Pular para o conteúdo
Ciência

Pesquisadores limitaram as redes sociais por duas semanas e observaram o que aconteceu

Um experimento reduziu drasticamente o tempo dedicado às redes sociais e acompanhou o que aconteceu depois. Os efeitos apareceram no sono, no estresse e até na percepção da própria vida.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

Abrir o celular sem pensar, conferir uma notificação ou deslizar pela tela por alguns minutos parece um gesto pequeno. O problema é que esses momentos se acumulam e podem ocupar boa parte do dia. Por isso, pesquisadores começaram a fazer uma pergunta simples, mas difícil de testar: o que muda quando esse fluxo constante de estímulos é interrompido? Alguns experimentos já encontraram respostas que vão além do tempo economizado.

O celular pode estar ocupando mais espaço do que parece

Para milhões de pessoas, as redes sociais acompanham praticamente todos os momentos do cotidiano. Elas aparecem no transporte, durante intervalos, nas refeições e até nos últimos minutos antes de dormir.

O problema não está necessariamente em utilizar essas plataformas. A questão é que seus mecanismos são desenhados para manter a atenção: uma nova publicação, uma mensagem, um comentário ou um vídeo podem criar pequenas recompensas que incentivam a próxima interação.

A dopamina participa dos sistemas cerebrais relacionados à motivação e à recompensa. Isso não significa que usar redes sociais provoque automaticamente dependência, mas ajuda a explicar por que interromper um hábito repetitivo pode ser desconfortável para algumas pessoas.

Pesquisas também encontraram associações entre uso intenso das redes e diferenças em determinadas medidas cerebrais. Um estudo publicado na NeuroImage, por exemplo, relacionou mais horas diárias de uso a diferenças no córtex de regiões envolvidas em atenção, controle executivo, processamento visual e regulação emocional.

Outro trabalho, publicado na Nature, acompanhou durante quatro anos crianças nos Estados Unidos e encontrou uma associação entre uso mais intenso das redes e mudanças na trajetória do volume cerebelar. O efeito, porém, foi pequeno, e os próprios pesquisadores destacaram que isso não permite concluir que as redes sejam a causa dessas alterações.

Neuroimage1
© DimaBerlin – Shutterstock

Duas semanas foram suficientes para revelar uma diferença

A pergunta mais interessante é o que acontece quando a lógica é invertida: em vez de observar quem passa muito tempo conectado, o que ocorre quando alguém estabelece deliberadamente um limite?

Um estudo publicado na Behavioral Sciences acompanhou participantes que limitaram o uso das redes sociais a 30 minutos por dia durante duas semanas.

Ao final do período, a maioria relatou maior satisfação com a própria vida, menos estresse e uma percepção melhor da qualidade do sono em comparação com o momento anterior ao experimento.

O detalhe importante é que ninguém precisou abandonar completamente as plataformas. A intervenção consistiu em estabelecer um limite claro e mantê-lo durante duas semanas.

Outro estudo, publicado na Body Image, encontrou resultados relacionados à autoestima e à autocompaixão, além de redução da vergonha corporal durante uma intervenção semelhante. As participantes também contavam com um grupo no WhatsApp para acompanhar o processo.

E isso revelou um obstáculo importante: o medo de ficar de fora.

Algumas adolescentes inicialmente demonstraram preocupação em perder conversas, acontecimentos ou interações. O apoio do grupo ajudou a diminuir essa sensação, mostrando que as redes não são apenas entretenimento. Para muitas pessoas, elas também representam pertencimento e conexão social.

O maior desafio começa quando o experimento termina

Reduzir o uso durante alguns dias pode ser relativamente simples. Manter a mudança depois que a experiência acaba é outra história.

Uma das estratégias sugeridas por especialistas é criar barreiras físicas e digitais contra o comportamento automático. Deixar o celular longe da cama, desligar notificações e dificultar o acesso constante aos aplicativos pode interromper o ciclo antes que ele comece.

Também pode ajudar substituir parte do tempo de rolagem por atividades que exigem participação ativa, como cozinhar, tocar um instrumento, praticar um esporte ou simplesmente conversar sem uma tela por perto.

Ainda assim, os resultados precisam ser interpretados com cuidado. Muitos estudos dependem de relatos dos próprios participantes, e as pesquisas variam bastante em duração, idade, intensidade de uso e tipo de interação.

Portanto, não existe evidência suficiente para dizer que reduzir as redes sociais produzirá exatamente o mesmo efeito em todas as pessoas.

Mas os experimentos deixam uma pista interessante: quando o fluxo constante de notificações e conteúdos diminui, algumas pessoas percebem mudanças no modo como dormem, lidam com o estresse e avaliam a própria rotina.

Talvez o ponto principal não seja abandonar as redes sociais. É descobrir quanto espaço elas realmente ocupam na nossa vida — e o que estamos deixando de fazer enquanto permanecemos conectados.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados