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Ciência

Magnésio ou melatonina: a nova disputa do sono tem uma resposta menos óbvia do que parece

Um suplemento cada vez mais popular promete noites melhores e vem conquistando espaço entre quem busca alternativas para dormir. Mas o entusiasmo nas redes sociais esconde algumas ressalvas importantes.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Durante anos, a melatonina praticamente reinou sozinha nas prateleiras destinadas a quem procura uma ajudinha para dormir. Agora, porém, outro nome começa a aparecer em vídeos, recomendações e rotinas noturnas. Não é uma substância nova nem uma descoberta recente. Pelo contrário: está presente naturalmente no organismo e em muitos alimentos. A questão é se sua crescente fama como aliado do sono realmente acompanha aquilo que a ciência já conseguiu demonstrar.

O novo protagonista das rotinas noturnas não é exatamente novo

Magnésio ou melatonina: a nova disputa do sono tem uma resposta menos óbvia do que parece
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O magnésio virou uma das grandes tendências do universo do sono. Nas redes sociais, suplementos do mineral aparecem associados a relaxamento, redução da tensão muscular e noites supostamente mais tranquilas.

Os números ajudam a explicar a sensação de mudança. Nos Estados Unidos, as vendas de suplementos para dormir contendo magnésio cresceram cerca de 17% em 2025, enquanto os produtos com melatonina avançaram aproximadamente 5%, segundo dados da consultoria Nutrition Business Journal citados pelo The New York Times.

Isso não significa que o magnésio tenha ultrapassado a melatonina em vendas totais. Os suplementos para dormir contendo o hormônio ainda movimentaram quase US$ 800 milhões naquele mercado em 2025. O que mudou foi a velocidade com que o interesse pelo mineral está crescendo.

E existe uma razão biológica para tanto entusiasmo.

O magnésio é um mineral essencial envolvido em centenas de processos do organismo. No sistema nervoso, participa de mecanismos relacionados a neurotransmissores como o GABA, associado à redução da atividade neuronal e ao relaxamento. Essa atuação oferece uma explicação plausível para uma eventual influência sobre o sono.

Mas plausibilidade biológica e eficácia clínica não são exatamente a mesma coisa.

O que acontece quando o magnésio é colocado à prova

Magnésio ou melatonina: a nova disputa do sono tem uma resposta menos óbvia do que parece
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Alguns estudos encontraram resultados promissores. Uma revisão de ensaios clínicos com adultos mais velhos que apresentavam insônia observou uma redução média de aproximadamente 17 minutos no tempo necessário para adormecer entre aqueles que receberam suplementação de magnésio.

Parece significativo, mas existe uma ressalva essencial.

A análise envolveu apenas três ensaios clínicos randomizados, totalizando 151 participantes, e os próprios autores classificaram a qualidade das evidências como baixa ou muito baixa. O aumento observado na duração total do sono, por sua vez, não alcançou significância estatística.

Uma revisão posterior encontrou resultados positivos em alguns estudos sobre sono e ansiedade, mas novamente destacou problemas como amostras pequenas, formulações diferentes e grande variação entre os experimentos.

Por isso, instituições de saúde adotam uma posição muito mais cautelosa do que muitos vídeos nas redes sociais.

O Centro Nacional de Saúde Complementar e Integrativa dos Estados Unidos (NCCIH) afirma que existem poucas pesquisas rigorosas sobre suplementos de magnésio para insônia e outros distúrbios do sono. Até agora, portanto, não há evidência científica robusta suficiente para concluir que eles sejam efetivos como tratamento.

Então o magnésio é melhor que a melatonina?

Essa é justamente a comparação que ajudou a transformar o mineral em tendência. Só existe um problema: a ciência ainda não consegue responder.

Não há estudos rigorosos suficientes comparando diretamente magnésio e melatonina para estabelecer um vencedor. Na realidade, a pesquisa sobre os efeitos da melatonina no sono é consideravelmente mais extensa.

Além disso, os dois não funcionam exatamente da mesma maneira.

A melatonina é um hormônio produzido naturalmente pelo organismo e participa da regulação do ritmo circadiano. Sua suplementação possui evidências mais consistentes em situações específicas, como jet lag e determinados transtornos do ciclo sono-vigília. Isso não significa, porém, que seja uma solução universal para a insônia.

O magnésio, por outro lado, pode atuar em mecanismos associados ao relaxamento, à função muscular e ao funcionamento do sistema nervoso. Há pessoas que relatam dormir melhor depois de tomá-lo, mas ainda não está claro quanto desse benefício deriva diretamente da suplementação, de uma deficiência prévia do mineral ou até de um efeito placebo.

Em outras palavras, a disputa “magnésio versus melatonina” funciona melhor nas redes sociais do que nos laboratórios.

O detalhe que costuma desaparecer das recomendações da internet

O fato de o magnésio ser um nutriente essencial não significa que qualquer pessoa deva começar a tomar suplementos indiscriminadamente.

Ele pode ser obtido naturalmente por meio da alimentação. Folhas verdes, leguminosas, sementes, castanhas, grãos integrais, abacate e alguns peixes estão entre as fontes alimentares do mineral.

Já doses elevadas provenientes de suplementos e medicamentos podem provocar efeitos adversos. Diarreia, náusea e cólicas abdominais estão entre os problemas mais comuns, enquanto quantidades extremamente altas podem causar consequências muito mais graves.

Isso é especialmente relevante porque a insônia persistente pode ter inúmeras causas. Estresse, ansiedade, horários irregulares, medicamentos, cafeína, condições médicas e distúrbios específicos do sono podem estar envolvidos.

Para a insônia crônica, abordagens como a terapia cognitivo-comportamental para insônia (TCC-I) continuam contando com recomendações muito mais sólidas do que suplementos.

O magnésio, portanto, pode ter encontrado seu momento de fama e há sinais científicos que justificam continuar investigando seu potencial. Mas a história ainda está longe de permitir a conclusão que as redes sociais adorariam oferecer.

Na corrida para substituir a melatonina na mesa de cabeceira, o magnésio está avançando rapidamente. A ciência, por enquanto, prefere caminhar mais devagar.

[Fonte: El dia]

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