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Tecnologia

Enquanto forma milhões em IA, a Índia corre contra o relógio para construir sua própria infraestrutura

O país aposta em milhões de profissionais, novas fábricas e uma enorme infraestrutura tecnológica. Mas uma parte essencial dessa estratégia ainda está sendo construída do zero.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Treinar milhões de jovens para trabalhar com inteligência artificial pode parecer o caminho mais rápido para entrar na nova economia digital. Só que existe um detalhe menos visível: por trás de cada modelo de IA há uma enorme infraestrutura física, formada por chips, energia, fábricas e equipamentos extremamente sofisticados. A Índia decidiu apostar em todas essas frentes ao mesmo tempo. O problema é que algumas delas avançam em ritmos muito diferentes.

A Índia já começou a fabricar, mas ainda não chegou ao coração da produção

Em 2026, o projeto indiano de semicondutores deixou de ser apenas uma promessa governamental e começou a ganhar fábricas concretas.

O governo já aprovou 13 projetos de semicondutores distribuídos por sete estados dentro da chamada India Semiconductor Mission. Algumas instalações já entraram em operação, como a fábrica da Micron em Sanand, no estado de Gujarat, que recebeu investimentos de aproximadamente US$ 2,75 bilhões e começou a produzir em grande escala no fim de 2025.

Outra instalação, da Kaynes Semicon, também em Sanand, foi inaugurada em março de 2026 e tem capacidade anunciada de processar cerca de 6 milhões de chips por dia.

Mas existe uma diferença fundamental entre essas fábricas e aquilo que normalmente imaginamos quando falamos em “fabricar chips”.

Essas instalações trabalham principalmente com montagem, testes e encapsulamento de componentes. As wafers de silício já chegam processadas de outros lugares. Ou seja, a Índia está assumindo etapas importantes da cadeia, mas ainda não domina a parte mais complexa: transformar uma wafer de silício em circuitos eletrônicos dentro de uma fábrica de fabricação propriamente dita.

É justamente nesse ponto que entra o projeto mais ambicioso do país.

A fábrica que pode mudar o jogo ainda está sendo construída

Em Dholera, também em Gujarat, a Tata Electronics está construindo uma fábrica em parceria com a empresa taiwanesa PSMC, com investimento estimado em cerca de US$ 11 bilhões.

A instalação representa algo diferente: será uma verdadeira fábrica de chips lógicos, e não apenas uma unidade de montagem e testes.

O projeto utiliza tecnologia de fabricação madura e prevê processos de 28 nanômetros. O primeiro silício é esperado para o fim de 2026, enquanto a produção plena está projetada para 2028.

Isso coloca a iniciativa em uma posição interessante.

Por um lado, seria um passo histórico para a Índia, que passaria a fabricar seus próprios chips em território nacional. Por outro, o processo de 28 nanômetros está muito distante dos nós mais avançados utilizados nos processadores de inteligência artificial de ponta.

Os chips de 3 nanômetros e outros processos avançados continuam concentrados principalmente em fabricantes como a TSMC, em Taiwan, além de Samsung e Intel em determinadas áreas.

Portanto, a estratégia indiana não começa tentando derrotar os líderes mundiais. Ela começa construindo uma base industrial que ainda não existia em escala significativa.

E isso também explica por que o calendário é tão longo.

O desafio não termina quando a fábrica fica pronta

Construir o prédio é apenas uma parte do problema. Uma fábrica de semicondutores depende de uma enorme quantidade de equipamentos especializados, muitos deles produzidos fora da Índia.

As máquinas de litografia da empresa holandesa ASML são um exemplo. Sistemas de gravação e deposição também dependem de fornecedores internacionais, como Applied Materials e Lam Research.

Isso cria uma diferença importante entre possuir uma fábrica e dominar a indústria de semicondutores.

A Índia está avançando na construção da infraestrutura, mas ainda depende fortemente de tecnologia estrangeira para operar essa infraestrutura. O processo de criar máquinas capazes de fabricar chips é, por si só, outro desafio industrial gigantesco.

Mesmo assim, os 28 nanômetros podem ser extremamente relevantes para a economia indiana. A tecnologia é adequada para diversos componentes utilizados em automóveis, equipamentos industriais, eletrônicos de consumo e outros produtos que não precisam dos chips mais sofisticados usados no treinamento dos maiores modelos de IA.

Enquanto isso, Nova Délhi também pensa em outra necessidade: energia.

O governo estabeleceu uma meta de alcançar 100 gigawatts de capacidade nuclear até 2047, justamente em um momento em que centros de dados e sistemas de inteligência artificial prometem consumir quantidades cada vez maiores de eletricidade.

O país também desenvolve suas próprias tecnologias de 6G e pesquisa em computação quântica.

Dez milhões de pessoas podem ser apenas metade da aposta

É nesse cenário que aparece outra promessa ambiciosa: capacitar 10 milhões de jovens em inteligência artificial em apenas um ano.

O número chama atenção, mas faz parte de uma estratégia maior. A ideia é formar profissionais enquanto o país constrói as fábricas, a capacidade computacional, as redes de comunicação e a infraestrutura energética necessária para sustentar essa nova economia.

Existe, porém, uma questão difícil no horizonte.

Se a formação de profissionais avançar muito mais rápido do que a infraestrutura física, a Índia poderá acabar com milhões de pessoas preparadas para trabalhar com IA, mas ainda dependendo de chips e capacidade computacional produzidos em outros países.

Por outro lado, se as fábricas e a infraestrutura conseguirem acompanhar essa formação, o país poderá criar algo muito mais ambicioso: uma cadeia tecnológica própria, capaz de conectar talento, semicondutores, energia e inteligência artificial.

É por isso que o verdadeiro teste da estratégia indiana não será apenas quantos jovens aprenderão IA em 2026. Será descoberto se, até 2028 e nos anos seguintes, as máquinas, fábricas e redes necessárias para transformar esse conhecimento em uma indústria competitiva estarão prontas.

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