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Ciência

Lavar roupas pode ter consequências que vão muito além da conta de água e luz

Um gesto automático que faz parte da rotina de milhões de pessoas esconde um impacto ambiental pouco percebido. Pesquisas revelam como a lavagem de roupas pode contribuir para um problema crescente que já chegou aos oceanos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Colocar as roupas na máquina, apertar um botão e seguir com o dia parece uma tarefa comum e sem consequências. Mas, enquanto o tambor gira, um processo invisível acontece em cada ciclo de lavagem. Pequenas partículas se desprendem dos tecidos e seguem por um caminho que, muitas vezes, termina em rios e mares. A ciência vem investigando esse fenômeno e alerta que seus efeitos podem ir muito além da poluição ambiental.

O que acontece com suas roupas toda vez que a máquina entra em ação

Lavar roupas pode ter consequências que vão muito além da conta de água e luz
© Unsplash

A máquina de lavar é um dos eletrodomésticos mais presentes nas casas, mas também pode desempenhar um papel inesperado na disseminação de microplásticos. O motivo está nas roupas produzidas com fibras sintéticas, como poliéster e acrílico, que liberam fragmentos microscópicos durante o atrito provocado pela lavagem.

Essas partículas, conhecidas como microfibras plásticas, medem menos de cinco milímetros e conseguem atravessar boa parte dos sistemas convencionais de tratamento de água. Como resultado, acabam chegando aos rios, lagos e oceanos, onde permanecem por longos períodos devido à sua lenta degradação.

Uma pesquisa conduzida pela Universidade de Plymouth mostrou a dimensão desse processo. Segundo os pesquisadores, uma única lavagem de aproximadamente seis quilos de roupas pode liberar mais de 700 mil fibras de tecidos acrílicos e quase 500 mil fibras de poliéster.

Outros estudos, realizados pela Universidade de Ramkhamhaeng, apontam que alguns hábitos aumentam ainda mais esse problema. Máquinas com abertura superior e programas de lavagem mais intensos ou frequentes geram maior atrito entre as peças, favorecendo o desprendimento dessas micropartículas.

O impacto acumulado ao longo das últimas décadas impressiona. Estimativas indicam que, desde a década de 1950, mais de 4,8 milhões de toneladas de microfibras sintéticas já foram lançadas em ambientes aquáticos. Hoje, esses resíduos não são encontrados apenas na superfície do mar, mas também em algumas das regiões mais profundas dos oceanos.

Muito além do plástico: os efeitos sobre o meio ambiente e a saúde

Os impactos da lavagem de roupas não se limitam à presença de microplásticos. Especialistas em engenharia química destacam que esse hábito cotidiano influencia diferentes aspectos ambientais e pode até afetar a saúde humana.

O primeiro deles envolve o consumo de água. Dependendo do modelo utilizado, uma única lavagem pode exigir entre 39 e 62 litros, tornando esse processo um dos maiores consumidores de água dentro das residências.

Também existe o consumo energético. Aquecer a água representa a etapa que mais exige eletricidade, podendo alcançar aproximadamente 1 kWh por ciclo, especialmente em programas de alta temperatura.

Outro fator relevante está na composição dos produtos utilizados durante a lavagem. Muitos detergentes contêm tensoativos, fragrâncias sintéticas e polímeros que não são totalmente biodegradáveis. Após seguirem pelo sistema de esgoto, esses compostos podem alterar o equilíbrio dos ecossistemas aquáticos e prejudicar organismos marinhos.

Os microplásticos ainda apresentam outro desafio. Essas partículas têm capacidade de absorver substâncias químicas presentes no ambiente, transportando contaminantes ao longo da cadeia alimentar. Quando peixes e outros animais ingerem esses fragmentos, eles podem acabar chegando também ao consumo humano.

Além disso, especialistas observam que resíduos químicos deixados nas roupas após lavagens inadequadas podem favorecer irritações na pele, aumentando episódios de dermatites e reações alérgicas em pessoas mais sensíveis.

Pequenas mudanças na rotina podem reduzir esse impacto invisível

Embora o problema seja complexo, pesquisadores afirmam que algumas mudanças simples ajudam a diminuir significativamente a liberação de microfibras e o impacto ambiental causado pelas lavagens.

Uma das medidas mais eficientes é utilizar ciclos delicados e mais curtos. Como essas opções reduzem o atrito entre os tecidos, a quantidade de fibras desprendidas pode cair em até 80%, segundo estudos sobre desgaste têxtil.

Lavar as roupas com água fria também oferece vantagens. Além de preservar melhor as fibras dos tecidos, essa prática reduz o consumo de energia elétrica necessário para aquecer a água.

Outro cuidado importante é utilizar apenas a quantidade recomendada de detergente. O excesso do produto não melhora a limpeza e aumenta a carga de compostos químicos liberados no esgoto. Sempre que possível, vale optar por detergentes biodegradáveis, concentrados e livres de fosfatos.

Também já existem soluções específicas para conter parte dos microplásticos antes que eles deixem a máquina. Bolsas especiais para lavagem e filtros instalados no tambor ou na saída de água conseguem reter uma parcela significativa das microfibras liberadas durante o processo.

Por fim, a escolha das roupas faz diferença. Tecidos naturais, como algodão, linho e lã, tendem a liberar muito menos partículas plásticas do que materiais sintéticos, contribuindo para reduzir a geração de novos microplásticos desde a origem.

[Fonte: Economía sustentable]

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