Durante anos, o TPS funcionou como um refúgio para milhares de venezuelanos que fugiram do colapso em seu país. Mas com a decisão do Departamento de Segurança Interna (DHS), confirmada pela Suprema Corte, essa proteção chegou ao fim. O que parecia apenas uma medida administrativa transformou-se em um gatilho para um novo movimento migratório pelo continente.
O fim de uma proteção vital
Segundo Washington, as condições na Venezuela “melhoraram”, o que justificaria encerrar o programa. Na prática, mais de 590 mil pessoas ficam sem amparo: cerca de 242 mil da primeira designação de 2021 e outros 350 mil do registro mais recente de 2023.
Com a medida, os beneficiários perdem permissão de trabalho, carteira de motorista e, sobretudo, a sensação de segurança. Muitos agora vivem na contagem regressiva: o TPS expira oficialmente em 7 de novembro.
Do sonho americano à busca por outro destino
Diante do fim da proteção, cresce o número de famílias que decidem deixar os EUA em silêncio, vendendo o que têm para financiar passagens a outros países. Espanha e Colômbia estão entre os destinos mais procurados.
O caso de Miguel Ángel García, morador da Flórida, resume a situação de milhares. Após seis anos sob TPS, ele e a esposa venderam seus pertences para tentar a vida na Europa. “Não fugimos dos Estados Unidos, mas também não podemos ficar”, disse.
Histórias assim revelam a frustração de uma comunidade que sente ter visto o “sonho americano” virar um labirinto burocrático.
Famílias divididas e escolhas impossíveis
Maryhuska Méndez, também residente na Flórida, ilustra o drama de quem dependia do TPS para sustentar sua família. Com dois filhos nascidos nos EUA e o marido usando tornozeleira eletrônica, ela agora se vê obrigada a vender a casa em Davenport antes da data limite.
“Queremos recomeçar, mas com dignidade”, explica. Casos como o dela revelam a situação de famílias mistas, presas entre duas legislações e sem alternativas imediatas. Custos altos, passaportes retidos e processos judiciais tornam a saída uma corrida contra o tempo.

Uma saída temporária possível
Organizações comunitárias pressionam o governo por uma alternativa: a Salida Forçosa Diferida (DED). Essa medida já foi aplicada a outros grupos, não cria um novo status legal, mas suspende deportações por um período limitado.
Segundo Katiuska Rodríguez Meza, líder do grupo Nacidos del Pavimento, trata-se de “uma medida humanitária mínima” para que famílias trabalhadoras possam planejar o futuro sem medo. Até agora, o governo não deu resposta, e a incerteza continua.
O impacto além das fronteiras
O fim do TPS não apenas altera a vida de centenas de milhares de venezuelanos, mas também redesenha o mapa migratório da América Latina. Se os EUA fecham uma porta, outros países passam a ser vistos como possíveis refúgios.
A questão permanece em aberto: o que significa dizer que um país “melhorou” quando milhões ainda fogem dele? Para os afetados, a decisão soa menos como uma medida administrativa e mais como uma sentença silenciosa.