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Ciência

O músculo parece enorme depois do treino, mas a ciência tem uma notícia para quem persegue o ‘pump’ na academia

Aquela sensação de músculos maiores e mais cheios depois das séries é real, mas pesquisadores questionam se ela realmente diz alguma coisa sobre os resultados que aparecerão meses depois.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Basta terminar algumas séries intensas, olhar no espelho e perceber a diferença. Os músculos parecem maiores, as veias ficam mais aparentes e surge aquela sensação de que o treino funcionou exatamente como deveria. É o famoso “pump”, ou bombeamento muscular, perseguido por muitos frequentadores de academia. O problema é que uma revisão das evidências científicas coloca em dúvida uma crença bastante popular: sentir mais inchaço não significa necessariamente construir mais músculo.

O que realmente acontece quando o músculo parece crescer durante o treino

O músculo parece enorme depois do treino, mas a ciência tem uma notícia para quem persegue o ‘pump’ na academia
© Erik Mclean – Unsplash

O bombeamento muscular é um fenômeno real e bastante fácil de perceber, principalmente durante exercícios de musculação realizados com várias repetições.

Mas aquele braço aparentemente maior depois de algumas séries de rosca direta não significa que novas fibras musculares tenham surgido em questão de minutos.

O pesquisador em ciências do esporte Milo Wolf explica que o “pump” corresponde a um aumento temporário do tamanho do músculo provocado principalmente por alterações no equilíbrio de líquidos durante o exercício.

Enquanto uma pessoa levanta pesos, as veias responsáveis por retirar sangue da musculatura podem ser parcialmente comprimidas. Isso reduz temporariamente a saída de sangue daquela região.

As artérias, entretanto, continuam transportando sangue para o músculo que está trabalhando.

O resultado é um acúmulo maior de sangue e um aumento da pressão local. Parte do plasma acaba então se deslocando para os tecidos musculares.

Há um detalhe importante: esse líquido não está simplesmente fazendo cada fibra muscular inchar como um pequeno balão.

Grande parte do aumento acontece no espaço entre as fibras, chamado interstício.

É justamente essa combinação de sangue e fluidos que ajuda a criar aquele aspecto cheio e volumoso tão valorizado diante do espelho.

Só que ele tem prazo de validade.

O espelho mostra uma mudança real, mas ela não dura muito

A inflamação relacionada ao exercício pode permanecer por 48 a 72 horas em determinadas circunstâncias. O bombeamento que aparece durante o treinamento, porém, costuma desaparecer muito antes.

Isso cria uma distinção fundamental entre duas coisas que frequentemente são confundidas: parecer maior imediatamente e realmente construir tecido muscular ao longo do tempo.

A hipertrofia é uma adaptação crônica. Ela acontece progressivamente como resposta ao treinamento e envolve mudanças estruturais no músculo.

O pump é uma resposta aguda.

Por isso, terminar uma sessão com os músculos extremamente cheios não permite concluir que aquele treino produzirá mais hipertrofia do que outro que provocou uma sensação menos intensa.

Algumas pesquisas já tentaram descobrir se existe uma relação entre os dois fenômenos.

Estudos analisaram mecanismos pelos quais o inchaço celular provocado pelo exercício poderia participar das adaptações relacionadas ao crescimento muscular.

Em um dos resultados discutidos, pesquisadores observaram uma associação positiva entre o inchaço muscular agudo registrado após uma sessão inicial e a hipertrofia medida depois de seis semanas de treinamento de resistência.

Parece uma evidência favorável ao pump, mas existe um problema importante.

Associação não significa necessariamente causa.

A ciência ainda não conseguiu provar que mais pump significa mais músculo

O músculo parece enorme depois do treino, mas a ciência tem uma notícia para quem persegue o ‘pump’ na academia
© Pexels

Uma pessoa que apresenta maior bombeamento pode também estar realizando exercícios eficientes para hipertrofia por outros motivos.

Portanto, mesmo quando existe uma correlação entre o fenômeno e resultados posteriores, não é possível afirmar automaticamente que o inchaço foi responsável pelo crescimento.

Segundo Wolf, as evidências disponíveis ainda não são suficientes para sustentar a ideia de que buscar deliberadamente o maior pump possível produz necessariamente mais hipertrofia.

Isso tem implicações práticas para quem estrutura o treino com base quase exclusivamente na sensação.

Fazer inúmeras repetições apenas para conseguir músculos mais cheios, por exemplo, pode proporcionar uma experiência satisfatória durante a sessão sem necessariamente representar a estratégia mais eficiente para aumentar massa muscular.

O mesmo vale para avaliar exercícios.

Um movimento que produz um pump impressionante não é automaticamente superior a outro que gera uma sensação menos intensa.

Isso não significa, porém, que o bombeamento seja completamente inútil.

Wolf reconhece que prestaria atenção a uma rotina aparentemente bem estruturada que nunca provocasse qualquer sensação de pump.

A ausência completa dessa resposta poderia servir como uma pista para avaliar se determinados músculos estão realmente sendo suficientemente recrutados durante os exercícios.

Ainda assim, seria apenas uma pista, e não um veredito.

O pump pode continuar no treino, mas não deveria comandá-lo

A principal conclusão é menos emocionante do que aquela transformação instantânea diante do espelho, mas bastante importante para quem busca resultados duradouros.

O bombeamento pode acompanhar um bom treino. O erro está em transformá-lo no principal indicador da qualidade da sessão.

A evidência disponível sobre sua relação direta com a hipertrofia continua limitada e inconsistente. Por isso, avaliar a evolução exige observar fatores que se manifestam ao longo de semanas e meses, e não apenas nos minutos posteriores a uma série.

Aquele músculo cheio, rígido e aparentemente muito maior continua sendo uma das sensações mais características da musculação.

E não há problema algum em gostar dela.

Só é preciso lembrar que o espelho da academia está mostrando, naquele momento, principalmente uma resposta temporária do organismo ao exercício.

O crescimento que realmente interessa acontece muito mais devagar.

E, ao contrário do pump, ele não desaparece pouco depois de guardar os halteres.

[Fonte: ET]

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