A Geração Z vem se consolidando como protagonista de mudanças culturais e sociais em todo o mundo — e na América Latina, suas vozes têm se tornado cada vez mais audíveis. De protestos contra reformas econômicas no Peru a manifestações digitais em defesa do meio ambiente e dos direitos humanos, os jovens latino-americanos estão criando novos códigos de participação política e ativismo.
A primeira geração 100% digital

Ao contrário dos millennials, que viveram a transição do analógico para o digital, a Geração Z já nasceu com o celular na mão. É a geração do streaming — Spotify, Netflix, Prime Video — e das redes sociais, onde encontram informação e estabelecem “relações parasociais” com celebridades, influenciadores, personagens fictícios ou até inteligências artificiais.
Esses canais não são apenas entretenimento: tornaram-se palco de ativismo, campanhas de conscientização e organização comunitária.
Trabalho e educação sob novas regras
Os jovens da Geração Z não se contentam com modelos tradicionais. Muitos preferem cursos técnicos ou certificações rápidas a diplomas universitários longos. Querem trabalho remoto ou híbrido, jornadas reduzidas e a possibilidade de ter side gigs (bicos digitais, freelances ou criação de conteúdo).
Mas a realidade mostra um desafio: precarização do trabalho e dificuldade de explicar a gerações anteriores o valor de novas carreiras, como streamer, influenciador ou desenvolvedor de games.
Além disso, a ONU alerta para o fenômeno dos “NiNis” — jovens que não estudam nem trabalham. Na América Latina, chegam a 20% da população jovem, sendo a maioria mulheres dedicadas a cuidados não remunerados no lar.
Ativistas digitais e novos códigos de protesto

Se antes o ativismo juvenil acontecia nas ruas, hoje também acontece nas telas. Plataformas como TikTok, Discord, Reddit e até videogames funcionam como arenas de militância. Em países como México, já ocorreram protestos feministas dentro de ambientes virtuais como Roblox.
Para Julieta Altieri, da Rede Latino-americana de Jovens pela Democracia, essa geração aprendeu a denunciar violações de direitos humanos em reels, a combater fake news com vídeos curtos e a se organizar em grupos de WhatsApp para ações coletivas, como as cozinhas comunitárias da pandemia.
Entre o desencanto e a ação cívica
Pesquisadores divergem sobre o nível de engajamento político da Geração Z. Para alguns, o desinteresse por pautas tradicionais — democracia, instituições, partidos — mostra maior individualismo. Outros apontam que o engajamento continua, mas de formas diferentes: em nichos digitais sobre saúde mental, neurodivergência, meio ambiente ou diversidade.
Na prática, esses jovens se hiperespecializam em causas específicas e constroem comunidades em torno delas. Em protestos no Peru, por exemplo, bandeiras do anime One Piece foram usadas como símbolo de rebeldia contra uma reforma de pensões considerada injusta pelos trabalhadores precários.
O potencial e os riscos do “bônus demográfico”
A Geração Z representa um quarto da população latino-americana e é parte essencial do chamado bônus demográfico: a força de trabalho jovem capaz de impulsionar crescimento econômico e inovação.
Mas desigualdade no acesso à tecnologia, à educação de qualidade e a empregos dignos ameaça esse potencial. Em países como Chile, a pandemia escancarou essa realidade: muitas famílias dividiam um único celular ou computador para trabalhar, estudar e se entreter.
A Geração Z latino-americana é conectada, criativa e inconformada. Protesta em ruas e redes, redefine trabalho e educação e cria novas formas de ativismo, dos cosplayers no Chile às marchas com bandeiras de anime no Peru. Uma geração que pode transformar a região — se superar os limites da desigualdade.
[ Fonte: DW ]