O alerta de que o El Niño deve se intensificar e pode atingir uma categoria muito forte voltou a colocar um dos fenômenos climáticos mais importantes do planeta em evidência. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), seus efeitos podem persistir até 2027, alterando padrões de chuva e temperatura em diferentes regiões.
O fenômeno é natural e acontece no Oceano Pacífico, mas suas consequências podem chegar a lugares localizados a milhares de quilômetros. Brasil e outros países da América Latina estão entre aqueles que podem experimentar mudanças importantes conforme o episódio evolui.
O El Niño começa com um aquecimento incomum do Pacífico

El Niño é a fase quente de um sistema climático conhecido como El Niño-Oscilação Sul, ou ENOS.
Ele acontece quando as águas superficiais das regiões central e oriental do Pacífico Equatorial permanecem mais quentes que o normal durante vários meses.
O ENOS apresenta três estados principais: El Niño, La Niña e condições neutras.
Enquanto o El Niño está relacionado ao aquecimento anormal dessas águas, a La Niña representa o fenômeno oposto, com temperaturas abaixo do normal. Já durante a fase neutra, o oceano permanece mais próximo das condições esperadas.
A meteorologista Cindy Fernández, da Meteored, explica que a mudança na temperatura do oceano modifica a quantidade de calor e vapor de água transferida para a atmosfera.
E é justamente aí que um fenômeno aparentemente restrito ao Pacífico começa a influenciar o restante do planeta.
Como o El Niño consegue afetar países tão distantes?
O oceano e a atmosfera estão constantemente conectados.
Quando a temperatura do Pacífico Equatorial muda de maneira significativa, também ocorrem alterações nos ventos, nas áreas de alta e baixa pressão e na circulação atmosférica.
As massas de ar podem então seguir trajetórias diferentes das habituais. Como resultado, regiões acostumadas a determinadas condições podem experimentar mais chuva, períodos de seca ou temperaturas diferentes do normal.
O meteorologista Marcelo Madelón destaca que essa é uma das principais razões pelas quais o El Niño tem tanta importância. Não se trata simplesmente de água quente em uma parte do Pacífico, mas de uma reorganização capaz de produzir repercussões em escala global.
Um dos mecanismos envolvidos pode ser observado próximo à costa oeste da América do Sul.
Nessa região circula a corrente de Humboldt, que transporta águas frias e ricas em nutrientes em direção ao norte. Em condições normais, os ventos alísios ajudam a empurrar as águas superficiais quentes do Pacífico em direção à Oceania.
Durante o El Niño, esses ventos podem enfraquecer. Com isso, grandes volumes de água quente se deslocam novamente em direção à América do Sul, modificando a interação entre oceano e atmosfera.
El Niño não acontece todos os anos
Apesar de sua enorme influência, o El Niño não possui um calendário fixo.
Os episódios costumam aparecer em intervalos de aproximadamente dois a sete anos, e cada um pode apresentar intensidade e duração diferentes.
Por isso, seus impactos também não são idênticos.
Dependendo da intensidade do fenômeno e de sua interação com outras condições atmosféricas, uma região pode registrar chuvas muito acima da média enquanto outra enfrenta falta de precipitação.
Entre as consequências frequentemente associadas ao El Niño estão chuvas intensas, enchentes, deslizamentos, períodos prolongados de seca, ondas de calor, impactos sobre a agricultura e problemas no abastecimento de água.
O que o El Niño pode significar para o Brasil

Na América Latina, os efeitos variam bastante conforme a localização.
Em partes da costa do Pacífico da América do Sul, o aquecimento das águas pode favorecer precipitações mais intensas. Outras áreas do continente, entretanto, podem enfrentar condições mais secas.
No Brasil, essa diferença regional é particularmente importante.
As projeções apontam para maior risco de condições secas na Amazônia e em áreas do norte da América do Sul. Dependendo da intensidade e da duração do fenômeno, a redução das chuvas pode aumentar a preocupação com rios, abastecimento de água e incêndios florestais.
No extremo oposto do país, o cenário pode ser de excesso de água.
Estimativas de diferentes centros meteorológicos indicam que um dos principais núcleos de chuva pode atingir Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de áreas próximas da Argentina, como Misiones, Corrientes, Santa Fe e Entre Ríos.
Essa região merece atenção especial por sua relação com os grandes rios da Bacia do Prata.
El Niño pode continuar até 2027

A OMM alertou que o episódio deve continuar se fortalecendo nos próximos meses e pode alcançar intensidade muito forte.
As projeções indicam que o fenômeno pode persistir pelo menos até fevereiro de 2027, com seu pico esperado para o final de 2026.
Os efeitos já preocupam diferentes regiões.
Partes da América Central enfrentam problemas relacionados à disponibilidade de água e aos cultivos de milho. A Índia registrou chuvas de monções abaixo do habitual, enquanto áreas da África, Sudeste Asiático e Austrália também podem enfrentar mudanças importantes nos padrões de precipitação.
Isso não significa que todos esses eventos sejam provocados exclusivamente pelo El Niño. O clima depende de inúmeros fatores, e os impactos reais variam conforme as condições atmosféricas de cada região.
El Niño e mudança climática não são a mesma coisa
Existe ainda uma distinção fundamental.
O El Niño é um fenômeno natural que ocorre há muito tempo. Ele não é causado pela mudança climática provocada pelas atividades humanas.
O problema é que atualmente o fenômeno acontece em um planeta mais quente.
Temperaturas mais elevadas nos oceanos e na atmosfera podem interagir com a variabilidade natural do clima e contribuir para impactos mais severos em determinadas situações.
Chuvas extremas podem provocar danos maiores em áreas vulneráveis. Secas podem agravar problemas de abastecimento e produção agrícola. Ondas de calor também podem ocorrer sobre uma temperatura média global já elevada.
É por isso que os meteorologistas acompanham o Pacífico com tanta atenção. Uma mudança de temperatura em uma faixa do oceano pode parecer distante, mas o sistema climático está conectado. E, quando um El Niño muito forte se desenvolve, seus efeitos podem atravessar oceanos e chegar diretamente ao cotidiano de milhões de pessoas.
[ Fonte: Infobae ]