Imagine assistir a um concerto sem ouvir uma única nota e, ainda assim, perceber quando o ritmo acelera, quando a intensidade aumenta ou quando os violinos entram em cena. Essa experiência está deixando de pertencer ao campo das ideias. Uma tecnologia háptica começou a ser incorporada a atividades culturais no Chile e transforma aquilo que normalmente chega aos ouvidos em sinais que podem ser percebidos diretamente pelo corpo.
A música deixa de depender apenas dos ouvidos

A novidade está sendo implementada pela Fundação Chile Violines, que incorporou dez coletes hápticos destinados a experiências musicais inclusivas. Outros dez equipamentos estão a caminho, elevando para 20 o número previsto de dispositivos disponíveis.
A iniciativa pretende ampliar o acesso de pessoas surdas ou com deficiência auditiva a concertos e outras atividades musicais. Mas os equipamentos não funcionam como aparelhos auditivos e tampouco tentam simplesmente aumentar o volume.
A proposta é diferente: converter o som em uma experiência tátil.
Os sinais sonoros são traduzidos em diferentes padrões de vibração e distribuídos por áreas do corpo. Dessa forma, elementos como ritmo e intensidade podem ser percebidos fisicamente, criando outra porta de entrada para a experiência musical.
Em vez de apenas assistir aos músicos no palco, o usuário passa a sentir parte da estrutura sonora sobre o próprio corpo.
É como transformar uma música em uma linguagem de vibrações
A tecnologia háptica não é nova. Ela está presente, em formas mais simples, em celulares, controles de videogame e outros dispositivos capazes de utilizar vibrações para transmitir informações.
Nos coletes destinados à música, entretanto, o princípio é levado muito mais longe.
Diferentes estímulos permitem representar fisicamente elementos da composição. O resultado não reproduz a audição tradicional, mas cria uma experiência sensorial paralela capaz de comunicar características do som através do tato.
Projetos internacionais já demonstraram o potencial dessa ideia. Coletes hápticos utilizados anteriormente em concertos chegaram a empregar dezenas de pontos de vibração para distribuir partes da música pelo corpo. Dependendo da programação, instrumentos e frequências podem ser associados a diferentes regiões, criando uma sensação tridimensional.
Esses sistemas já foram empregados em apresentações no Lincoln Center, em Nova York, além de experiências ligadas a artistas como Lady Gaga e Greta Van Fleet.
O primeiro teste mostrou que a tecnologia vai além da curiosidade
Depois da chegada dos primeiros equipamentos, integrantes da Associação de Surdos de La Serena participaram de uma experiência organizada em conjunto com a Fundação Chile Violines.
Foi o momento de descobrir, na prática, o que significa colocar um desses coletes.
Entre os participantes estava Patricio Vallejos, presidente da associação, que possui surdez profunda. Para ele, tratava-se de uma experiência inédita: até então, nunca havia tido acesso ao universo da música dessa maneira.
Com o equipamento, conseguiu sentir os violinos e associar aquelas vibrações à dimensão emocional da apresentação. Vallejos considera que esse tipo de tecnologia pode transformar a relação de pessoas surdas com a música.
Ricardo Araya, assessor da Associação de Surdos de La Serena, também participou do encontro e destacou que experiências acessíveis em concertos já são encontradas em outros lugares do mundo.
A primeira demonstração serviu, portanto, para algo mais importante do que simplesmente testar se os dispositivos funcionavam. Ela mostrou como uma tecnologia relativamente discreta pode modificar quem consegue participar de uma experiência cultural.
A próxima etapa é levar os coletes aos concertos
Com dez equipamentos já disponíveis e outros dez a caminho, a expectativa é incorporar gradualmente os coletes hápticos à programação musical e a atividades formativas.
A ideia é que pessoas surdas não participem apenas de eventos isolados organizados especificamente para demonstrar a tecnologia. O objetivo mais amplo é integrá-las ao público regular das experiências culturais.
Isso representa uma mudança importante na maneira de pensar acessibilidade.
Tradicionalmente, muitas soluções tentam adaptar uma experiência criada para determinado público. Tecnologias hápticas permitem explorar outra possibilidade: criar formas diferentes de experimentar a mesma obra.
Uma pessoa pode ouvir um violino. Outra pode perceber parte de seu ritmo e intensidade por vibrações. Ambas estão diante da mesma apresentação, embora seus caminhos sensoriais sejam diferentes.
É justamente por isso que a novidade vai além de um colete tecnológico.
Ela levanta uma pergunta muito maior sobre o futuro dos espetáculos. Se som pode virar vibração e ser distribuído pelo corpo, concertos não precisam necessariamente continuar sendo experiências construídas exclusivamente em torno da audição.
Para alguém que nunca conseguiu ouvir uma música, sentir seu ritmo atravessando o próprio corpo pode ser muito mais do que uma demonstração tecnológica. Pode representar finalmente uma maneira de entrar em um espaço cultural que, durante muito tempo, parecia ter sido projetado para outras pessoas.
[Fonte: el Día]