinais que podem ser registrados por equipamentos eletrônicos.

A novidade está na composição química das substâncias.

Segundo os pesquisadores, uma das formulações é o primeiro cintilador orgânico líquido com zircônio dissolvido. A outra utiliza um complexo químico de neodímio e apresenta elevada intensidade luminosa.

Quanto maior a eficiência na conversão de energia em luz, melhores podem ser as condições para identificar eventos extremamente raros.

As duas composições foram anunciadas em 15 de outubro de 2026, conforme informações divulgadas pela agência russa TASS e reproduzidas pela imprensa especializada.

Por que os neutrinos são tão difíceis de detectar?

Cientistas russos criam líquido capaz de detectar partículas quase invisíveis que atravessam a Terra
© Pexels

Os neutrinos são partículas elementares que possuem massa extremamente pequena e não apresentam carga elétrica.

Eles são produzidos em diferentes processos físicos, incluindo reações nucleares no interior das estrelas, explosões de supernovas e interações envolvendo partículas de alta energia.

O próprio Sol envia continuamente enormes quantidades de neutrinos em direção à Terra.

Entretanto, essas partículas interagem tão pouco com a matéria que a imensa maioria atravessa nosso planeta sem deixar qualquer vestígio.

Isso acontece porque os neutrinos não participam da interação eletromagnética, responsável por grande parte dos fenômenos cotidianos envolvendo a matéria.

Sua detecção depende principalmente de interações nucleares fracas, que ocorrem com probabilidade muito baixa.

Por esse motivo, os cientistas precisam construir detectores gigantescos e altamente sensíveis.

Muitas dessas instalações ficam profundamente enterradas, protegidas de parte da radiação cósmica que poderia interferir nas medições.

Como funciona um detector cheio de líquido?

Um detector de neutrinos pode conter grandes volumes de líquido especialmente preparado para registrar interações entre partículas.

Quando um neutrino ocasionalmente interage com a matéria do detector, pode produzir partículas carregadas que depositam energia no material.

Essa energia provoca pequenos flashes de luz, conhecidos como cintilações.

Sensores extremamente sensíveis, chamados fotomultiplicadores, captam esses sinais e os transformam em informações eletrônicas.

O desafio é distinguir os eventos realmente associados aos neutrinos de outros fenômenos que também produzem luminosidade.

O Laboratório Nacional de Brookhaven, nos Estados Unidos, explica como líquidos cintiladores foram utilizados no experimento Daya Bay, na China, para investigar o comportamento de antineutrinos produzidos por reatores nucleares.

Nesse tipo de equipamento, a qualidade e a estabilidade do líquido são tão importantes quanto a sensibilidade dos sensores.

Zircônio e neodímio podem melhorar os experimentos

Os dois elementos escolhidos pelos pesquisadores russos apresentam características químicas e nucleares interessantes para a física experimental.

O zircônio pode ser incorporado a formulações destinadas a estudos de processos nucleares raros.

Já o neodímio possui isótopos de interesse para pesquisas relacionadas ao decaimento beta duplo, um fenômeno investigado para compreender propriedades fundamentais dos neutrinos.

A equipe russa já havia construído um protótipo de detector com capacidade de três litros utilizando líquido com neodímio.

Agora, a nova formulação busca melhorar a resposta luminosa do material.

Entretanto, o anúncio não apresenta dados comparativos suficientes para determinar quanto essas composições aumentam a sensibilidade dos detectores existentes.

Também não significa que os cientistas tenham desenvolvido um líquido capaz de registrar diretamente todos os neutrinos que passam por ele.

A detecção continuará dependendo de interações extremamente raras.

Observatório subterrâneo pode receber a tecnologia

Uma das possíveis aplicações está no Observatório de Neutrinos de Baksan, localizado na região do Cáucaso, na Rússia.

A instalação realiza pesquisas sobre partículas elementares e fenômenos astrofísicos utilizando equipamentos protegidos por grandes camadas de rocha.

Ambientes subterrâneos são especialmente importantes porque ajudam a reduzir interferências produzidas por partículas provenientes da atmosfera.

Os novos líquidos poderão contribuir para o desenvolvimento de instrumentos mais sensíveis, desde que demonstrem estabilidade química, transparência e desempenho adequado em experimentos de maior escala.

Esses fatores precisam ser avaliados antes de uma eventual aplicação em grandes detectores.

O que os neutrinos podem revelar sobre o Universo?

Estudar neutrinos significa acessar informações que outros instrumentos nem sempre conseguem obter.

Enquanto a luz pode ser absorvida ou desviada por determinados materiais, os neutrinos atravessam regiões extremamente densas do espaço.

Isso permite investigar processos que acontecem no interior de estrelas e em ambientes cósmicos de alta energia.

Essas partículas também podem ajudar a esclarecer questões sobre a origem da massa dos neutrinos, a evolução do Universo e possíveis diferenças fundamentais entre matéria e antimatéria.

A nova tecnologia russa ainda precisa demonstrar seu desempenho em aplicações científicas mais amplas.

Mesmo assim, o desenvolvimento representa uma contribuição potencialmente importante para a instrumentação experimental.

Afinal, compreender algumas das partículas mais misteriosas do Universo depende, muitas vezes, de algo aparentemente simples: conseguir transformar um acontecimento invisível em um pequeno ponto de luz.

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