Pular para o conteúdo
Ciência

Novo estudo revela o que o aquecimento global está liberando sob o gelo antártico

Uma nova pesquisa revelou que uma região considerada uma das mais isoladas do planeta está liberando lentamente um contaminante acumulado ao longo de quase dois séculos. Os cientistas alertam para um efeito que pode se intensificar nos próximos anos.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Durante muito tempo, acreditou-se que o gelo da Antártida funcionava apenas como um registro silencioso das mudanças climáticas. No entanto, novas evidências mostram que ele também armazenou, por décadas, parte da poluição produzida pela atividade humana em diferentes continentes. Agora, com o avanço do aquecimento global e o recuo acelerado das geleiras, esse enorme reservatório natural começa a revelar uma consequência inesperada.

Um arquivo congelado da poluição produzida pela humanidade

Quando pensamos em contaminação industrial, normalmente imaginamos grandes cidades, chaminés, minas ou regiões altamente industrializadas. A Península Antártica, localizada a milhares de quilômetros desses centros urbanos, parece estar completamente distante dessa realidade. Mas um estudo recente mostra que nem mesmo um dos lugares mais remotos da Terra escapou dos efeitos da atividade humana.

Ao longo de aproximadamente dois séculos, partículas de mercúrio transportadas pela atmosfera chegaram até a região. Parte desse elemento teve origem em processos naturais, como erupções vulcânicas, incêndios florestais e erosão de rochas. Outra parcela, porém, veio das emissões provocadas pela queima de carvão, mineração de ouro, fundições e diversas atividades industriais espalhadas pelo planeta.

Durante décadas, o gelo e os solos permanentemente congelados funcionaram como uma espécie de depósito natural, retendo esse material sem permitir que ele circulasse novamente pelo ambiente.

Para reconstruir essa história, pesquisadores da China e da América do Norte analisaram 16 testemunhos de sedimentos retirados do fundo do mar em diferentes pontos da Península Antártica e de suas áreas costeiras.

Cada camada desses sedimentos funciona como uma página de um livro geológico. Combinando análises químicas e o estudo dos isótopos do mercúrio — uma espécie de assinatura química capaz de indicar sua origem — os cientistas conseguiram acompanhar a evolução da contaminação desde o período pré-industrial até os dias atuais.

Os resultados revelaram que a taxa de acúmulo de mercúrio aumentou cerca de 160% desde o início da Revolução Industrial. Atualmente, a plataforma continental da região recebe aproximadamente 93 microgramas adicionais de mercúrio por metro quadrado a cada ano, valor considerado cerca de duas vezes superior à média observada em outras plataformas continentais do planeta.

Esses números transformam a Península Antártica em uma das áreas mais importantes para compreender o comportamento global desse contaminante.

Gelo Antártico1
© INVDES

O derretimento das geleiras está mudando completamente esse equilíbrio

O estudo mostra que existem dois mecanismos responsáveis pela presença do mercúrio na região. O primeiro continua sendo a deposição atmosférica, processo no qual o elemento percorre longas distâncias pelo ar antes de se depositar sobre o gelo, o oceano ou o solo.

O segundo mecanismo, porém, é o que mais preocupa os pesquisadores.

À medida que as geleiras perdem massa devido ao aquecimento global, elas deixam expostos sedimentos que permaneceram congelados durante décadas. O derretimento produz grandes volumes de água, que passam a transportar essas partículas contaminadas até o oceano, enquanto a erosão acelera ainda mais esse deslocamento.

As estimativas apresentadas pelos pesquisadores indicam que o fluxo de mercúrio proveniente desse processo aumentou aproximadamente 550% desde o início da Revolução Industrial. Em outras palavras, hoje a quantidade de contaminante liberada por esse mecanismo é mais de seis vezes superior à registrada há cerca de 200 anos.

Os cientistas utilizam uma comparação simples para explicar o fenômeno: durante muito tempo, o gelo funcionou como um enorme cofre natural. Enquanto permanecia congelado, boa parte da poluição ficava isolada. Quando esse “cofre” começa a derreter, parte do material armazenado volta lentamente a circular pelo ambiente.

A Península Antártica é considerada especialmente vulnerável porque aquece em um ritmo aproximadamente duas vezes superior à média global, tornando esse processo ainda mais acelerado.

O impacto pode ir muito além do gelo

Depois de chegar ao oceano, o mercúrio não permanece necessariamente preso nos sedimentos marinhos. Parte dele pode retornar à atmosfera, reiniciando um ciclo de transporte que distribui novamente o contaminante por diferentes regiões do planeta.

Segundo o estudo, esse fluxo do oceano para o ar aumentou cerca de 350% ao longo dos últimos dois séculos, impulsionado tanto pela deposição atmosférica quanto pelo derretimento das geleiras.

Outra preocupação envolve as transformações químicas que ocorrem no ambiente marinho. Certas bactérias presentes no gelo antártico conseguem converter o mercúrio em metilmercúrio, uma forma muito mais tóxica que pode ser absorvida pelos organismos vivos e se concentrar progressivamente ao longo da cadeia alimentar.

Os pesquisadores deixam claro que isso não significa uma crise imediata para toda a fauna da Antártida. No entanto, o estudo identifica um processo que pode aumentar a exposição de ecossistemas já pressionados pelo aquecimento dos oceanos, pela redução do gelo e pelas mudanças na disponibilidade de alimento.

Além disso, a descoberta amplia um desafio para os acordos internacionais voltados à redução das emissões de mercúrio. Mesmo que a poluição atual continue diminuindo, o aquecimento global pode reativar contaminantes armazenados durante gerações.

É justamente essa conclusão que responde ao título da reportagem. A Antártida não está apenas recebendo mercúrio vindo da atmosfera: o derretimento do gelo está devolvendo ao oceano uma parte da poluição que permaneceu aprisionada por quase dois séculos, transformando um antigo depósito natural em uma nova fonte desse contaminante.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados