A proposta, publicada na revista The European Physical Journal C, questiona um dos pilares do modelo cosmológico padrão, conhecido como ΛCDM (Lambda-Cold Dark Matter). Se confirmada por futuras observações, a pesquisa poderá obrigar os cientistas a revisar parte da forma como entendemos a evolução do Universo.
O que é a energia escura?

A ideia da energia escura ganhou força em 1998, quando duas equipes independentes analisaram explosões de estrelas conhecidas como supernovas do tipo Ia. Essas explosões funcionam como “velas padrão”, permitindo calcular distâncias cósmicas com grande precisão.
Os resultados indicavam que as galáxias não estavam apenas se afastando umas das outras, como Edwin Hubble já havia demonstrado em 1929, mas que essa expansão estava acelerando. A descoberta rendeu o Prêmio Nobel de Física de 2011.
Para explicar esse comportamento inesperado, surgiu a hipótese da energia escura, uma forma desconhecida de energia que, segundo o modelo ΛCDM, representa cerca de 68% do conteúdo do Universo. Os outros componentes seriam a matéria escura, com aproximadamente 27%, e a matéria comum, responsável por apenas 5%.
Novo estudo coloca o modelo em dúvida
O novo trabalho foi liderado pelo físico Subir Sarkar, da Universidade de Oxford. Utilizando o catálogo Pantheon+, que reúne observações de 1.701 supernovas do tipo Ia, a equipe chegou a uma conclusão provocativa: a aceleração da expansão pode não ocorrer igualmente em todas as direções do Universo.
Segundo os pesquisadores, isso desafia o chamado princípio cosmológico, que pressupõe que o Universo é homogêneo e isotrópico em grandes escalas.
Para Sarkar, os resultados indicam que o Universo pode apresentar assimetrias importantes. Caso isso seja confirmado, parte das evidências que sustentam a existência da energia escura precisará ser reavaliada.
A Terra poderia estar influenciando nossas medições
Uma das hipóteses apresentadas pelo estudo é que nossa posição dentro do cosmos pode distorcer as observações.
A Via Láctea participa de um movimento coletivo conhecido como “fluxo global”, no qual grupos de galáxias se deslocam em conjunto em determinada direção. Esse movimento poderia criar uma ilusão estatística, fazendo parecer que a expansão do Universo acelera quando, na realidade, parte desse efeito estaria relacionada ao ponto de vista do observador.
Segundo os autores, isso significaria que somos “observadores enviesados”, o que afetaria diretamente a interpretação dos dados obtidos pelas supernovas.
O brilho das supernovas também pode estar sendo interpretado de forma incorreta

O estudo também se apoia em outra pesquisa controversa publicada em 2025 por cientistas da Universidade Yonsei, na Coreia do Sul.
Esse trabalho sugere que o brilho das supernovas do tipo Ia depende da idade da anã branca que originou a explosão. Se isso for verdade, estrelas mais jovens produziriam explosões naturalmente menos brilhantes, alterando os cálculos de distância utilizados pela cosmologia moderna.
Ao incorporar essa possível correção aos modelos, Sarkar afirma que os dados deixam de indicar uma expansão acelerada. Pelo contrário, eles passariam a sugerir que a expansão do Universo está desacelerando, eliminando a necessidade de recorrer à energia escura para explicar o fenômeno.
A comunidade científica ainda está longe de um consenso
Apesar da repercussão, muitos especialistas consideram cedo demais para abandonar a energia escura.
Dominik Schwarz, da Universidade de Bielefeld, classificou os resultados como potencialmente importantes e afirmou que eles podem revelar mais uma inconsistência no modelo cosmológico atual.
Já Joshua Frieman, da Universidade de Chicago, adota uma postura mais cautelosa. Segundo ele, a existência da energia escura não depende exclusivamente das observações de supernovas.
Outras evidências independentes, como a radiação cósmica de fundo — considerada o “eco” do Big Bang — e as oscilações acústicas de bárions, também apontam para uma expansão acelerada do Universo. Dessa forma, mesmo que a calibração das supernovas precise ser revisada, isso não seria suficiente, por si só, para derrubar o modelo ΛCDM.
A cosmologia continua em transformação
O debate mostra que a ciência está longe de ser um conjunto de verdades imutáveis. Pelo contrário, novos dados e medições cada vez mais precisas permitem testar continuamente as teorias mais aceitas.
Nos próximos anos, telescópios de nova geração e levantamentos cosmológicos ainda mais detalhados deverão fornecer evidências capazes de esclarecer se as discrepâncias atuais representam apenas ajustes no modelo cosmológico padrão ou o início de uma mudança profunda na compreensão da estrutura e da evolução do Universo.
[ Fonte: DW ]