Como os carros estacionados afetam a temperatura urbana

O efeito de ilha de calor urbana — quando áreas densamente povoadas ficam mais quentes do que as regiões vizinhas — é um dos maiores desafios ambientais das cidades modernas. Agora, um estudo publicado na revista City and Environment Interactions aponta um novo fator que contribui para o problema: os carros estacionados.
Pesquisadores analisaram a cidade de Lisboa e descobriram que veículos parados absorvem e retêm calor, modificando o balanço térmico das ruas. Isso acontece porque os carros são compostos por materiais como aço e alumínio, que têm alta condutividade térmica e baixa inércia térmica. Em outras palavras, esquentam e esfriam rapidamente, criando pontos de calor temporários que elevam a temperatura do ambiente.
O papel da cor dos veículos
No experimento, os cientistas estacionaram dois carros, um branco e outro preto, sobre o asfalto em um dia de 36 °C. Após cinco horas de exposição ao sol, mediram a temperatura ao redor:
- Sobre o teto do carro preto, a temperatura do ar chegou a ser 3,8 °C maior do que no asfalto próximo;
- No carro branco, a diferença foi cerca de 1 °C menor;
- Em alguns pontos ao redor do carro branco, a temperatura chegou a ser inferior à do ambiente.
O fenômeno está relacionado ao albedo — a capacidade de uma superfície refletir a radiação solar.
- Carros brancos têm albedo alto (0,75 a 0,85), ou seja, refletem mais calor.
- Carros pretos apresentam albedo baixo (0,05 a 0,10) e absorvem quase toda a energia solar, aquecendo-se mais rapidamente.
Impacto em grande escala
Em Lisboa, circulam mais de 700 mil veículos por dia. Só os moradores possuem cerca de 342,5 mil carros e há 91 mil vagas de estacionamento. Nas áreas mais densamente povoadas, carros estacionados ocupam até 10% da superfície das ruas, influenciando diretamente a quantidade de calor absorvido e potencializando o efeito de ilha de calor urbana.
Segundo os pesquisadores, considerar o impacto térmico dos veículos deve ser uma prioridade para planejadores urbanos e gestores ambientais.
Estratégias para reduzir o aquecimento urbano

Com base nos resultados, o estudo propõe uma série de medidas para mitigar os efeitos dos carros estacionados sobre o microclima das cidades:
- Incentivar veículos de cores claras e com revestimentos refletivos;
- Construir estruturas de sombreamento em estacionamentos abertos;
- Utilizar pavimentos de alta refletância para reduzir a absorção de calor;
- Plantar árvores em áreas urbanas para criar sombra e aumentar a ventilação;
- Implementar corredores verdes e telhados vegetados, reduzindo o acúmulo de calor nas superfícies urbanas.
Os pesquisadores destacam ainda que, embora os carros elétricos emitam menos calor residual do que os veículos a combustão, os materiais de sua carroceria continuam contribuindo para o aquecimento. A transição para frotas elétricas representa, portanto, uma oportunidade para padronizar veículos com maior refletividade térmica.
Planejamento urbano e sustentabilidade
O estudo reforça que o planejamento urbano precisa levar em conta o papel dos carros estacionados no aquecimento das cidades. Integrar regulações ambientais, soluções tecnológicas e participação comunitária será fundamental para criar cidades mais sustentáveis, frescas e resilientes diante das mudanças climáticas.
[ Fonte: Infobae ]