Poucos lugares representam tão bem a mistura de ambição, pobreza, esperança e devastação ambiental quanto Serra Pelada, no estado do Pará. O local, que já foi considerado a maior mina de ouro a céu aberto do mundo, voltou ao centro das atenções depois que antigos garimpeiros passaram a defender a retomada da exploração em grande escala.
Enquanto o Brasil se prepara para receber a COP30, a conferência climática da ONU que acontecerá em Belém em novembro, Serra Pelada simboliza um conflito delicado: como explorar riquezas minerais gigantescas sem aprofundar os impactos ambientais na Amazônia.
O buraco que virou lenda no Brasil
No início dos anos 80, a Serra Pelada era o maior garimpo a céu aberto do mundo.
Dezenas de milhares de homens escavavam o mesmo buraco no Pará convictos de que a fortuna estava ali.
Ilson foi junto, com pouco mais de 20 anos. Ele e um primo carregavam mantimentos nas costas… pic.twitter.com/PiXPyTjwG4
— Market Makers (@mmakersoficial) May 23, 2026
Hoje, a enorme cratera de Serra Pelada parece quase tranquila. O buraco com mais de 150 metros de profundidade está tomado pela água e lembra um lago isolado no meio da floresta. Mas nos anos 1980, o cenário era completamente diferente.
Milhares de homens cobriam as encostas de lama carregando sacos de até 50 quilos de terra e pedras nas costas. As imagens do local correram o mundo e viraram símbolo da corrida do ouro brasileira.
Entre os sobreviventes daquela época está Chico Osório, de 62 anos, considerado uma espécie de memória viva da mina. Ele chegou à região em 1982, atraído pelas notícias transmitidas no rádio sobre a descoberta de ouro em abundância.
Mesmo usando muleta, Osório ainda desce em um improvisado sistema de cordas para inspecionar túneis clandestinos cavados próximos à antiga mina. Segundo ele, a fortuna continua escondida no subsolo.
“Estamos a três metros do ouro”, afirmou em entrevista à agência EFE.
A riqueza que mudou vidas — e destruiu outras
Osório afirma ter extraído quase 700 quilos de ouro durante os anos de auge de Serra Pelada. Parte do dinheiro foi aplicada em aviões, equipamentos e investimentos financeiros. Mas o sonho de riqueza eterna não durou.
O governo brasileiro fechou oficialmente a mina em 1992, alegando riscos de segurança e queda na produtividade. Ao mesmo tempo, muitos garimpeiros perderam suas economias após falências bancárias e negócios fracassados.
Hoje, o que restou para Osório é uma estrutura envelhecida. O cabo que sustenta o “balanço” usado para descer aos túneis clandestinos está desgastado, e a máquina trituradora usada para separar pedras e sedimentos vive quebrando.
Mesmo assim, ele continua acreditando que uma nova corrida do ouro pode acontecer.
O sonho da reativação da mina
Grande parte dos antigos mineradores permaneceu vivendo em Serra Pelada. Muitos passam os dias em cooperativas locais jogando dominó e esperando uma possível retomada oficial da exploração mineral.
A principal esperança está em um acordo firmado entre a cooperativa dos garimpeiros e uma empresa interessada em explorar novamente as cerca de 100 hectares pertencentes à organização.
A presidente da cooperativa, Deuzita Rodrigues, afirma que ainda existe uma “riqueza incalculável” sob o solo da região. Ela garante que, caso a mineração seja retomada, métodos menos agressivos seriam utilizados.
O problema é que a cooperativa enfrenta uma grave crise financeira e jurídica. Além de disputas internas pelo controle da organização, a entidade acumula uma dívida trabalhista milionária, o que bloqueia permissões necessárias para operar legalmente.
O retorno do garimpo ilegal preocupa autoridades
Cansados da demora por uma solução oficial, alguns garimpeiros decidiram agir por conta própria. Túneis clandestinos começaram a surgir na região, reacendendo antigos temores ambientais.
O principal problema envolve o uso de mercúrio, metal tóxico utilizado para separar o ouro da terra e das pedras. A técnica é barata e comum em garimpos ilegais, mas pode contaminar rios, lençóis freáticos e causar graves danos à saúde humana.
Mesmo com operações policiais frequentes contra a mineração ilegal, o comércio de ouro continua ativo. O comerciante Carlos Aurélio, de 65 anos, revelou que recebe semanalmente cerca de 200 gramas de pepitas vindas de extrações clandestinas.
O paradoxo amazônico em plena COP30

A situação de Serra Pelada resume um dos maiores dilemas econômicos e ambientais do Brasil contemporâneo. O Pará depende fortemente da exploração de recursos naturais, especialmente mineração, para movimentar sua economia.
Ao mesmo tempo, o estado será vitrine mundial durante a COP30, evento que deve colocar pressão internacional sobre políticas ambientais, preservação da floresta amazônica e combate ao garimpo ilegal.
Entre promessas de riqueza, histórias de sobrevivência e riscos ambientais, Serra Pelada continua funcionando como um retrato brutal da relação do Brasil com seus recursos naturais: um lugar onde o ouro ainda parece próximo — mas cujo preço pode ser muito maior do que parece.
[ Fonte: El Cronista ]