Durante 15 anos, Tim Cook transformou a Apple em uma potência ainda maior, ampliando receitas, serviços e presença global sem abandonar o iPhone como centro de seu império. Nesta terça-feira, 1º de setembro, esse longo capítulo chegou ao fim. John Ternus assumiu oficialmente o comando da companhia, mas recebe uma Apple diante de um desafio muito diferente daquele enfrentado por seu antecessor: encontrar seu lugar na corrida da inteligência artificial.
A Apple troca de comandante depois de 15 anos

A transição vinha sendo preparada havia meses. Em abril, a Apple anunciou oficialmente que John Ternus substituiria Tim Cook como CEO a partir de 1º de setembro de 2026. Cook, porém, não está abandonando completamente a empresa: ele passa a ocupar o cargo de presidente executivo do conselho, preservando influência em decisões estratégicas e relações externas.
A mudança encerra uma das gestões mais importantes da história da tecnologia moderna.
Quando Cook assumiu o comando em 2011, após Steve Jobs, a Apple valia aproximadamente US$ 350 bilhões. Quinze anos depois, a companhia alcançou uma capitalização próxima de US$ 4,5 trilhões. As vendas anuais passaram de US$ 108 bilhões para cerca de US$ 416 bilhões, enquanto os lucros chegaram a US$ 112 bilhões.
Cook também reduziu a dependência da Apple dos grandes ciclos de lançamento do iPhone. Serviços como App Store, iCloud, Apple Music e Apple TV se tornaram pilares de receitas recorrentes, enquanto produtos como Apple Watch e AirPods criaram novas categorias dentro do ecossistema.
Ternus, portanto, não recebe uma empresa em crise financeira. O problema está em outro lugar.
O novo CEO vem justamente do coração dos produtos da Apple
John Ternus representa um perfil diferente do de Cook. Engenheiro mecânico formado pela Universidade da Pensilvânia, ele entrou na Apple em 2001 e construiu sua carreira principalmente no desenvolvimento de hardware.
Ao longo dos anos, esteve envolvido em produtos como iPad, Mac, AirPods, Apple Watch e Vision Pro, além de participar da transição dos computadores Mac para os processadores Apple Silicon. Antes de assumir o cargo máximo, liderava a engenharia de hardware da companhia.
Essa experiência pode oferecer uma pista sobre o tipo de Apple que surgirá sob sua liderança.
Cook ficou conhecido principalmente por sua capacidade operacional, pela expansão da cadeia de fornecedores e pela transformação da empresa em uma gigantesca máquina de geração de receita. Ternus chega com uma trajetória muito mais próxima da engenharia e do desenvolvimento dos produtos.
Mas seu primeiro grande desafio talvez não possa ser resolvido apenas com hardware melhor.
A inteligência artificial virou a questão que a Apple precisa responder

Enquanto OpenAI, Google, Microsoft, Anthropic e Meta aceleraram investimentos em inteligência artificial generativa, a Apple adotou uma estratégia mais cautelosa.
Essa abordagem protegeu algumas das características tradicionais da empresa, especialmente sua ênfase em privacidade e processamento local. Ao mesmo tempo, alimentou a percepção de que Cupertino reagiu lentamente à transformação provocada pela IA generativa.
A reformulação da Siri se tornou um dos símbolos dessa dificuldade. Recursos mais avançados foram adiados, enquanto a Apple passou a recorrer também a tecnologias de terceiros para ampliar as capacidades de seu ecossistema.
É justamente aí que Ternus terá de encontrar um equilíbrio delicado.
A Apple não precisa necessariamente vencer uma disputa pelo maior chatbot do mercado. Sua vantagem pode estar em transformar bilhões de dispositivos já utilizados diariamente em uma plataforma para experiências de IA profundamente integradas ao hardware, ao sistema operacional e aos serviços.
Essa estratégia, porém, precisa começar a produzir resultados visíveis.
Existe uma vantagem gigantesca escondida no ecossistema
Apesar da sensação de atraso, a Apple possui algo que muitas empresas especializadas em inteligência artificial ainda estão tentando construir: uma enorme base instalada de dispositivos e controle praticamente completo sobre a experiência entre hardware e software.
A empresa aposta que parte importante da inteligência artificial do futuro poderá funcionar diretamente nos aparelhos, reduzindo a necessidade de enviar continuamente informações pessoais para servidores externos. Essa combinação entre processamento local, chips próprios e privacidade pode se tornar um diferencial importante.
Ao mesmo tempo, Ternus terá problemas além da IA.
Ele assume em meio à reorganização da cadeia produtiva, com a Apple tentando diminuir sua dependência da China e expandindo fabricação em países como Índia e Vietnã. Também terá de lidar com pressões regulatórias, retenção de talentos e expectativas sobre novas categorias de produtos.
E existe ainda o peso inevitável da comparação.
Steve Jobs deixou como legado produtos capazes de redefinir mercados. Tim Cook transformou essa herança em uma das empresas mais lucrativas e valiosas do planeta. Agora, Ternus precisa demonstrar qual será sua própria marca.
A Apple que ele recebe é muito maior e mais rica do que aquela entregue a Cook em 2011. Mas também entra em uma era tecnológica na qual algumas das regras estão sendo escritas por seus concorrentes.
Talvez seja esse o verdadeiro desafio do novo CEO: provar que a empresa que ajudou a definir a era dos smartphones também pode encontrar uma maneira própria de definir o que vem depois.
[Fonte: ambito]