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Ciência

Metade de Marte esconde algo muito diferente da outra e cientistas finalmente conseguiram detectar

Décadas de dados de missões espaciais revelaram uma anomalia profunda em Marte. A descoberta pode ajudar a explicar antigos mistérios sobre água, magnetismo e evolução planetária.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Marte sempre pareceu dividido em dois mundos. De um lado, planícies relativamente suaves; do outro, terrenos elevados, antigos e cobertos por crateras. Durante décadas, essa diferença parecia estar principalmente na superfície. Agora, uma nova técnica permitiu olhar muito mais fundo sem sequer perfurar o planeta. O resultado revelou que a divisão marciana chega às suas entranhas — e envolve uma diferença de temperatura difícil de imaginar.

O segredo apareceu em dados que estavam disponíveis há décadas

Metade de Marte esconde algo muito diferente da outra e cientistas finalmente conseguiram detectar
© Pexels

Para descobrir o que existe nas profundezas de Marte, os cientistas não precisaram enviar uma nova sonda ao planeta. Em vez disso, voltaram aos arquivos de três missões da NASA: Mars Global Surveyor, Mars Odyssey e Mars Reconnaissance Orbiter.

O grupo, liderado por Alexander Berne, ex-pesquisador do Caltech e atualmente associado à Universidade do Arizona, analisou alterações extremamente pequenas na velocidade orbital dessas espaçonaves. Essas variações permitem reconstruir detalhes do campo gravitacional marciano e, indiretamente, investigar o que acontece muito abaixo da crosta.

O método utilizado recebe o nome de tomografia de marés. Ele também considera como a atração gravitacional do Sol afeta Marte ao longo de sua órbita ligeiramente elíptica e como essas assinaturas mudam com o tempo.

É quase como realizar uma tomografia do planeta sem precisar entrar nele.

O estudo, publicado na revista Nature, partiu de uma ideia aparentemente simples: se o interior marciano fosse aproximadamente simétrico, como muitos modelos tradicionalmente assumem, seu comportamento gravitacional deveria refletir essa característica.

Mas os dados mostraram outra coisa.

Marte esconde uma diferença de até 400 °C entre seus hemisférios

A grande surpresa estava no hemisfério sul. De acordo com os modelos produzidos pelos pesquisadores, o interior dessa metade de Marte pode ser entre 200 °C e 400 °C mais quente do que o interior do hemisfério norte.

E existe outro detalhe ainda mais intrigante: partes desse material podem permanecer parcialmente fundidas.

Isso acrescenta uma nova dimensão à famosa dicotomia marciana.

Na superfície, as diferenças entre norte e sul já são conhecidas há décadas. O hemisfério norte é dominado por grandes planícies baixas e relativamente suaves. O sul, por sua vez, apresenta regiões elevadas, montanhas e uma quantidade muito maior de crateras.

Agora sabemos que essa assimetria não termina na crosta.

O interior do planeta também parece dividido termicamente, algo que desafia a visão simplificada de que corpos planetários possuem estruturas internas essencialmente uniformes em todas as direções.

Mais importante ainda, a descoberta pode encaixar algumas peças de um quebra-cabeça que os cientistas tentam montar há anos.

A missão InSight, por exemplo, detectou anteriormente que ondas sísmicas perdiam energia mais rapidamente no sul de Marte. Um interior mais quente oferece uma possível explicação para esse comportamento.

Um mistério de bilhões de anos pode estar por trás desse calor

Por que metade do interior marciano continua tão mais quente?

Os pesquisadores ainda não possuem uma resposta definitiva, mas algumas hipóteses começam a ganhar força.

Uma delas leva a história para mais de 4 bilhões de anos atrás. Um impacto colossal poderia ter alterado profundamente o hemisfério norte, permitindo que essa região liberasse calor de maneira diferente durante a evolução do planeta.

Outra possibilidade está no próprio sul.

A crosta dessa região é mais espessa e pode ter funcionado como uma gigantesca manta térmica, dificultando a saída do calor interno. Nesse cenário, parte da energia teria permanecido aprisionada durante bilhões de anos. Processos antigos de convecção no manto também estão entre as explicações consideradas pelos pesquisadores.

Nenhuma dessas possibilidades foi confirmada, e justamente por isso a descoberta abre uma nova frente de investigação.

O calor também pode ajudar a compreender as misteriosas anomalias magnéticas encontradas em minerais ricos em ferro no hemisfério sul. Marte não possui atualmente um campo magnético global como o terrestre, mas evidências indicam que teve um no passado remoto.

Entender como o manto evoluiu pode oferecer pistas sobre quando e por que esse escudo desapareceu.

A descoberta também pode contar uma história sobre a água

Existe ainda uma consequência especialmente interessante: compreender a divisão interna de Marte pode ajudar os cientistas a reconstruir a história da água no planeta.

O norte marciano contém enormes regiões baixas que, segundo algumas hipóteses, poderiam ter abrigado grandes volumes de água no passado. Processos internos capazes de alterar a crosta, formar bacias e alimentar atividade vulcânica teriam influenciado diretamente as condições da superfície.

Isso torna a nova anomalia térmica relevante também para uma das maiores perguntas da exploração marciana: em algum momento, Marte reuniu condições suficientemente favoráveis para a vida?

A descoberta não demonstra que organismos tenham existido por lá. Tampouco significa que exista um oceano de magma escondido sob o hemisfério sul. O estudo aponta para uma região do manto significativamente mais quente e possivelmente parcialmente fundida.

Mas compreender essa diferença pode revelar como Marte perdeu sua água, seu campo magnético e grande parte das condições que um dia fizeram dele um mundo muito diferente daquele deserto congelado que vemos atualmente.

Uma nova maneira de enxergar mundos sem pousar neles

Talvez uma das partes mais promissoras do estudo esteja além de Marte.

A tomografia de marés oferece aos pesquisadores uma ferramenta para investigar estruturas tridimensionais dentro de corpos celestes utilizando pequenas alterações gravitacionais. Conforme medições mais precisas forem acumuladas, modelos internos também poderão se tornar mais detalhados.

A técnica pode, no futuro, contribuir para estudos de outros mundos, incluindo planetas e grandes luas do Sistema Solar.

Isso significa que a descoberta marciana não revelou apenas um surpreendente desequilíbrio térmico.

Ela mostrou que informações coletadas durante décadas por espaçonaves podem esconder descobertas que ainda não sabemos procurar.

Marte continua exatamente onde sempre esteve. Mas, depois dessa pesquisa, o planeta vermelho parece muito menos uniforme — e muito mais estranho — por dentro.

[Fonte: Rosario3]

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