Quando pensamos nas mudanças climáticas, normalmente lembramos do calor extremo, das secas e das tempestades. Entretanto, existe outra transformação acontecendo na atmosfera que recebe menos atenção: o enfraquecimento dos ventos próximos à superfície terrestre. Pesquisadores investigam esse fenômeno, conhecido como global stilling, e alertam que suas consequências podem atingir desde a geração de energia eólica até a qualidade do ar nas cidades.
Por que o vento está perdendo força?

O vento é resultado do deslocamento do ar entre regiões com diferentes pressões atmosféricas. Essas diferenças estão relacionadas, entre outros fatores, ao aquecimento desigual da superfície terrestre.
Quando o planeta esquenta, a circulação atmosférica também pode mudar.
Um estudo publicado em abril de 2026 na revista Climate Dynamics confirmou que a velocidade dos ventos próximos ao solo diminuiu em áreas continentais do Hemisfério Norte entre 1980 e 2010.
Os pesquisadores analisaram registros meteorológicos e compararam os resultados com modelos de reconstrução atmosférica.
A conclusão foi que a redução observada é consistente, embora os mecanismos responsáveis pelo fenômeno ainda não sejam completamente compreendidos.
Isso não significa que o vento esteja desaparecendo em todo o planeta. Existem diferenças regionais importantes e períodos em que sua velocidade aumenta.
Quanto a velocidade dos ventos diminuiu?

Segundo dados apresentados pelo jornal catalão Ara, estudos sobre o enfraquecimento dos ventos apontam reduções de aproximadamente 5% a 15% em determinadas análises de longo prazo.
O fenômeno afeta especialmente regiões do Hemisfério Norte, embora também existam registros de mudanças em outras partes do mundo.
Na Catalunha, por exemplo, o cabo de Creus passou a registrar cerca de 28 dias a menos de vento por ano, segundo os dados apresentados pela publicação.
O ano de 2025 também foi identificado como o menos ventoso da série analisada na região.
Entretanto, é importante distinguir tendências locais de mudanças globais.
Algumas pesquisas identificaram uma recuperação da velocidade média dos ventos após 2010, indicando que a evolução do fenômeno não é uniforme.
Menos vento pode aumentar a poluição e prejudicar a energia limpa
Uma das consequências mais preocupantes está relacionada à qualidade do ar.
Os ventos ajudam a dispersar partículas poluentes produzidas por veículos, indústrias e outras atividades humanas.
Quando a circulação do ar enfraquece, esses contaminantes podem permanecer concentrados por mais tempo, especialmente em grandes cidades.
Outra consequência envolve a produção de eletricidade.
As turbinas eólicas dependem da velocidade do vento para funcionar. Uma redução prolongada pode diminuir a geração de energia e tornar mais complexa a previsão de produção das usinas.
O problema é particularmente relevante em um momento em que diversos países estão ampliando investimentos em fontes renováveis.
No Brasil, onde a energia eólica tem grande importância, especialmente no Nordeste, compreender possíveis alterações regionais nos ventos será fundamental para o planejamento energético.
Isso não significa, porém, que a redução observada no Hemisfério Norte esteja ocorrendo da mesma maneira no território brasileiro.
O enfraquecimento dos ventos também pode trazer efeitos positivos?
Curiosamente, nem todas as consequências são necessariamente negativas.
Ventos mais fracos podem reduzir a evaporação da água do solo, ajudando a conservar a umidade em determinadas condições.
Também podem diminuir a dispersão do pólen e influenciar a queda das folhas, alterando processos naturais dos ecossistemas.
Por outro lado, a menor circulação atmosférica pode modificar a umidade, favorecer o acúmulo de poluentes e interferir nas condições necessárias para algumas atividades agrícolas.
Pesquisadores do Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha (CSIC) destacam que o vento desempenha funções importantes no transporte de calor, umidade e partículas atmosféricas.
A principal conclusão é que as mudanças climáticas não afetam apenas a temperatura e as chuvas, mas também a maneira como o ar circula pelo planeta.
Compreender essas transformações será essencial para antecipar impactos ambientais, proteger a saúde pública e planejar a produção de energia nas próximas décadas.