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Ciência

O mapa-múndi que você aprendeu na escola está errado e a ONU acaba de tomar uma decisão histórica

Uma decisão apoiada por quase toda a ONU pode transformar a imagem do planeta que conhecemos há séculos e corrigir uma distorção surpreendente sobre um continente inteiro.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Há imagens tão familiares que raramente pensamos em questioná-las. O mapa-múndi pendurado nas salas de aula é uma delas. Mas aquela representação aparentemente objetiva do planeta esconde uma distorção enorme, herdada de uma solução criada há quase cinco séculos. Agora, uma votação histórica nas Nações Unidas pode acelerar uma mudança que chegará às escolas, instituições e, eventualmente, às telas que consultamos todos os dias.

O problema escondido no mapa que aprendemos a reconhecer

A Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que incentiva a substituição, em diversos contextos, do tradicional mapa baseado na projeção de Mercator por uma representação capaz de preservar melhor as proporções reais das massas terrestres. A iniciativa foi liderada por Togo e respaldada pela União Africana.

A votação foi expressiva: 164 países apoiaram a resolução. Seis se abstiveram e os Estados Unidos foram o único país a votar contra. Apesar do resultado, a decisão não é juridicamente vinculante, portanto não obriga governos ou instituições a abandonar imediatamente seus mapas atuais.

Para entender por que a discussão ganhou tamanha dimensão, é preciso voltar a 1569. Foi naquele ano que o cartógrafo flamengo Gerardus Mercator apresentou uma projeção extremamente útil para a navegação. Transformar a superfície curva da Terra em um retângulo plano exige inevitavelmente algum tipo de deformação, e a solução de Mercator tinha uma vantagem fundamental para os navegadores.

O problema aparece quando esse instrumento é tratado como uma representação fiel das dimensões dos continentes.

Na projeção, regiões próximas aos polos ficam visualmente ampliadas, enquanto territórios mais próximos ao equador parecem proporcionalmente menores. O resultado está diante de nossos olhos há gerações, embora muita gente nunca tenha percebido.

África revela o tamanho da distorção

O mapa-múndi que você aprendeu na escola está errado e a ONU acaba de tomar uma decisão histórica
© Pexels

Talvez o exemplo mais impressionante seja a comparação entre África e Groenlândia. Em muitos mapas baseados em Mercator, os dois territórios podem parecer ter dimensões relativamente próximas.

Na realidade, a África é aproximadamente 14 vezes maior que a Groenlândia. A diferença ajuda a demonstrar quanto a projeção pode alterar nossa percepção intuitiva do planeta.

É justamente esse efeito que a iniciativa Correct the Map pretende combater. Para seus defensores, não se trata apenas de uma curiosidade cartográfica. Se gerações crescem observando determinadas regiões como enormes e outras como relativamente pequenas, essa representação pode influenciar a maneira como imaginamos sua importância geográfica, econômica e política.

A alternativa promovida pela resolução é a projeção Equal Earth, criada em 2018. Diferentemente de Mercator, ela foi desenvolvida para preservar as áreas relativas dos continentes, embora, como qualquer mapa plano de uma Terra aproximadamente esférica, também precise fazer concessões em outros aspectos.

Os 54 Estados-membros da União Africana já haviam adotado a proposta anteriormente. Agora, o respaldo da Assembleia Geral amplia enormemente a visibilidade internacional do movimento.

A mudança também possui uma dimensão educacional. Togo pretende atualizar seus materiais escolares de geografia até o fim de 2026 e espera convencer outros governos, instituições e empresas de tecnologia a fazer movimentos semelhantes.

A votação também abriu uma disputa política

Nem todos enxergaram a iniciativa da mesma maneira. Os Estados Unidos justificaram seu voto contrário argumentando que a discussão promove uma agenda ideológica e desvia a atenção da ONU de questões consideradas mais urgentes relacionadas à paz e à prosperidade internacionais.

Do outro lado, os defensores da mudança sustentam que mapas não são apenas instrumentos técnicos. Eles também ajudam a construir nossa percepção sobre o tamanho, a posição e até a relevância dos diferentes lugares do mundo.

A França está entre os países que apoiaram a iniciativa, e seu ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, anunciou que a chancelaria francesa deixará de utilizar a projeção de Mercator.

Isso não significa, porém, que Mercator esteja prestes a desaparecer. A própria resolução reconhece sua utilidade para navegação marítima e aérea. A discussão está concentrada principalmente nos contextos em que comparar corretamente as dimensões dos territórios é mais importante, como atlas, livros escolares, materiais institucionais e representações destinadas ao público geral.

A próxima mudança pode acontecer nas telas

O verdadeiro impacto da resolução dependerá do que acontecer daqui para frente. Por não ser obrigatória, ela funciona sobretudo como um impulso político e institucional para governos, escolas, editoras, organizações internacionais e plataformas digitais reconsiderarem quais projeções utilizam.

E existe um detalhe importante: hoje, muita gente conhece o planeta menos por um atlas impresso e mais pelo celular ou computador. Por isso, empresas responsáveis por mapas digitais, GPS e serviços de localização podem desempenhar um papel decisivo nessa transformação. Togo pretende incluir o setor tecnológico nas próximas discussões sobre a implementação da proposta.

Se o movimento avançar, a consequência será curiosa. O planeta continuará exatamente igual, mas a imagem mental que bilhões de pessoas construíram dele poderá mudar.

Depois de quase cinco séculos olhando para uma versão distorcida das proporções terrestres, talvez estejamos prestes a descobrir que alguns lugares que pareciam menores no mapa nunca foram pequenos de verdade.

[Fonte: BBC]

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