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O golpe dos “casamentos-relâmpago” cresce na China e algumas vítimas perderam tudo

Agências prometem encontrar rapidamente uma parceira para homens que enfrentam dificuldades para se casar. Em alguns casos, porém, o sonho termina em dívidas, desaparecimentos e histórias ocultadas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Encontrar uma esposa se tornou uma tarefa particularmente difícil para milhões de homens chineses, especialmente em cidades menores e regiões rurais. Nesse cenário, surgiu uma indústria que promete resolver o problema em poucos dias. Agências matrimoniais apresentam candidatas, organizam encontros e aceleram casamentos. Mas uma investigação da BBC revela que, por trás dessa aparente solução, algumas famílias estão descobrindo uma armadilha capaz de consumir as economias de uma vida inteira.

Uma esposa em poucos dias parece a solução perfeita

O golpe dos “casamentos-relâmpago” cresce na China e algumas vítimas perderam tudo
© Tisyar – Pexels

Na China, elas são conhecidas como “flash marriages”, ou casamentos-relâmpago. O conceito é exatamente aquilo que o nome sugere: duas pessoas se conhecem e chegam ao casamento depois de pouquíssimo tempo.

Agências especializadas perceberam uma oportunidade nesse mercado e passaram a oferecer seus serviços principalmente a homens que encontram dificuldades para conseguir uma parceira.

O processo pode ser extremamente rápido. A agência organiza encontros com possíveis candidatas e incentiva o cliente a tomar uma decisão depois de apenas algumas reuniões. Em determinadas situações investigadas, homens eram inclusive orientados a não trocar diretamente informações de contato com as mulheres durante os primeiros encontros.

A promessa é sedutora: em vez de passar anos procurando uma parceira, pagando encontros e enfrentando rejeições, seria possível encontrar alguém disposta a construir uma família praticamente de imediato.

Só que alguns clientes descobriram tarde demais que informações fundamentais sobre suas futuras esposas não eram exatamente aquilo que lhes havia sido apresentado.

Histórico de relacionamentos, filhos, dívidas e outras informações pessoais estariam entre os dados supostamente omitidos ou apresentados de maneira incorreta em alguns casos.

E quando o casamento já aconteceu, desfazer tudo pode ser muito mais complicado.

Um homem gastou quase meio milhão de yuans

O golpe dos “casamentos-relâmpago” cresce na China e algumas vítimas perderam tudo
© Eric Prouzet – Unsplash

Entre os casos que ganharam repercussão está o de Wang Zhuang, que recorreu a uma agência matrimonial em busca de uma esposa.

Segundo relatos sobre sua história, o processo avançou rapidamente, mas meses depois ele afirma ter descoberto informações importantes sobre o passado da mulher que não conhecia antes do casamento. O prejuízo financeiro também foi enorme.

Casamentos na China podem envolver o chamado “preço da noiva”, uma quantia entregue pelo homem ou por sua família à mulher ou aos familiares dela. Dependendo da região e das circunstâncias, esses valores podem atingir centenas de milhares de yuans.

Em um dos casos relatados pela investigação, somente esse pagamento ultrapassou 300 mil yuans, aproximadamente US$ 44 mil. Considerando casamento e outras despesas, o custo total teria ficado entre 400 mil e 500 mil yuans.

Quando a relação termina rapidamente ou surgem indícios de fraude, recuperar esse dinheiro está longe de ser simples.

Wang decidiu transformar sua experiência em alerta. Ele passou a publicar vídeos nas redes sociais e chegou a viajar a Pequim para pedir que as autoridades adotassem medidas mais duras contra práticas abusivas no setor.

Mas por que tantos homens estão dispostos a assumir riscos tão elevados para se casar?

A resposta começa décadas antes do surgimento dessas agências.

A origem do problema está em uma diferença de milhões de pessoas

A China possui aproximadamente 30 milhões de homens a mais do que mulheres, uma desigualdade demográfica construída ao longo de décadas. Entre os fatores associados estão a antiga política do filho único e uma preferência histórica por filhos homens em determinadas famílias.

Embora a política do filho único tenha terminado, seus efeitos demográficos não desapareceram.

A situação é particularmente complicada para homens de regiões rurais e cidades menores. Com menos potenciais parceiras disponíveis, a competição matrimonial aumenta, assim como as expectativas financeiras envolvidas no casamento.

Nesse ambiente, as agências oferecem algo extremamente valioso: acesso rápido a mulheres interessadas em casar.

Guiyang, capital da província de Guizhou, no sudoeste do país, tornou-se um dos centros desse mercado. Algumas empresas conectam mulheres da região com homens de outras províncias que possuem melhores condições econômicas, mas encontram dificuldades para conseguir uma parceira.

Representantes do setor argumentam que a maioria das informações fornecidas pelos clientes é verdadeira e que intermediários locais conhecem as mulheres e suas famílias. Entretanto, uma agência consultada pela BBC reconheceu que não realizava verificações formais de antecedentes.

É justamente nesse espaço entre confiança, urgência e pouca fiscalização que surgem oportunidades para fraudes.

As autoridades chinesas decidiram entrar no jogo

O problema cresceu o suficiente para chamar a atenção do governo.

Entre janeiro de 2024 e março de 2025, promotores chineses lidaram com casos envolvendo 1.546 pessoas acusadas de crimes relacionados à indústria de intermediação matrimonial. Em um episódio, uma agência teria utilizado funcionárias de karaokê para atrair clientes e enganado 128 vítimas, causando perdas superiores a 2,5 milhões de yuans.

Em agosto, cinco autoridades chinesas lançaram conjuntamente uma ofensiva nacional contra irregularidades no setor, diante da crescente preocupação pública.

Mesmo assim, existe um obstáculo inesperado.

Provar judicialmente que um casamento foi planejado desde o início como fraude pode ser extremamente difícil. Segundo especialistas jurídicos citados na cobertura do caso, é necessário demonstrar que havia intenção prévia de obter dinheiro da vítima.

Uma pessoa acusada pode argumentar que realmente pretendia construir uma relação, mas posteriormente percebeu que o casamento não funcionaria.

As próprias agências também podem desaparecer ou encerrar suas atividades depois de receber pagamentos, dificultando ainda mais qualquer tentativa de recuperar o dinheiro.

Por trás dessas histórias, portanto, existe algo maior do que um novo tipo de golpe romântico.

Os casamentos-relâmpago expõem uma consequência inesperada de uma transformação demográfica iniciada décadas atrás. Milhões de homens enfrentam um mercado matrimonial profundamente desigual, enquanto intermediários prometem transformar dinheiro em uma solução rápida para a solidão.

Para alguns, funciona. Para outros, a promessa de encontrar uma esposa em poucos dias termina exatamente onde começou: sem uma parceira, mas agora também sem as economias.

[Fonte: BBC]

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