Viver até os 100 anos costuma ser associado a alimentação equilibrada, atividade física, relações sociais fortes e uma rotina com menos estresse. Não por acaso, algumas comunidades isoladas ganharam fama mundial por concentrar moradores extremamente longevos. Só que existe uma questão anterior a qualquer explicação sobre dieta ou genética: como saber se essas idades foram realmente comprovadas?
A pista estava onde quase ninguém procurava
A investigação conduzida pelo demógrafo Saul Justin Newman, da University College London, chamou atenção justamente por analisar um aspecto pouco glamouroso da longevidade: a qualidade dos registros usados para comprovar a idade de centenários e supercentenários, pessoas que chegam aos 110 anos ou mais.
Ao cruzar dados demográficos, Newman encontrou uma relação curiosa. Em diferentes países, relatos de longevidade extrema apareciam com maior frequência em regiões pobres, isoladas e com sistemas de registro civil menos eficientes.
Nos Estados Unidos, por exemplo, a concentração de supercentenários estava relacionada a períodos e locais nos quais o registro de nascimento ainda não era completo. Em outros lugares, os casos extraordinários surgiam em áreas marcadas por baixos rendimentos, menor alfabetização e expectativa de vida relativamente baixa.
A descoberta não significa que essas pessoas necessariamente mentiram sobre a própria idade. O problema pode estar nos documentos. Erros administrativos, datas aproximadas, registros incompletos e até fraudes relacionadas ao recebimento de benefícios podem fazer com que uma idade incorreta sobreviva por décadas.
Um detalhe estatístico reforçou a suspeita: algumas datas de nascimento apareciam de maneira incomum no primeiro dia do mês ou em números divisíveis por cinco. Isso pode acontecer quando uma data exata não é conhecida e acaba sendo arredondada durante o preenchimento de documentos.

O fenômeno que também chegou às zonas azuis
A hipótese se torna ainda mais provocadora quando aplicada às famosas Zonas Azuis. Locais como Okinawa, no Japão, Cerdeña, na Itália, Icária, na Grécia, e a península de Nicoya, na Costa Rica, ficaram conhecidas por reunir uma quantidade excepcional de pessoas centenárias.
Durante anos, essas comunidades foram apresentadas como verdadeiros manuais de longevidade. Dietas tradicionais, atividade física cotidiana, vínculos familiares e uma vida menos acelerada eram apontados como possíveis explicações.
Mas a qualidade dos dados demográficos também precisa entrar nessa equação.
Um dos exemplos mais conhecidos surgiu no Japão, onde uma investigação oficial revelou milhares de pessoas registradas como centenárias que já haviam morrido ou não puderam ser localizadas. O episódio não prova que todos os casos de longevidade fossem falsos, muito menos invalida automaticamente Okinawa ou outras Zonas Azuis.
Ele mostra, porém, como um sistema de registros pode conservar uma pessoa como “viva” durante anos depois de sua morte.
Guerras, migrações, documentos destruídos e sistemas administrativos antigos podem aumentar ainda mais o problema. Em comunidades remotas, uma informação não verificada pode passar de um documento para outro e, com o tempo, ganhar aparência de fato comprovado.
A resposta ainda está longe de ser definitiva
O trabalho de Newman provocou uma discussão importante, mas não encerrou o debate científico. A pesquisa circulou inicialmente como preprint e recebeu o primeiro Ig Nobel de Demografia em 2024. Outros pesquisadores, porém, contestaram parte das conclusões.
Em 2025, pesquisadores associados aos estudos das Zonas Azuis publicaram uma resposta acadêmica defendendo os métodos utilizados para validar as idades das populações tradicionalmente estudadas.
Isso significa que a questão continua aberta. Existem, sem dúvida, pessoas capazes de alcançar idades extremamente avançadas, e fatores genéticos, sociais, ambientais e comportamentais podem influenciar o envelhecimento saudável.
O ponto central é outro: antes de transformar uma comunidade em exemplo de longevidade, é necessário ter certeza de que os dados que sustentam essa fama são confiáveis.
A investigação deixa, portanto, uma provocação poderosa. Talvez alguns dos segredos atribuídos a determinadas comunidades estejam realmente na alimentação, nos hábitos e no ambiente. Mas, para descobrir quais fatores ajudam alguém a viver mais, a ciência precisa começar por algo aparentemente simples: confirmar a idade de quem está sendo estudado.