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“Estamos a três metros do ouro”: a gigantesca mina esquecida na Amazônia que pode transformar o Brasil em potência — mas reacende um velho pesadelo ambiental

Serra Pelada marcou a história do garimpo brasileiro nos anos 1980 com imagens impressionantes de milhares de homens escalando crateras em busca de riqueza. Décadas depois, antigos mineradores acreditam que ainda existe ouro suficiente para mudar a região — enquanto autoridades temem uma nova onda de destruição ambiental na Amazônia.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Poucos lugares representam tão bem a mistura de ambição, pobreza, esperança e devastação ambiental quanto Serra Pelada, no estado do Pará. O local, que já foi considerado a maior mina de ouro a céu aberto do mundo, voltou ao centro das atenções depois que antigos garimpeiros passaram a defender a retomada da exploração em grande escala.

Enquanto o Brasil se prepara para receber a COP30, a conferência climática da ONU que acontecerá em Belém em novembro, Serra Pelada simboliza um conflito delicado: como explorar riquezas minerais gigantescas sem aprofundar os impactos ambientais na Amazônia.

O buraco que virou lenda no Brasil

Hoje, a enorme cratera de Serra Pelada parece quase tranquila. O buraco com mais de 150 metros de profundidade está tomado pela água e lembra um lago isolado no meio da floresta. Mas nos anos 1980, o cenário era completamente diferente.

Milhares de homens cobriam as encostas de lama carregando sacos de até 50 quilos de terra e pedras nas costas. As imagens do local correram o mundo e viraram símbolo da corrida do ouro brasileira.

Entre os sobreviventes daquela época está Chico Osório, de 62 anos, considerado uma espécie de memória viva da mina. Ele chegou à região em 1982, atraído pelas notícias transmitidas no rádio sobre a descoberta de ouro em abundância.

Mesmo usando muleta, Osório ainda desce em um improvisado sistema de cordas para inspecionar túneis clandestinos cavados próximos à antiga mina. Segundo ele, a fortuna continua escondida no subsolo.

“Estamos a três metros do ouro”, afirmou em entrevista à agência EFE.

A riqueza que mudou vidas — e destruiu outras

Osório afirma ter extraído quase 700 quilos de ouro durante os anos de auge de Serra Pelada. Parte do dinheiro foi aplicada em aviões, equipamentos e investimentos financeiros. Mas o sonho de riqueza eterna não durou.

O governo brasileiro fechou oficialmente a mina em 1992, alegando riscos de segurança e queda na produtividade. Ao mesmo tempo, muitos garimpeiros perderam suas economias após falências bancárias e negócios fracassados.

Hoje, o que restou para Osório é uma estrutura envelhecida. O cabo que sustenta o “balanço” usado para descer aos túneis clandestinos está desgastado, e a máquina trituradora usada para separar pedras e sedimentos vive quebrando.

Mesmo assim, ele continua acreditando que uma nova corrida do ouro pode acontecer.

O sonho da reativação da mina

Grande parte dos antigos mineradores permaneceu vivendo em Serra Pelada. Muitos passam os dias em cooperativas locais jogando dominó e esperando uma possível retomada oficial da exploração mineral.

A principal esperança está em um acordo firmado entre a cooperativa dos garimpeiros e uma empresa interessada em explorar novamente as cerca de 100 hectares pertencentes à organização.

A presidente da cooperativa, Deuzita Rodrigues, afirma que ainda existe uma “riqueza incalculável” sob o solo da região. Ela garante que, caso a mineração seja retomada, métodos menos agressivos seriam utilizados.

O problema é que a cooperativa enfrenta uma grave crise financeira e jurídica. Além de disputas internas pelo controle da organização, a entidade acumula uma dívida trabalhista milionária, o que bloqueia permissões necessárias para operar legalmente.

O retorno do garimpo ilegal preocupa autoridades

Cansados da demora por uma solução oficial, alguns garimpeiros decidiram agir por conta própria. Túneis clandestinos começaram a surgir na região, reacendendo antigos temores ambientais.

O principal problema envolve o uso de mercúrio, metal tóxico utilizado para separar o ouro da terra e das pedras. A técnica é barata e comum em garimpos ilegais, mas pode contaminar rios, lençóis freáticos e causar graves danos à saúde humana.

Mesmo com operações policiais frequentes contra a mineração ilegal, o comércio de ouro continua ativo. O comerciante Carlos Aurélio, de 65 anos, revelou que recebe semanalmente cerca de 200 gramas de pepitas vindas de extrações clandestinas.

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A situação de Serra Pelada resume um dos maiores dilemas econômicos e ambientais do Brasil contemporâneo. O Pará depende fortemente da exploração de recursos naturais, especialmente mineração, para movimentar sua economia.

Ao mesmo tempo, o estado será vitrine mundial durante a COP30, evento que deve colocar pressão internacional sobre políticas ambientais, preservação da floresta amazônica e combate ao garimpo ilegal.

Entre promessas de riqueza, histórias de sobrevivência e riscos ambientais, Serra Pelada continua funcionando como um retrato brutal da relação do Brasil com seus recursos naturais: um lugar onde o ouro ainda parece próximo — mas cujo preço pode ser muito maior do que parece.

 

[ Fonte: El Cronista ]

 

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