Nos últimos meses, uma nova tendência tomou conta do TikTok: vídeos de vendedores chineses oferecendo produtos de marcas famosas por preços absurdamente baixos. Hermès, Louis Vuitton, Nike e outras grifes aparecem em vídeos que prometem acesso direto às fábricas — um atrativo irresistível para quem busca luxo por menos. Mas especialistas e as próprias marcas fazem um alerta importante: cuidado com o que parece bom demais para ser verdade.
A guerra comercial reacende uma velha prática

A escalada nas tarifas americanas sobre produtos chineses, iniciada por Donald Trump e intensificada recentemente, deu novo fôlego a vídeos de produtos “Made in China” nas redes sociais. Segundo o TikTok, a hashtag #madeinchina cresceu em menções logo após os aumentos tarifários, que chegaram a 145%, com possibilidade de saltar para 245% em alguns casos.
Criadores de conteúdo passaram a vender a ideia de que estão revelando “segredos ocultos” da indústria de luxo. Um influenciador norte-americano, por exemplo, diz que “a guerra comercial está revelando o que é real e o que é fake”, e elogia o fato de fabricantes chineses “expor sem medo” como funcionam os bastidores de grandes marcas.
O apelo da “revolução do luxo acessível”
Vídeos mostram supostos fabricantes revelando que bolsas Hermès de US$ 23 mil sairiam por US$ 600 diretamente das fábricas na China. Vendedoras afirmam que leggings de US$ 100 da Lululemon podem ser adquiridas por US$ 5. E tudo com “o mesmo material e acabamento” dos produtos vendidos em lojas oficiais. Será?
A proposta vendida é tentadora: os consumidores acreditam estar comprando itens iguais aos vendidos em Paris ou Nova York, mas por uma fração do preço. Muitos desses perfis orientam os interessados a clicarem em links privados ou enviarem mensagens diretas para concluir a compra — um processo que contorna as plataformas de e-commerce e dificulta qualquer rastreamento ou garantia.
Especialistas: “não existe milagre no consumo”
Para o especialista em negócios e tecnologia Arthur Igreja, a prática é apenas uma versão digitalizada de um velho esquema: o comércio de falsificações. “Não é diferente de quem vende Louis Vuitton falsificada na calçada. A diferença é que agora fazem isso via TikTok”, afirma.
Segundo ele, a promessa de comprar produtos de luxo diretamente das fábricas é ilusória. “Essas fábricas são auditadas com extremo rigor. É ingenuidade acreditar que alguém vazaria vídeos ou venderia diretamente, sem o controle da marca.”
O verdadeiro valor dos produtos de luxo, lembra Igreja, não está apenas nos materiais ou na fabricação, mas na percepção de exclusividade. “O preço alto não vem do custo de produção, mas do valor simbólico da marca. E isso é impossível de replicar com autenticidade em um esquema paralelo.”
O que dizem as marcas?
As empresas citadas reagiram com firmeza. A Hermès e a Louis Vuitton negam ter produção na China e reafirmam que fabricam seus produtos principalmente na Europa. A Lululemon, embora reconheça que 19% de seus produtos são feitos no país asiático, garantiu ao New York Times que não trabalha com os fabricantes citados nos vídeos.
A Nike, procurada pelo g1, foi categórica: consumidores devem procurar apenas canais oficiais ou parceiros autorizados. Já Adidas e New Balance, que possuem parte de sua produção na China, não responderam aos questionamentos.
Entre ilusão e risco
Com a ascensão desses conteúdos, o TikTok já removeu vídeos que violam suas diretrizes. A rede afirma que a plataforma “não é um local para tráfico ilegal ou comércio não autorizado”. Mas os conteúdos continuam circulando, replicados por perfis secundários, o que dificulta o controle.
Arthur Igreja recomenda uma postura que chama de “desconfiança proativa”: sempre duvidar de ofertas milagrosas e buscar a origem das promoções. “Se estiver barato demais, desconfie. Verifique no site da marca. Não caia na ilusão de estar comprando luxo legítimo por centavos.”
Fonte: G1.Globo