O relógio está correndo para um dos pilares centrais da segurança internacional contemporânea. Sem um acordo de última hora entre as duas maiores potências nucleares do planeta, o mundo pode entrar, pela primeira vez em décadas, em uma fase sem limites formais para ogivas estratégicas. Em meio ao impasse, autoridades russas adotam um tom pragmático — e preocupante — ao afirmar que já estão prontas para essa nova realidade.
Moscou fala em “nova realidade” sem restrições

A Rússia afirmou estar preparada para um mundo sem limites para o controle de armas nucleares caso o atual acordo com os Estados Unidos expire sem substituição. A declaração veio do vice-ministro das Relações Exteriores Sergei Ryabkov, responsável pela pauta de controle de armamentos, em comentários divulgados pela agência estatal TASS.
Segundo Ryabkov, a falta de resposta de Washington às propostas de Moscou para manter limites ao arsenal estratégico é, por si só, uma mensagem. “A ausência de resposta também é uma resposta”, disse o diplomata, acrescentando que a Rússia já se ajusta ao cenário em que as duas potências deixam de ter restrições legais sobre suas forças nucleares estratégicas.
O tratado em questão, assinado em 2010 pelo então presidente americano Barack Obama e pelo então líder russo Dmitry Medvedev, estabelece tetos para ogivas nucleares implantadas e para os vetores de lançamento, além de prever inspeções mútuas. Caso expire sem renovação, desaparecerá o último mecanismo formal de verificação entre Moscou e Washington.
O que muda sem um acordo em vigor
Na prática, o fim do tratado não significa lançamento imediato de mísseis ou aumento automático de arsenais. Mas remove um freio importante: sem limites claros e sem inspeções, cresce a incerteza sobre capacidades reais de cada lado. Analistas alertam que isso tende a estimular planejadores militares a assumir o pior cenário possível — um clássico gatilho para corridas armamentistas.
Ryabkov afirmou que Moscou se preparou antecipadamente para essa hipótese. A Rússia, disse ele, mantém sua postura estratégica e seguirá desenvolvendo sistemas considerados necessários para garantir sua segurança nacional. Do lado americano, ainda não houve sinal público de um acordo de última hora.
A situação é particularmente delicada porque ocorre em um momento de tensões geopolíticas ampliadas, com conflitos regionais, sanções econômicas e canais diplomáticos mais estreitos do que em períodos anteriores.
China, Irã e defesa antimíssil entram na equação

O diplomata russo também declarou apoio à posição da China sobre controle de armas, reforçando a ideia de que futuras arquiteturas de segurança deveriam levar em conta mais atores globais — algo que Washington defende há anos, mas que Pequim rejeita, alegando ter um arsenal muito menor.
Sobre o Irã, Ryabkov criticou as propostas recentes dos Estados Unidos, classificando-as como ultimatos. O tema nuclear iraniano continua sendo um ponto sensível nas relações internacionais, com impactos diretos na estabilidade do Oriente Médio.
Ele também mencionou preocupações com sistemas de defesa antimíssil. Segundo Ryabkov, caso os EUA instalem um grande número desses sistemas na Groenlândia, a Rússia se veria obrigada a adotar “medidas compensatórias” em sua esfera militar — um lembrete de como tecnologias defensivas podem ser interpretadas como ameaças estratégicas.
Um retorno a um passado que o mundo tentou deixar para trás
Especialistas em segurança internacional veem o possível fim do tratado como um retrocesso simbólico e prático. Desde o final da Guerra Fria, uma série de acordos buscou reduzir arsenais e aumentar a transparência entre as grandes potências. Cada mecanismo desse tipo ajudou a diminuir riscos de erro de cálculo e escaladas acidentais.
Sem um sucessor para o acordo atual, o planeta entra em território pouco explorado nas últimas décadas. Não é apenas uma disputa entre Moscou e Washington: trata-se de um sinal mais amplo de erosão das regras que sustentaram a estabilidade estratégica global.
A declaração russa deixa claro que, para Moscou, o tabuleiro já está sendo redesenhado. Resta saber se ainda há espaço — e vontade política — para reconstruir pontes antes que o mundo passe oficialmente a viver sem limites formais para suas armas mais destrutivas.
[ Fonte: CNN Brasil ]