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Por que o Irã pode não querer que o conflito termine agora

Um ataque aparentemente contraditório pode esconder um cálculo estratégico muito mais complexo. Para Teerã, manter a tensão sob controle talvez ofereça vantagens que um cessar-fogo não conseguiria entregar.
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Tempo de leitura: 4 minutos

À primeira vista, a decisão do Irã de lançar um ataque contra uma instalação americana parece contrariar qualquer tentativa de reduzir a tensão com Washington. Mas existe outra maneira de interpretar esse movimento. Em um cenário marcado por sanções, bloqueios, pressão econômica e disputas pelas principais rotas energéticas do planeta, Teerã pode enxergar na continuidade controlada do conflito uma ferramenta de negociação. O problema é que essa estratégia depende de um equilíbrio extremamente perigoso.

O ataque iraniano pode esconder um cálculo maior do que parece

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© YouTube

O recente ataque com mísseis iranianos contra uma base dos Estados Unidos na Jordânia interrompeu a frágil trégua entre Washington e Teerã e levou os americanos a retomarem operações militares em território iraniano.

Se o principal objetivo do governo iraniano fosse alcançar rapidamente um cessar-fogo, a ofensiva pareceria difícil de justificar. A situação muda, porém, quando se considera outra hipótese: talvez Teerã acredite que uma confrontação limitada seja mais vantajosa do que uma paz estabelecida nas condições atuais.

Nenhum dos lados parece interessado em uma guerra regional de grandes proporções.

Para os Estados Unidos, uma escalada poderia ameaçar infraestruturas energéticas, envolver outros países do Oriente Médio, pressionar os preços internacionais do petróleo e consumir ainda mais recursos militares.

O Irã também teria muito a perder. Suas defesas aéreas estão enfraquecidas, instalações estratégicas permanecem vulneráveis e uma economia pressionada por sanções teria dificuldades crescentes para reconstruir estruturas destruídas.

É justamente nesse espaço entre a paz e a guerra total que pode estar surgindo a estratégia iraniana.

Em vez de buscar uma vitória militar convencional, Teerã poderia tentar manter pressão suficiente para transformar sua capacidade de gerar instabilidade em poder de negociação.

Uma paz nas condições atuais também teria um preço alto para Teerã

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Um cessar-fogo prolongado não necessariamente resolveria os principais problemas enfrentados pelo Irã.

As sanções poderiam continuar, assim como as restrições impostas pelos Estados Unidos aos portos iranianos. O país também permaneceria amplamente afastado dos grandes mercados internacionais de energia.

Ao mesmo tempo, concorrentes regionais como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar poderiam normalizar progressivamente suas exportações de petróleo e gás, ampliando a desvantagem econômica iraniana.

Uma confrontação limitada altera essa equação.

As tensões no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes para o comércio global de petróleo, e a pressão sobre Bab el-Mandeb exercida pelos houthis elevam custos de seguros, afetam o transporte marítimo e aumentam a incerteza nos mercados energéticos.

Mesmo sem interromper completamente o comércio, a possibilidade de novas perturbações obriga governos, empresas de navegação e importadores de energia a acompanhar atentamente os movimentos de Teerã.

Nesse sentido, a instabilidade pode se transformar em influência.

O Irã também vem tentando modificar os termos da discussão sobre a navegação regional. Em vez de simplesmente aceitar um retorno irrestrito às condições anteriores, Teerã sinaliza que pretende participar das regras que determinarão como essas rotas funcionarão no futuro.

A crise externa também interfere na pressão política dentro do Irã

Existe ainda uma dimensão doméstica nessa estratégia.

O Irã enfrenta inflação elevada, desemprego, dificuldades econômicas e insatisfação social. Em períodos de confronto externo, governos conseguem justificar com maior facilidade medidas de segurança, mobilizar a população em torno da defesa nacional e restringir movimentos de oposição.

Isso não elimina os problemas econômicos do país, mas pode reduzir temporariamente a pressão política provocada por eles.

Ainda assim, manter uma guerra em baixa intensidade está longe de ser uma estratégia sem custos.

Ataques sucessivos deterioram infraestrutura, aumentam a insegurança econômica e criam um risco permanente de erro de cálculo. A estratégia depende de conseguir pressionar o adversário sem ultrapassar o limite que provocaria uma resposta militar muito mais ampla.

E essa fronteira pode ser extremamente difícil de identificar.

O maior risco é descobrir tarde demais que o conflito deixou de ser controlável

A grande contradição da estratégia iraniana está justamente nesse ponto. Uma confrontação limitada pode oferecer mais influência do que uma paz desfavorável, mas conflitos raramente permanecem dentro dos limites imaginados por seus protagonistas.

Existem sinais de que outros atores regionais podem ser progressivamente arrastados para a disputa.

A Arábia Saudita, que inicialmente procurou evitar um envolvimento direto, passou a realizar ações contra grupos xiitas alinhados ao Irã no Iraque e contra os houthis.

Se as perturbações no comércio internacional e nos mercados de energia continuarem, países que até agora preferiram permanecer afastados também poderão reconsiderar suas posições.

Governos dependentes das rotas marítimas do Oriente Médio podem concluir que aceitar os custos de uma resposta mais contundente é menos prejudicial do que conviver indefinidamente com crises recorrentes.

Esse é o ponto mais delicado do cálculo de Teerã.

O Irã pode acreditar que consegue calibrar seus ataques para manter pressão sobre Washington, influenciar mercados energéticos e melhorar sua posição em futuras negociações. Mas basta uma ofensiva produzir consequências maiores do que o esperado para mudar completamente a reação dos Estados Unidos e de seus aliados.

Por isso, o próximo movimento inesperado pode ser muito mais importante do que parece. Em uma estratégia construída precisamente sobre a capacidade de controlar a escalada, um único erro pode transformar uma guerra deliberadamente limitada no conflito que todos dizem querer evitar.

[Fonte: BBC]

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