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Ciência

Um efeito pouco conhecido da quimioterapia pode causar perda auditiva permanente

Medicamentos amplamente usados no tratamento do câncer podem provocar danos irreversíveis ao ouvido interno. Especialistas defendem que exames auditivos passem a fazer parte da rotina desde o diagnóstico.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Náuseas, fadiga e queda de cabelo estão entre os efeitos colaterais mais conhecidos da quimioterapia. Mas existe uma consequência muito menos comentada que pode acompanhar o paciente pelo resto da vida. Pesquisadores e médicos alertam que alguns dos principais medicamentos contra o câncer podem provocar perda auditiva permanente, um problema que muitas vezes só é descoberto quando já não há possibilidade de reversão.

Um tratamento que salva vidas também pode afetar a audição

Um efeito pouco conhecido da quimioterapia pode causar perda auditiva permanente
© Unsplash

Entre os medicamentos mais utilizados no combate ao câncer estão o cisplatina e a carboplatina.

Esses compostos, derivados da platina, fazem parte do tratamento de diversos tumores, incluindo câncer de pulmão, bexiga, testículo e vários tipos de câncer infantil.

Embora sejam fundamentais para aumentar as chances de cura, eles apresentam um efeito colateral que costuma passar despercebido.

Após serem administrados, esses medicamentos têm dificuldade para serem eliminados completamente pelo organismo.

Parte dessas substâncias acaba se acumulando no ouvido interno, onde provoca inflamação e destrói células sensoriais responsáveis por transformar as vibrações sonoras em sinais que o cérebro consegue interpretar.

O problema é que essas células não se regeneram.

Quando são perdidas, a audição comprometida dificilmente pode ser recuperada.

Ao contrário de outros efeitos da quimioterapia, como queda de cabelo ou fadiga, esse dano pode permanecer por toda a vida.

Crianças estão entre os pacientes mais vulneráveis

Os números preocupam principalmente na oncologia pediátrica.

Estudos indicam que aproximadamente metade das crianças tratadas com esquemas baseados em cisplatina desenvolve algum grau de perda auditiva permanente.

Em algumas análises citadas pela agência reguladora de medicamentos dos Estados Unidos, a FDA, essa proporção pode chegar a 75%.

Quando são utilizadas doses mais elevadas, o risco aumenta ainda mais.

Em crianças pequenas, até 90% podem apresentar comprometimento auditivo moderado ou grave.

Em parte desses casos, a perda afeta justamente as frequências importantes para compreender a fala, o que pode interferir diretamente no desenvolvimento da linguagem, da aprendizagem e da comunicação.

Além da quimioterapia, outro fator que pode agravar o problema é a radioterapia.

Quando aplicada na região próxima ao ouvido interno, ela também pode causar danos à cóclea, estrutura responsável por converter sons em impulsos nervosos.

O maior desafio é descobrir o problema antes que seja tarde

Segundo especialistas, a perda auditiva relacionada à quimioterapia ainda recebe pouca atenção durante o tratamento oncológico.

Muitos pacientes iniciam o tratamento sem realizar uma avaliação completa da audição.

Da mesma forma, exames de acompanhamento durante e após a quimioterapia ainda não fazem parte da rotina em muitos serviços de saúde.

O otorrinolaringologista Fernando Diamante destaca que essa é justamente uma das maiores dificuldades.

Como o dano costuma evoluir silenciosamente, ele pode passar despercebido até comprometer funções importantes da audição.

Quando isso acontece, resta pouco espaço para intervenções capazes de preservar a audição remanescente.

Por isso, especialistas defendem que o monitoramento auditivo seja iniciado antes mesmo da primeira sessão de quimioterapia.

Dessa forma, alterações podem ser identificadas precocemente e o tratamento adaptado sempre que possível.

Alguns hospitais já adotam acompanhamento especializado

No Brasil e em outros países, cresce a preocupação em incorporar avaliações auditivas aos protocolos de tratamento contra o câncer.

Na Argentina, por exemplo, hospitais pediátricos de alta complexidade já mantêm equipes especializadas para acompanhar crianças durante todo o tratamento.

O objetivo não é interromper a quimioterapia, mas identificar rapidamente qualquer sinal de deterioração auditiva.

Quanto mais cedo isso acontece, maiores são as possibilidades de reduzir novos danos e planejar estratégias de reabilitação.

Especialistas também ressaltam que familiares precisam ser orientados para reconhecer mudanças sutis, como dificuldade para compreender conversas, necessidade de aumentar o volume da televisão ou redução da resposta a sons cotidianos.

Esses sinais podem indicar que a audição já começou a ser afetada.

A ciência busca formas de preservar a audição sem comprometer o tratamento

Pesquisadores trabalham atualmente no desenvolvimento de medicamentos capazes de proteger o ouvido interno durante a quimioterapia.

Embora algumas abordagens estejam em estudo, ainda não existe uma solução capaz de impedir completamente esse efeito colateral sem interferir na eficácia do tratamento contra o câncer.

Enquanto essas alternativas não chegam à prática clínica, os especialistas defendem uma estratégia simples.

Incluir exames auditivos antes, durante e depois da quimioterapia pode fazer toda a diferença.

O objetivo não é colocar a preservação da audição acima do combate ao câncer.

Pelo contrário.

A proposta é garantir que pacientes sobrevivam à doença com a melhor qualidade de vida possível, evitando sequelas permanentes que muitas vezes poderiam ser identificadas e acompanhadas mais cedo.

Para médicos e pesquisadores, o primeiro passo continua sendo falar sobre esse problema.

Quanto mais pacientes e profissionais conhecerem esse risco, menores serão as chances de que a perda auditiva continue sendo descoberta apenas quando já não houver retorno.

[Fonte: Noticias Argentinas]

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