As águas de Queensland, na costa leste da Austrália, revelaram mais uma demonstração da surpreendente inteligência dos golfinhos. Pesquisadores conseguiram registrar em vídeo animais utilizando conchas marinhas durante a caça, em um comportamento sofisticado que exige habilidade, precisão e, aparentemente, aprendizado social.
A estratégia é conhecida como “shelling”. Nela, os golfinhos utilizam conchas vazias para capturar pequenos peixes e depois manipulam cuidadosamente essa espécie de armadilha improvisada para conseguir engolir a presa.
O comportamento já era conhecido em outra região australiana. A grande novidade é que agora existem evidências visuais de que populações da costa leste também desenvolveram essa habilidade.
Golfinhos transformam conchas em ferramentas de caça

A estratégia começa quando um golfinho persegue um pequeno peixe pelo fundo do mar.
Ao tentar escapar, a presa pode se esconder dentro de uma concha vazia. É nesse momento que o predador aproveita a oportunidade.
O golfinho posiciona o focinho na abertura, pega a concha e a transporta até a superfície. Em seguida, manipula o objeto para fazer com que o peixe preso caia diretamente em sua boca.
Pode parecer relativamente simples, mas executar a técnica exige uma sequência bastante específica de comportamentos.
O animal precisa encontrar uma concha adequada, reconhecer que existe uma presa escondida ali, transportá-la corretamente e posicioná-la de maneira que consiga retirar o peixe.
Nem todos os indivíduos dominam essa habilidade.
Filhote imitou o comportamento da própria mãe
Um dos momentos mais interessantes registrados pelos pesquisadores envolveu uma fêmea adulta e seu filhote.
Primeiro, a mãe pegou uma concha, levantou o objeto e retirou o peixe. Pouco depois de ela abandonar a concha, o jovem golfinho a recolheu e repetiu um movimento semelhante.
A observação sugere que o aprendizado da técnica pode acontecer diretamente entre mãe e filhote.
Esse tipo de transmissão é particularmente interessante porque mostra que determinadas estratégias de sobrevivência dos golfinhos podem depender não apenas de instinto, mas também da observação de outros indivíduos.
O comportamento foi estudado anteriormente em Shark Bay, na costa oeste da Austrália, onde o “shelling” foi descrito cientificamente em 2011.
Até agora, porém, havia poucas evidências de que a mesma estratégia fosse utilizada por populações da costa leste.
A técnica também pode passar entre golfinhos sem parentesco
O aprendizado não precisa necessariamente acontecer dentro de uma família.
Pesquisas realizadas anteriormente em Shark Bay indicaram que golfinhos também podem adquirir a técnica observando outros integrantes de seus grupos.
Isso cria uma possibilidade fascinante: uma inovação descoberta por um único indivíduo pode acabar se espalhando pela população.
Os golfinhos-nariz-de-garrafa do Indo-Pacífico não costumam realizar grandes migrações. No entanto, os territórios utilizados por diferentes grupos podem se sobrepor.
Esses encontros oferecem oportunidades para que animais observem estratégias desenvolvidas por outros indivíduos e eventualmente incorporem esses comportamentos.
É uma espécie de transmissão cultural em escala animal.
Registros antigos revelaram que o comportamento já acontecia

Depois da descoberta recente, pesquisadores também começaram a prestar atenção a registros produzidos anteriormente na região.
A University of the Sunshine Coast encontrou imagens feitas por turistas em 2013 e 2019 que aparentemente também mostram golfinhos praticando o “shelling”.
Na época, porém, a importância daqueles registros não havia sido reconhecida.
A divulgação das novas imagens levou os cientistas a revisar arquivos e identificar outros possíveis casos isolados.
Isso sugere que a técnica pode estar presente na costa leste australiana há muito mais tempo do que se imaginava.
Quantos golfinhos aprenderam a caçar dessa maneira?
Essa é justamente uma das perguntas que os pesquisadores querem responder agora.
A equipe pretende ampliar as observações para descobrir se outras populações da Austrália e de regiões próximas também utilizam conchas durante a caça.
É possível que existam grupos mais ao norte praticando o mesmo comportamento sem terem sido identificados até agora.
A descoberta reforça algo que décadas de pesquisas vêm mostrando sobre os golfinhos: esses animais não dependem exclusivamente de comportamentos programados pelo instinto.
Eles observam, aprendem e podem transmitir soluções eficientes para outros membros da população.
Nesse caso, tudo pode ter começado quando algum golfinho percebeu que uma simples concha abandonada no fundo do oceano poderia funcionar como uma ferramenta de caça. Depois disso, bastava que outros estivessem prestando atenção.
[ Fonte: Infobae ]