O Museu do Louvre, ícone da cultura e do turismo mundial, voltou a ocupar as manchetes — desta vez, por um motivo vergonhoso. Em apenas sete minutos, um grupo de criminosos levou oito peças da coleção imperial francesa, avaliadas como de valor “incalculável”. O ataque, executado em plena atividade do museu, expôs algo mais profundo que um simples roubo: uma crise crônica de segurança que acompanha o Louvre há mais de um século.
Segundo a polícia francesa, três ou quatro ladrões encapuzados, disfarçados de operários, aproveitaram as obras de restauração na fachada voltada ao rio Sena para invadir o prédio usando um montacargas. Já no interior, destruíram com motosserras e serras elétricas duas vitrines da Galeria de Apolo, onde se encontram as Joias da Coroa Francesa.
Entre as peças roubadas estavam tiaras, colares e broches da imperatriz Eugênia de Montijo e da rainha Maria Amélia, além de outros adornos históricos. O grupo fugiu em motos de alta cilindrada, deixando para trás uma das coroas, danificada na fuga.
O que mais espantou as autoridades foi o fato de o ataque ter ocorrido com visitantes dentro da galeria, sem que os alarmes fossem acionados de forma efetiva. Segundo testemunhas, as sirenes “não soaram ou não foram ouvidas pelos agentes”.
Um histórico de roubos e descuidos

O caso reacende uma velha ferida. O Louvre já foi palco de alguns dos roubos mais emblemáticos da história da arte, todos marcados por falhas de vigilância e desorganização interna.
1911: o desaparecimento da Mona Lisa
O episódio mais famoso ocorreu em 21 de agosto de 1911, quando Vincenzo Peruggia, um pintor e ex-funcionário do museu, simplesmente escondeu-se dentro de um armário e, ao amanhecer, saiu levando La Gioconda debaixo do casaco.
Na época, o Louvre possuía menos de 150 guardas para 250 mil obras, o que tornava quase impossível monitorar as salas. A ausência da pintura só foi percebida 26 horas depois, e a investigação ganhou contornos de farsa — Guillaume Apollinaire e Pablo Picasso chegaram a ser detidos como suspeitos. A obra seria recuperada apenas em 1913, na Itália.
1983: o roubo da coraça e do elmo borgonhês
Décadas depois, em 1º de maio de 1983, ladrões levaram uma coraça e um elmo do século XVI, decorados com ouro e prata, da coleção Rothschild. A vitrine foi encontrada quebrada, sem nenhum alarme acionado. As peças só reapareceriam 40 anos depois, quando um especialista em antiguidades militares as localizou em uma coleção privada de Bordeaux.
1995: a sequência de pequenos furtos
Nos anos 1990, uma onda de roubos e vandalismo expôs novamente a fragilidade do museu. Um visitante danificou uma pintura com um estilete, outro roubou um machado de 17 quilos de uma escultura, e, meses depois, desapareceu um retrato valioso em pastel. Ficou evidente que, embora as obras-primas estivessem protegidas, as salas menos visitadas permaneciam desguarnecidas.
Uma vulnerabilidade estrutural
O roubo das joias em 2025 repete os mesmos padrões de descuido: uso de áreas em reforma como brecha, entrada por janelas laterais, execução rápida e precisa, e ausência de resposta imediata da segurança.
Funcionários já vinham alertando para o problema. Em junho, trabalhadores do Louvre protestaram contra o déficit de pessoal para lidar com os milhões de visitantes anuais.
A ministra da Cultura, Rachida Dati, reconheceu a gravidade da situação:
“O problema da vulnerabilidade dos nossos museus não é de agora. Há 40 anos que não cuidamos da segurança como deveríamos.”
Ela revelou ainda que, há dois anos, o então diretor do Louvre solicitou uma auditoria policial sobre o sistema de segurança, que jamais foi implementada.
Segundo Dati, é urgente “adaptar os museus às novas formas de criminalidade — grupos profissionais que entram tranquilamente, levam tudo em quatro minutos e saem sem violência”.
O símbolo de um sistema ultrapassado
Mais do que um furto espetacular, o episódio mostra que o Louvre segue prisioneiro de sua própria história: um colosso cultural que ainda depende de sistemas e protocolos concebidos para outro século.
Enquanto não houver investimento real em tecnologia e treinamento humano, o museu que abriga a Mona Lisa, o Código de Hamurábi e a Vênus de Milo continuará vulnerável — não à guerra, mas à simples engenhosidade dos ladrões.
[ Fonte: Xataka ]