A corrida pela inteligência artificial costuma ser associada a chips, programadores e modelos cada vez mais sofisticados. Mas uma das consequências mais inesperadas está acontecendo longe das telas. Nos Estados Unidos, a expansão acelerada dos centros de dados criou uma disputa por profissionais que até pouco tempo estavam distantes dos holofotes tecnológicos. Agora, alguns deles recebem salários muito superiores aos de colegas que exercem praticamente o mesmo trabalho em outros setores.
O boom da IA encontrou um obstáculo bem mais tradicional
Os investimentos em inteligência artificial dependem de uma infraestrutura física gigantesca. Servidores precisam de prédios, energia, refrigeração, cabeamento e manutenção constante. Isso significa que, por trás dos algoritmos, existe uma demanda crescente por eletricistas, técnicos de climatização, profissionais da construção e especialistas em manutenção.
Nos Estados Unidos, essa necessidade começa a produzir efeitos claros no mercado de trabalho.
A expansão dos centros de dados ganhou força a partir de 2023. Em junho, os investimentos nessas instalações acumulavam cerca de US$ 68 bilhões em um período de 12 meses, segundo dados citados pelo The Wall Street Journal.
O movimento já tem peso significativo na economia. Cálculos do economista de Harvard Jason Furman indicaram que equipamentos e softwares de processamento de informação representavam aproximadamente 4% do PIB americano no primeiro semestre de 2025. Esses investimentos teriam respondido por 92% do crescimento registrado no período analisado.
A infraestrutura continua avançando. O Pew Research Center contabilizou mais de 3 mil centros de dados em funcionamento nos Estados Unidos, enquanto mais de 1.500 novos projetos estavam em desenvolvimento. Muitos deles devem chegar a regiões rurais.
Só existe um problema: não há profissionais suficientes para construir e manter tudo isso.
Fazer o mesmo trabalho dentro de um data center pode render 42% a mais

A escassez encontrou a enorme capacidade financeira das empresas de tecnologia, e a velha lei da oferta e da demanda entrou em ação.
Dados da plataforma de empregos Indeed mostram que as vagas relacionadas aos serviços de centros de dados dobraram em dois anos. Elas passaram de aproximadamente dois anúncios em cada mil publicados em 2023 para seis em cada mil atualmente. Cerca de um quarto dessas oportunidades está ligado diretamente à instalação e à manutenção.
É nesse ponto que aparece um número que ajuda a dimensionar a transformação.
Profissionais de instalação e manutenção empregados em centros de dados recebem, em média, 42% mais por hora do que trabalhadores que exercem funções semelhantes em outros setores.
Os salários também mostram como essas ocupações se tornaram estratégicas. Um engenheiro iniciante especializado na manutenção dessas instalações pode receber aproximadamente US$ 66 mil anuais. Com experiência, a remuneração média pode chegar aos US$ 120 mil por ano.
Não é apenas uma questão de falta de candidatos.
Centros de dados funcionam continuamente e qualquer interrupção pode afetar serviços utilizados por milhões de pessoas. Isso exige trabalhadores com formação técnica específica, experiência prática e conhecimento rigoroso dos protocolos de segurança.
Em algumas instalações, a meta é manter disponibilidade de 99,999% durante o ano inteiro. Na prática, isso representa pouco mais de cinco minutos de interrupção anual.
Google e Meta decidiram formar seus próprios profissionais

A dificuldade para encontrar trabalhadores qualificados já está atrasando projetos.
Empresas do setor de construção relatam que algumas ampliações de centros de dados podem sofrer atrasos de até oito meses e meio. Entre os profissionais mais difíceis de encontrar estão justamente os eletricistas, fundamentais para instalações que consomem enormes quantidades de energia.
As gigantes da tecnologia começaram então a adotar uma solução incomum: formar a própria mão de obra.
A Google destinou US$ 50 milhões a programas para capacitar eletricistas e outros profissionais especializados. A Meta, por sua vez, criou uma academia com investimento de US$ 115 milhões e objetivo de preparar aproximadamente 5 mil trabalhadores.
A mudança também chegou às instituições de ensino. No condado de Loudoun, na Virgínia, uma faculdade comunitária passou a oferecer formação específica em operações de centros de dados, adaptando seus cursos às necessidades de um mercado que cresce rapidamente.
O resultado é um paradoxo interessante: enquanto a IA alimenta o temor de substituir empregos de escritório, sua infraestrutura está valorizando profissões técnicas e manuais que durante décadas receberam muito menos atenção.
Os empregos são desejados, mas os centros de dados nem tanto
Salários maiores e novas oportunidades não eliminaram outra consequência do boom.
Uma pesquisa da Gallup apontou que 71% dos americanos não querem um centro de dados de inteligência artificial próximo de onde vivem. Para efeito de comparação, 53% disseram rejeitar a construção de uma usina nuclear nas proximidades.
A resistência está relacionada principalmente ao impacto dessas instalações sobre os recursos locais. Centros de dados podem exigir grandes quantidades de eletricidade e, dependendo de seu sistema de refrigeração, também pressionar o consumo de água.
Isso cria uma situação peculiar.
Os Estados Unidos precisam construir mais infraestrutura para sustentar a corrida pela inteligência artificial. Para isso, precisam de milhares de trabalhadores especializados que já estão escassos. A falta de profissionais eleva salários e leva as próprias empresas a financiar programas de capacitação.
Ao mesmo tempo, parte significativa da população não quer essas enormes instalações como vizinhas.
A revolução da IA, portanto, está produzindo uma transformação inesperada no mercado de trabalho: alguns dos profissionais mais disputados da nova economia tecnológica não passam o dia desenvolvendo algoritmos. Eles instalam cabos, controlam sistemas elétricos, mantêm equipamentos refrigerados e garantem que os servidores nunca parem.
[Fonte: Xataka]