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Ciência

Superbactérias estão vencendo antibióticos antigos — uma IA encontrou uma maneira diferente de contra-atacar

A resistência bacteriana avança enquanto descobrir novos medicamentos continua lento e caro. Pesquisadores testaram uma estratégia diferente: usar inteligência artificial para criar candidatos que nunca existiram.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, encontrar antibióticos significou vasculhar enormes bibliotecas de compostos, testar substâncias existentes e modificar moléculas conhecidas na esperança de descobrir algo eficaz. O problema é que as bactérias continuam evoluindo, enquanto esse processo permanece caro, demorado e cheio de fracassos. Pesquisadores de Stanford e da Universidade McMaster decidiram inverter a lógica: em vez de pedir à inteligência artificial que encontre uma molécula promissora, fizeram com que ela começasse praticamente do zero.

A IA pode explorar 46 bilhões de possibilidades sem precisar testar todas

O sistema desenvolvido pelos pesquisadores recebeu o nome de SyntheMol-RL e trabalha em um espaço químico com até 46 bilhões de moléculas possíveis.

Mas quantidade não é sua característica mais importante.

Modelos generativos podem propor moléculas que parecem excelentes na simulação e depois revelar um problema bastante concreto: ninguém consegue fabricá-las de maneira viável.

O SyntheMol-RL tenta evitar essa armadilha desde o começo.

Ao criar candidatos, o sistema considera simultaneamente duas exigências: a molécula precisa apresentar potencial contra bactérias resistentes e também ser realisticamente sintetizável em laboratório.

Isso transforma a IA em algo diferente de um enorme mecanismo de busca. Ela passa a combinar componentes químicos e explorar novas estruturas enquanto descarta caminhos pouco práticos.

O teste decisivo, porém, começa quando as moléculas saem do computador.

Os pesquisadores selecionaram 79 candidatos produzidos pelo modelo, sintetizaram essas estruturas e as colocaram à prova contra bactérias reais.

Treze apresentaram alta atividade contra Staphylococcus aureus, um patógeno responsável por diferentes tipos de infecção e particularmente preocupante quando desenvolve resistência aos antibióticos.

Entre essas moléculas havia uma que chamou atenção suficiente para avançar para um experimento ainda mais importante.

Metabolismo2
© Google DeepMind – Pexels

Uma das moléculas já funcionou contra uma superbactéria em animais

O composto recebeu o nome de synthecin.

Em testes descritos no estudo publicado na Molecular Systems Biology, ele conseguiu conter uma infecção por MRSA em um modelo de ferida em camundongos.

MRSA é a sigla usada para o Staphylococcus aureus resistente à meticilina, uma das superbactérias mais conhecidas. Sua capacidade de resistir a diferentes medicamentos torna determinadas infecções muito mais difíceis de tratar.

O resultado com synthecin não significa que exista um novo antibiótico pronto para chegar às farmácias.

Mas demonstra algo importante: uma molécula criada computacionalmente conseguiu sair da simulação, ser fabricada e apresentar atividade em um organismo vivo.

Isso importa especialmente diante do avanço da resistência antimicrobiana.

Estimativas citadas no artigo apontam que infecções resistentes estão diretamente associadas a mais de 1,27 milhão de mortes por ano no mundo. À medida que medicamentos existentes perdem eficácia, encontrar substitutos rapidamente deixa de ser apenas um desafio científico.

Também vira uma corrida contra o tempo.

E é justamente nesse ponto que sistemas como o SyntheMol-RL podem oferecer uma vantagem: reduzir drasticamente o universo de candidatos que precisam ser produzidos e testados fisicamente.

A IA acelera a descoberta, mas o medicamento ainda precisa enfrentar o mundo real

Os próprios resultados mostram por que a inteligência artificial não substitui o laboratório.

Dos 79 compostos sintetizados, apenas uma parcela apresentou a atividade desejada. E mesmo uma molécula eficaz contra bactérias em laboratório ou em camundongos pode falhar posteriormente por toxicidade, metabolismo inadequado, efeitos adversos ou diversos outros motivos.

O caminho até um medicamento real ainda envolve estudos adicionais em animais, avaliações de segurança, ensaios clínicos em seres humanos e aprovação regulatória.

O próprio modelo também pode melhorar, especialmente na diversidade das estruturas geradas e na proporção de candidatos realmente úteis.

Portanto, a grande mudança não está em eliminar o processo tradicional de desenvolvimento farmacêutico.

Está em modificar o ponto de partida.

Em vez de testar incontáveis moléculas existentes e esperar encontrar uma combinação adequada, pesquisadores podem usar modelos para navegar por regiões do espaço químico que seriam praticamente impossíveis de explorar manualmente — e chegar ao laboratório com candidatos mais selecionados.

A IA ainda não criou uma solução pronta para a crise das superbactérias.

Mas demonstrou uma mudança importante na estratégia: quando encontrar o próximo antibiótico fica difícil demais, talvez seja possível projetar um que ainda não existe.

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