Imagine duas pessoas frente a frente, cercadas por uma pequena multidão, enquanto executam poses, olhares, movimentos e referências que parecem ter escapado diretamente do TikTok. Não há golpes, bola ou sequer regras muito claras. Ainda assim, existe competição, torcida e até vencedores. As chamadas batalhas para “farmar aura” estão conquistando jovens e adolescentes e transformando uma expressão da internet em um curioso fenômeno das ruas.
Afinal, o que significa “farmar aura”?
Para entender a nova tendência, é preciso primeiro decifrar uma combinação de palavras que faz muito mais sentido para quem cresceu cercado por videogames e redes sociais.
“Farmar” vem do inglês farm e ganhou um significado próprio na cultura gamer. Nos jogos, o verbo é usado para descrever a repetição de determinadas ações com o objetivo de acumular recursos, experiência ou pontos.
“Aura”, por sua vez, ganhou outra vida na linguagem digital. Não tem relação direta com espiritualidade. É uma espécie de pontuação imaginária para carisma, presença, estilo e capacidade de impressionar os outros.
Junte os dois conceitos e surge “farmar aura”: fazer alguma coisa capaz de aumentar simbolicamente seu nível de carisma. Uma pose certeira, uma resposta inesperada, uma maneira confiante de caminhar ou simplesmente um momento considerado extraordinariamente estiloso podem render “pontos de aura”.
A brincadeira já circulava há algum tempo em memes e vídeos. A novidade é que ela deixou de existir exclusivamente dentro das telas.
Jovens começaram a organizar verdadeiras batalhas de aura, encontros presenciais nos quais participantes competem para descobrir quem consegue impressionar mais.
E é aí que tudo fica consideravelmente mais estranho para quem não conhece os códigos.
Não existem golpes: as armas são poses, memes e olhares
As batalhas lembram vagamente competições de dança ou batalhas de rap, mas funcionam segundo uma lógica muito particular.
Dois ou mais participantes entram em uma espécie de duelo performático. Cada um tenta demonstrar mais “aura” por meio de poses, gestos, pequenas coreografias, expressões faciais e movimentos inspirados em tendências que circulam nas redes sociais.
Referências a memes fazem parte do repertório. O gesto conhecido como “six-seven”, por exemplo, aparece frequentemente nas performances. Músicas de funk ou phonk ajudam a criar o clima enquanto os participantes tentam superar uns aos outros.
Não existe um regulamento universal dizendo exatamente o que vale um ponto ou qual movimento garante a vitória.
O público, ou eventualmente um júri, decide quem conseguiu demonstrar mais presença. Alguns competidores adotam personagens sérios e quase misteriosos. Outros preferem transformar tudo em humor.
E talvez justamente por não haver regras rígidas a tendência consiga incorporar rapidamente novos memes.
Aquilo que hoje garante aura pode amanhã significar exatamente o contrário.
O fenômeno ganhou força inicialmente na América Latina, com encontros registrados em países como México e Brasil, e rapidamente começou a aparecer também do outro lado do Atlântico.
A brincadeira viral já atravessou o oceano
Na Espanha, encontros chegaram a cidades como A Coruña e Barcelona, enquanto novas convocações começaram a circular pelas redes. A expansão mostra como uma linguagem criada no ambiente digital consegue atravessar países praticamente sem precisar de tradução.
Até Rosalía acabou entrando no radar dessa nova cultura.
Durante sua passagem pela Cidade do México, a cantora espanhola foi vista acompanhando uma dessas batalhas, ajudando a colocar ainda mais atenção sobre uma tendência que já vinha crescendo entre adolescentes e jovens.
Mas existe uma curiosa contradição por trás do fenômeno.
Durante anos, adultos reclamaram que adolescentes estavam deixando praças, parques e encontros presenciais para passar cada vez mais tempo olhando para o celular. Agora, uma tendência nascida justamente nas redes sociais está fazendo o caminho inverso.
Os participantes descobrem os códigos no TikTok, imitam os gestos, encontram outras pessoas presencialmente, realizam as batalhas, gravam tudo e depois devolvem o conteúdo à internet.
A antropóloga social Belén Silva descreve esse comportamento como um processo circular: o digital influencia aquilo que acontece fisicamente, enquanto os encontros presenciais criam novos códigos que posteriormente retornam às redes.
Parece estranho, mas outras gerações fizeram algo parecido
A primeira reação de muitos adultos aos vídeos costuma variar entre perplexidade e constrangimento. Só que especialistas consultados pelo El País apontam para algo bastante familiar: praticamente toda geração cria códigos culturais que parecem absurdos para aquela que veio antes.
As batalhas também oferecem aos participantes oportunidades para socializar, conhecer pessoas e ocupar espaços públicos.
Há inclusive comparações, guardadas as enormes diferenças históricas e sociais, com elementos performáticos das competições ballroom, desenvolvidas principalmente por comunidades negras e latinas LGBTQIA+ nos Estados Unidos. Nelas, performance, estética, personalidade e reconhecimento do público também ocupavam posições centrais.
No caso atual, porém, a matéria-prima são os códigos de uma geração criada entre memes, streamers, videogames e vídeos curtos.
Talvez por isso seja tão difícil explicar uma batalha de aura para quem nunca viu uma.
Não existe exatamente um talento específico que determine o melhor competidor. É preciso compreender a referência, perceber a ironia e reconhecer aquele elemento praticamente impossível de medir que os jovens decidiram transformar em pontuação imaginária: o carisma.
E, como quase tudo na cultura digital, existe ainda o risco de fazer justamente o contrário.
Quem tenta ganhar aura e acaba protagonizando um momento constrangedor pode “perder pontos”. A internet já encontrou até uma brincadeira para essa situação: em alguns círculos, quem não tem “aura” virou simplesmente “Laura”.
Pode parecer apenas mais uma moda passageira. Mas, por enquanto, as batalhas continuam crescendo, atravessando países e produzindo novos vídeos. O mais curioso é que uma geração frequentemente acusada de viver presa às telas encontrou na própria internet um motivo para voltar às ruas.
[Fonte: Yahoo!]