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Tecnologia

Dessalinização avança e já abastece 80% dos países — inclusive o Brasil

Transformar água do mar em água potável deixou de ser coisa exclusiva de países ricos e desérticos. Com secas mais frequentes, rios no limite e aquíferos pressionados, a dessalinização virou peça-chave da segurança hídrica global. O resultado é impressionante: 80% dos países do mundo já usam água dessalinizada, e o Brasil entrou de vez nessa conta.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A mudança é puxada pelo aquecimento global, pelo crescimento populacional e por décadas de má gestão da água doce. Em lugares onde rios secaram e poços salinizaram, o mar passou de ameaça a solução.

Por que a água doce está ficando rara

Dessalinização avança e já abastece 80% dos países — inclusive o Brasil
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Apesar de a Terra ser coberta por água, a conta não fecha. Segundo a Organização das Nações Unidas, apenas 0,5% de toda a água do planeta é doce e utilizável — e essa fração encolhe com o aumento das temperaturas e das secas.

Um relatório de 2023 alertou para um possível déficit de 40% na oferta global até 2030, enquanto a população caminha para 9,7 bilhões em 2050. Some a isso corrupção, desperdício e infraestrutura precária, e o cenário fica crítico. Como os oceanos concentram mais de 95% da água do mundo, a dessalinização ganhou força.

O salto global da dessalinização

Dados da Global Water Intelligence mostram que cerca de 160 países já operam usinas de dessalinização de água do mar. Hoje, existem mais de 20 mil plantas ativas no planeta — quase o dobro de dez anos atrás. Em média, 60% da água produzida vai direto para o abastecimento público.

O crescimento é acelerado: o setor avança mais de 10% ao ano. Em países como Arábia Saudita, Kuwait e Omã, mais de 80% do abastecimento já vem da dessalinização. A Arábia Saudita lidera, com 13 bilhões de litros por dia — o suficiente para encher 5.200 piscinas olímpicas.

Para Rachael McDonnell, do Instituto Internacional de Gerenciamento de Água, a dessalinização não é bala de prata, mas já é decisiva para reduzir o estresse hídrico crônico em várias regiões.

Brasil acelera — e gera debate

O Brasil registrou um salto de 189% na produção de água dessalinizada entre 2010 e 2025, chegando a 1,4 bilhão de litros por dia. Há plantas em operação, como no Espírito Santo, usadas por indústrias, e projetos para consumo humano em Ilhabela (SP) e Fortaleza (CE).

No Ceará, a proposta gerou polêmica ao ser planejada perto de cabos submarinos de internet. Após críticas técnicas, o governo mudou o local. O episódio mostra como a dessalinização exige planejamento fino para não criar novos riscos.

Como funciona a dessalinização

Existem dois métodos principais:

  • Osmose reversa (o mais comum): pressão força a água a passar por uma membrana que retém sais e impurezas. É mais eficiente energeticamente.
  • Dessalinização térmica: a água é aquecida, evapora e o vapor condensado vira água doce.

O custo caiu drasticamente — até 90% desde 1970 — graças à eficiência e ao uso de energia renovável. Ainda assim, uma usina grande (500 milhões de litros/dia) pode custar US$ 500 milhões, segundo a Veolia. Levar essa água para o interior também pesa no orçamento.

O problema da salmoura

O maior desafio ambiental é o descarte da salmoura, o resíduo superconcentrado em sal. Para cada litro de água potável, podem sobrar 1,5 litro de efluente com cloro e metais. O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente alerta: se não for bem diluída e dispersa, a salmoura pode elevar a salinidade e a temperatura do mar, afetando corais e algas e criando “zonas mortas”.

Pesquisas já registraram impactos no Golfo de Aqaba. Por isso, novas plantas precisam combinar tecnologia, monitoramento e regras ambientais rígidas.

O que vem pela frente

Em países em desenvolvimento, soluções menores e solares — muitas vezes para dessalinizar água salobra — podem ser mais viáveis que megaprojetos. Mesmo com desafios, a tendência é clara: num mundo mais quente e seco, a dessalinização deixou de ser exceção.

Ela não resolve tudo. Mas, feita com cuidado, pode garantir água onde ela simplesmente não existe mais. E isso explica por que o mar virou, para tantos países, a última — e necessária — fronteira hídrica.

[Fonte: Correio Braziliense]

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