Cerca de 36 milhões de argentinos estão aptos a votar neste domingo (26) para renovar parte da Câmara dos Deputados e do Senado. A disputa ocorre sob o olhar atento dos mercados e de Washington, que ofereceu um pacote de ajuda financeira condicionado — segundo a imprensa local — a uma vitória de Milei e seus aliados.
O desafio de consolidar o poder

Essas eleições de meio mandato são cruciais para o presidente, que busca ampliar sua base no Parlamento e garantir sustentação às medidas mais polêmicas de seu governo. Desde que assumiu, Milei tenta aprovar reformas fiscais, trabalhistas e previdenciárias que prometem reduzir o tamanho do Estado e abrir a economia argentina.
Atualmente, seu partido La Libertad Avanza (LLA) tem apenas 37 dos 257 deputados e seis dos 72 senadores — números insuficientes para assegurar a aprovação de leis. Por isso, a meta declarada de Milei é conquistar ao menos um terço do Congresso para “defender as medidas do governo” e, ao mesmo tempo, buscar alianças com legendas de centro-direita.
“O bom resultado será aquele que me permita continuar com as reformas”, afirmou o presidente nos últimos dias de campanha, tentando transmitir confiança apesar do clima de instabilidade financeira e das críticas da oposição.
Um país dividido entre otimismo e frustração
As percepções sobre o governo Milei variam tanto quanto as condições de vida dos argentinos. Em Puerto Madero, o bairro mais sofisticado de Buenos Aires, Fernanda Díaz, empresária de 42 anos, diz estar satisfeita com as mudanças. “No meu círculo, todos estão contentes. A desregulamentação do dólar era necessária”, afirmou à agência AP.
A poucos quilômetros dali, do outro lado do poluído rio Riachuelo, a realidade é bem diferente. Verónica Leguizamón, 34 anos, mostra uma despensa quase vazia — apenas ovos, leite e alguns pães. “Antes podíamos escolher o que cozinhar. Agora dependemos de ajuda para saber se vamos comer”, lamenta.
Essas histórias refletem a desigualdade e a tensão que atravessam o país. Enquanto alguns comemoram o fim dos controles cambiais e a promessa de investimento estrangeiro, outros sofrem com a inflação, o desemprego e o custo de vida crescente.
O papel dos Estados Unidos e o futuro das reformas
A votação ocorre poucos dias depois de Milei receber apoio explícito de Donald Trump, que elogiou as reformas e comparou o argentino a um “guerreiro contra o socialismo”. O respaldo norte-americano veio acompanhado de um “salva-vidas” financeiro, cuja continuidade — segundo fontes diplomáticas — dependerá do desempenho do governo nas urnas.
Caso obtenha os votos necessários para sustentar seus decretos e projetos, Milei consolidará sua posição e terá mais margem para avançar nas privatizações e cortes orçamentários planejados para o segundo semestre de seu mandato. Caso contrário, enfrentará um Congresso hostil e um cenário de paralisia política.
Independentemente do resultado, a eleição deste domingo é vista como um referendo sobre o estilo e a viabilidade do ultraliberalismo de Milei. Para muitos analistas, será a primeira grande prova de fogo de um presidente que prometeu “mudar tudo” em um país acostumado a crises e viradas dramáticas.
[ Fonte: DW ]