Pular para o conteúdo
Mundo

O novo papa continuará o legado ambiental de Francisco?

O Papa Francisco transformou a posição da Igreja Católica sobre a crise climática, defendendo os povos indígenas e denunciando o consumismo desenfreado. Agora, com a escolha do Papa Leo XIV, surge a dúvida: ele manterá esse compromisso com a justiça ambiental e social ou adotará uma linha diferente?
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Durante seu pontificado, o Papa Francisco deu protagonismo inédito à crise climática e aos direitos dos povos indígenas, conectando essas causas à missão moral da Igreja. Seu sucessor, Leo XIV, foi escolhido em um momento de retrocessos ambientais e sociais, principalmente nos Estados Unidos. A expectativa agora gira em torno de uma questão crucial: o novo pontífice continuará a trilhar esse caminho?

 

Francisco e a revolução verde da Igreja

Em 2015, Francisco publicou a encíclica Laudato si’, um marco na doutrina católica. Nela, ele denunciou a destruição ambiental como um problema ético e social, afetando principalmente os pobres. A carta condenava o papel das nações ricas na crise climática e pedia uma mudança profunda de mentalidade e hábitos.

O papa argentino não apenas falou: ele agiu. Participou de cúpulas internacionais, incentivou acordos como o de Paris e estimulou paróquias a adotarem energias renováveis. Em 2023, publicou um novo documento reforçando o alerta sobre o aquecimento global.

 

Defesa dos povos indígenas

Francisco também abordou a dívida histórica da Igreja com os povos originários. Em 2018, no Peru, criticou duramente a exploração da Amazônia e defendeu o direito dos indígenas sobre suas terras. Reconheceu a sabedoria ancestral desses povos e incentivou seu protagonismo na proteção ambiental.

Entre outras ações, autorizou o uso de línguas indígenas em missas, pediu perdão pelo papel da Igreja nos internatos canadenses e rejeitou a chamada “Doutrina da Descoberta”, usada historicamente para justificar a apropriação de terras indígenas.

 

Limites e contradições do pontificado anterior

Apesar dos avanços, Francisco enfrentou resistência dentro da Igreja. Em 2019, durante o Sínodo da Amazônia, propostas como a ordenação de homens casados e maior participação feminina foram rejeitadas por ele, apesar de sua retórica progressista.

 

Além disso, mesmo defendendo energias limpas e o desinvestimento em combustíveis fósseis, Francisco não impôs diretrizes práticas obrigatórias às instituições católicas. Especialistas apontam que seu impacto poderia ter sido mais direto e mensurável.

 

Quem é Leo XIV?

Nascido em Chicago e com cidadania peruana, Leo XIV, antes conhecido como Robert Francis Prevost, foi missionário e bispo no Peru por décadas. Foi nomeado cardeal por Francisco em 2023. Fala cinco idiomas e tem conhecimento de quechua, idioma indígena da região andina.

Nos anos 1990, denunciou abusos de direitos humanos no Peru, mesmo sem tomar partido político. Em 2016, elogiou publicamente a Laudato si’ durante uma conferência sobre a Amazônia no Brasil, reconhecendo a importância da encíclica na relação entre Igreja e meio ambiente.

 

Sinais de continuidade — ou ruptura?

Apesar de seu histórico de defesa de direitos trabalhistas e de imigrantes, Leo XIV ainda não se destacou por declarações contundentes sobre o clima. Contudo, especialistas apontam que sua vivência na América Latina pode torná-lo sensível às causas indígenas e ambientais, como ocorreu com Francisco.

A nomeação de um papa norte-americano, em meio ao negacionismo climático do governo Trump e à ascensão da extrema direita, pode também ser um recado simbólico: é hora dos Estados Unidos se reconectarem com o esforço global por justiça climática.

 

Um futuro em aberto

A escolha de Leo XIV ocorre num momento delicado. O mundo enfrenta retrocessos ambientais e políticos, e a Igreja Católica, com sua influência global, pode desempenhar um papel decisivo.

A herança de Francisco — marcada por um chamado à consciência ecológica e à valorização dos povos originários — representa uma virada moral na Igreja. Caberá agora ao novo papa decidir se essa virada continuará sendo aprofundada ou se será suavizada diante das pressões conservadoras.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados