Durante seu pontificado, o Papa Francisco deu protagonismo inédito à crise climática e aos direitos dos povos indígenas, conectando essas causas à missão moral da Igreja. Seu sucessor, Leo XIV, foi escolhido em um momento de retrocessos ambientais e sociais, principalmente nos Estados Unidos. A expectativa agora gira em torno de uma questão crucial: o novo pontífice continuará a trilhar esse caminho?
Francisco e a revolução verde da Igreja
Em 2015, Francisco publicou a encíclica Laudato si’, um marco na doutrina católica. Nela, ele denunciou a destruição ambiental como um problema ético e social, afetando principalmente os pobres. A carta condenava o papel das nações ricas na crise climática e pedia uma mudança profunda de mentalidade e hábitos.
O papa argentino não apenas falou: ele agiu. Participou de cúpulas internacionais, incentivou acordos como o de Paris e estimulou paróquias a adotarem energias renováveis. Em 2023, publicou um novo documento reforçando o alerta sobre o aquecimento global.
Defesa dos povos indígenas
Francisco também abordou a dívida histórica da Igreja com os povos originários. Em 2018, no Peru, criticou duramente a exploração da Amazônia e defendeu o direito dos indígenas sobre suas terras. Reconheceu a sabedoria ancestral desses povos e incentivou seu protagonismo na proteção ambiental.
Entre outras ações, autorizou o uso de línguas indígenas em missas, pediu perdão pelo papel da Igreja nos internatos canadenses e rejeitou a chamada “Doutrina da Descoberta”, usada historicamente para justificar a apropriação de terras indígenas.
Limites e contradições do pontificado anterior
Apesar dos avanços, Francisco enfrentou resistência dentro da Igreja. Em 2019, durante o Sínodo da Amazônia, propostas como a ordenação de homens casados e maior participação feminina foram rejeitadas por ele, apesar de sua retórica progressista.
Além disso, mesmo defendendo energias limpas e o desinvestimento em combustíveis fósseis, Francisco não impôs diretrizes práticas obrigatórias às instituições católicas. Especialistas apontam que seu impacto poderia ter sido mais direto e mensurável.
Quem é Leo XIV?
Nascido em Chicago e com cidadania peruana, Leo XIV, antes conhecido como Robert Francis Prevost, foi missionário e bispo no Peru por décadas. Foi nomeado cardeal por Francisco em 2023. Fala cinco idiomas e tem conhecimento de quechua, idioma indígena da região andina.
Nos anos 1990, denunciou abusos de direitos humanos no Peru, mesmo sem tomar partido político. Em 2016, elogiou publicamente a Laudato si’ durante uma conferência sobre a Amazônia no Brasil, reconhecendo a importância da encíclica na relação entre Igreja e meio ambiente.
Sinais de continuidade — ou ruptura?
Apesar de seu histórico de defesa de direitos trabalhistas e de imigrantes, Leo XIV ainda não se destacou por declarações contundentes sobre o clima. Contudo, especialistas apontam que sua vivência na América Latina pode torná-lo sensível às causas indígenas e ambientais, como ocorreu com Francisco.
A nomeação de um papa norte-americano, em meio ao negacionismo climático do governo Trump e à ascensão da extrema direita, pode também ser um recado simbólico: é hora dos Estados Unidos se reconectarem com o esforço global por justiça climática.
Um futuro em aberto
A escolha de Leo XIV ocorre num momento delicado. O mundo enfrenta retrocessos ambientais e políticos, e a Igreja Católica, com sua influência global, pode desempenhar um papel decisivo.
A herança de Francisco — marcada por um chamado à consciência ecológica e à valorização dos povos originários — representa uma virada moral na Igreja. Caberá agora ao novo papa decidir se essa virada continuará sendo aprofundada ou se será suavizada diante das pressões conservadoras.