Algumas descobertas científicas não apenas mudaram a medicina. Elas alteraram as chances de sobrevivência de populações inteiras. Do controle de doenças infecciosas à possibilidade de realizar transfusões seguras, passando pelo tratamento do diabetes e pelo combate à fome, cinco nomes aparecem em uma seleção impressionante. As estimativas associadas aos seus trabalhos chegam a centenas de milhões de vidas e, em um dos casos, ultrapassam a marca de 1 bilhão.
Maurice Hilleman e as vacinas que atravessaram gerações

Durante séculos, doenças que hoje podem ser prevenidas representavam ameaças permanentes, sobretudo para crianças. Foi nesse cenário que o virologista americano Maurice Hilleman construiu uma carreira extraordinária.
Especialista no desenvolvimento de vacinas, ele esteve envolvido na criação de cerca de 40 imunizantes, incluindo aqueles destinados à prevenção de doenças como caxumba, catapora, meningite e sarampo.
Segundo levantamento repercutido pela Science Focus, suas contribuições estariam relacionadas à preservação de mais de 130 milhões de vidas.
Hilleman também ajudou a compreender como os vírus da gripe conseguem modificar proteínas utilizadas pelo organismo para reconhecê-los. Essa capacidade de transformação explica, em parte, por que as vacinas contra influenza precisam ser atualizadas periodicamente.
Em 1957, ele identificou sinais de que uma nova variante da gripe poderia provocar uma pandemia e participou rapidamente do desenvolvimento de uma vacina. A resposta ajudou a reduzir os efeitos daquele surto.
Mas as vacinas representam apenas uma parte dessa história.
Alexander Fleming e Frederick Banting transformaram doenças antes devastadoras
Em 1928, o microbiologista escocês Alexander Fleming voltou de férias e encontrou algo inesperado em seu laboratório. Uma placa de Petri contendo bactérias havia sido contaminada por um fungo.
Em vez de simplesmente descartá-la, Fleming percebeu que as bactérias não cresciam ao redor do mofo. A observação indicava que o fungo produzia alguma substância capaz de impedir sua proliferação.
Essa substância receberia o nome de penicilina.
Fleming não conseguiu transformá-la sozinho em um medicamento utilizável. Mais de uma década depois, Howard Florey e seus colaboradores avançaram na purificação e aplicação terapêutica do composto. A penicilina inaugurou uma nova era no tratamento das infecções bacterianas e, segundo as estimativas citadas pela publicação britânica, teria ajudado a salvar mais de 200 milhões de vidas.
Outro avanço igualmente revolucionário surgiu no Canadá.
Antes da década de 1920, receber um diagnóstico de diabetes tipo 1, principalmente na infância, frequentemente significava enfrentar uma expectativa de vida extremamente curta. As possibilidades de tratamento eram muito limitadas.
Em 1921, o farmacologista canadense Frederick Banting, trabalhando com colaboradores, participou da descoberta e do desenvolvimento terapêutico da insulina, hormônio essencial para controlar a glicose no sangue.
Posteriormente, James Collip desenvolveu um método de purificação que tornou possível sua utilização em seres humanos.
O impacto foi gigantesco. As contribuições associadas ao desenvolvimento da terapia com insulina teriam permitido salvar mais de 200 milhões de vidas.
Há ainda um detalhe marcante nessa história: a patente relacionada ao tratamento foi vendida por apenas um dólar, numa tentativa de facilitar o acesso à descoberta.
Norman Borlaug mostrou que ciência também poderia combater a fome
Nem todas as descobertas que salvam vidas acontecem dentro de hospitais ou laboratórios médicos.
O agrônomo americano Norman Ernest Borlaug demonstrou que modificar a maneira como produzimos alimentos também poderia alterar dramaticamente as perspectivas de sobrevivência de milhões de pessoas.
Nas décadas de 1950 e 1960, Borlaug trabalhou no desenvolvimento de variedades de trigo mais produtivas e resistentes a doenças. Essas culturas foram posteriormente utilizadas por agricultores em países como México, Paquistão e Índia.
Ele também foi pioneiro em técnicas de cruzamento capazes de combinar características desejáveis de diferentes variedades, incluindo genes relacionados à resistência contra determinadas doenças agrícolas.
Os ganhos de produtividade ajudaram regiões vulneráveis a produzir mais alimentos e contribuíram para o movimento que ficaria conhecido como Revolução Verde.
As estimativas apresentadas pela Science Focus atribuem aos avanços relacionados ao trabalho de Borlaug cerca de 245 milhões de vidas preservadas, principalmente graças à melhoria da disponibilidade de alimentos e da nutrição.
Ainda assim, nenhuma dessas estimativas alcança o número associado ao último nome da seleção.
Karl Landsteiner resolveu um mistério mortal escondido no sangue
No início do século XX, receber uma transfusão sanguínea podia ser extremamente arriscado. Médicos sabiam que transferir sangue poderia salvar pacientes, mas algumas transfusões provocavam reações graves e até fatais.
O motivo permanecia pouco compreendido até que o biólogo austríaco-americano Karl Landsteiner fez uma descoberta decisiva.
Em 1901, ele demonstrou que o sangue humano não era igual em todas as pessoas. Existiam diferentes características que permitiriam estabelecer aquilo que hoje conhecemos como grupos sanguíneos.
A descoberta forneceu as bases científicas para determinar a compatibilidade entre doadores e receptores, tornando as transfusões muito mais seguras.
Outro passo importante ocorreu em 1914, quando o médico belga Albert Hustin desenvolveu uma técnica para impedir que o sangue coagulasse durante o armazenamento e o transporte.
A combinação desses avanços transformou transfusões em uma ferramenta fundamental da medicina moderna, utilizada em cirurgias, acidentes, partos, tratamentos oncológicos e inúmeras emergências.
É justamente aqui que aparece o maior número da lista: os avanços relacionados à identificação dos grupos sanguíneos e às transfusões são associados à preservação de mais de 1 bilhão de vidas em todo o mundo.
Mais do que estabelecer um ranking definitivo, essas estimativas ajudam a dimensionar algo difícil de enxergar no cotidiano: descobertas feitas há décadas continuam presentes em hospitais, campanhas de vacinação, tratamentos e até na comida disponível à mesa. Cinco trajetórias diferentes, portanto, acabaram compartilhando um resultado extraordinário: mudar as probabilidades de sobrevivência da própria humanidade.
[Fonte: Infobae]