Quase um século depois de as brasileiras conquistarem o direito de votar, uma proposta considerada superada pela história voltou a circular nas redes sociais: retirar das mulheres a possibilidade de escolher seus representantes políticos. Defendida por setores radicais do movimento antifeminista, a ideia ganha visibilidade nos Estados Unidos e encontra adeptos no Brasil. O fenômeno chama atenção justamente quando o país registra um número recorde de mulheres eleitas para o Congresso Nacional.
O movimento que quer substituir o voto feminino pelo voto familiar

Nos Estados Unidos, grupos ultraconservadores vêm promovendo conteúdos que defendem uma reorganização dos papéis de homens e mulheres na sociedade.
Entre as propostas mais extremas está a substituição do voto individual pelo chamado voto familiar.
Nesse modelo, o homem considerado chefe da família seria responsável por representar politicamente os demais integrantes do núcleo doméstico.
A justificativa apresentada pelos defensores é que a família deveria funcionar como uma unidade política, com uma única decisão eleitoral.
Na prática, entretanto, a proposta retiraria das mulheres casadas a autonomia para escolher seus representantes.
O fenômeno foi discutido no episódio de 13 de outubro de 2026 do podcast O Assunto, apresentado por Natuza Nery no g1, com participação de especialistas em política e relações internacionais.
A discussão envolve não apenas o direito ao voto, mas também a influência das redes sociais na circulação de ideias sobre gênero e participação política.
Por que algumas mulheres defendem perder o próprio direito de votar?

Um aspecto que chama atenção é a participação de mulheres na divulgação dessas ideias.
Algumas influenciadoras associadas ao movimento tradwife, expressão inglesa utilizada para descrever mulheres que valorizam papéis domésticos tradicionais, defendem que decisões políticas sejam responsabilidade masculina.
Entretanto, é importante distinguir os grupos.
Nem todas as mulheres que preferem uma organização familiar tradicional são contrárias ao voto feminino.
A defesa da vida doméstica e a oposição ao sufrágio são posições diferentes, embora possam aparecer associadas em determinados discursos.
A pesquisadora Lois Shearing, autora de Pink-Pilled: Women and the Far Right, publicado em 2025, analisa como comunidades femininas podem contribuir para a disseminação de ideias políticas antifeministas.
Entre os fatores estudados estão experiências de solidão, insatisfação social e busca por pertencimento.
Essas condições podem ajudar a explicar a atração exercida por determinadas comunidades digitais, mas não significam que suas participantes compartilhem necessariamente todas as posições mais radicais.
Como esse discurso chegou ao Brasil?
O debate ganhou repercussão após a eleição de Eduarda Campopiano, do PL, para a Assembleia Legislativa de São Paulo.
A parlamentar recebeu aproximadamente 1,96 milhão de votos em outubro de 2026, tornando-se a deputada estadual mais votada naquele pleito.
Conhecida por críticas ao feminismo, Campopiano passou a ser associada a influenciadoras que questionam o direito das mulheres ao voto.
Entretanto, em entrevista à Folha de S.Paulo, a deputada afirmou que não defende a retirada desse direito.
Ela reconheceu sua proximidade com Pietra Bertolazzi, influenciadora que já se manifestou contra o voto feminino, mas ressaltou que não concorda necessariamente com todas as posições dela.
A distinção é importante: criticar o feminismo não significa automaticamente defender o fim do sufrágio feminino.
Ainda assim, a circulação dessas propostas demonstra como discussões antes restritas a pequenos grupos podem ganhar visibilidade nacional.
O voto feminino no Brasil foi conquistado em 1932
As brasileiras conquistaram o direito ao voto nacionalmente com o Código Eleitoral de 1932, durante o governo de Getúlio Vargas.
A mudança ocorreu após décadas de mobilização de mulheres que reivindicavam participação política.
Entre as principais figuras desse processo estava Bertha Lutz, bióloga e ativista que ajudou a organizar o movimento sufragista brasileiro.
A conquista não significou igualdade política imediata.
Inicialmente, o exercício do voto ainda enfrentava restrições e desigualdades. A Constituição de 1934 consolidou o direito, enquanto mudanças posteriores ampliaram sua abrangência.
A participação eleitoral das mulheres também avançou em ritmos diferentes pelo mundo.
Nos Estados Unidos, a 19ª Emenda constitucional, ratificada em 1920, proibiu a discriminação eleitoral baseada no sexo, embora outras barreiras continuassem dificultando o voto de muitas mulheres, especialmente negras.
No Brasil, o voto feminino integra atualmente o sistema constitucional de direitos políticos.
Mulheres conquistam recorde de cadeiras no Congresso
O crescimento dos discursos antifeministas ocorre em um momento de ampliação da representação feminina.
Nas eleições de 2026, 109 mulheres foram eleitas para a Câmara dos Deputados, estabelecendo um recorde nacional.
O número representa aproximadamente 21% das 513 cadeiras.
Apesar do avanço, a proporção permanece distante da participação feminina na população brasileira.
O resultado também revela uma característica importante: as mulheres eleitas pertencem a diferentes partidos e defendem posições políticas diversas.
Algumas se identificam com movimentos feministas, enquanto outras adotam discursos conservadores ou antifeministas.
Portanto, o aumento da presença feminina no Parlamento não significa necessariamente maior consenso sobre políticas de igualdade de gênero.
As redes sociais estão transformando o debate político?
Plataformas digitais permitem que discursos antes pouco conhecidos alcancem grandes públicos.
Vídeos curtos, transmissões ao vivo e comunidades de influenciadores ajudam a divulgar propostas que provocam reações intensas.
Após as eleições de outubro, buscas relacionadas ao feminismo cresceram significativamente no Brasil, segundo dados do Google Trends divulgados pela imprensa.
A atenção despertada pelo tema também mostra que conteúdos controversos podem estimular debates públicos sobre direitos e participação política.
Especialistas, porém, alertam para a necessidade de distinguir a popularidade de determinadas publicações da existência de apoio social majoritário às ideias apresentadas.
Não há evidências de que a proposta de eliminar o voto feminino represente a opinião predominante dos brasileiros.
O episódio revela uma contradição da política contemporânea: enquanto mais mulheres conquistam espaço nas instituições, pequenos grupos utilizam a visibilidade das redes para questionar direitos que possibilitaram essa participação.