As chamadas smart drugs — termo que engloba estimulantes, nootrópicos e suplementos usados para turbinar o cérebro — se tornaram um fenômeno global. Compostos como metilfenidato (Ritalina, Concerta), lisdexanfetamina (Venvanse) e modafinila (Provigil), indicados originalmente para TDAH e narcolepsia, passaram a ser consumidos por pessoas sem diagnóstico médico, em busca de mais concentração e resistência mental.
Além deles, entram na categoria substâncias como antidepressivos, ansiolíticos, nootrópicos clássicos para distúrbios cognitivos e até nutracêuticos populares, como cafeína, ginseng e creatina. A promessa é sedutora — quem não quer um cérebro mais rápido e produtivo? —, mas a ciência mostra que os benefícios são bem mais modestos do que se imagina.
Um impulso artificial

Um estudo da Universidade de Exeter, publicado na revista Frontiers in Psychology, mostrou que o uso de modafinila entre estudantes e funcionários universitários cresceu 42% durante a pandemia, enquanto o consumo de suplementos em altas doses aumentou 30%.
“Esses medicamentos podem trazer efeitos pontuais, mas são pequenos, passageiros e muito distantes da ideia de ‘remédios que aumentam a inteligência’”, explica o psiquiatra Luiz Zoldan, do Hospital Israelita Albert Einstein.
A neurocientista Barbara Sahakian, da Universidade de Cambridge, lembra que, embora algumas pesquisas indiquem ganhos como redução da impulsividade e maior prazer nas tarefas, os resultados são discretos e não há evidências sobre segurança a longo prazo.
O neurologista Fabiano Moulin, da Unifesp, ressalta que parte da sensação de eficácia vem do próprio cérebro: “Essas drogas estimulam a dopamina, o que aumenta o engajamento. A pessoa se sente mais produtiva, mas o desempenho real tende a ser o mesmo. Ela só tolera mais o esforço.”
Riscos reais e falsa produtividade
O uso sem acompanhamento médico traz riscos físicos e psicológicos. Entre os efeitos colaterais estão insônia, ansiedade, palpitações, aumento da pressão arterial, alterações de humor e, em casos extremos, paranoia ou sintomas psicóticos.
O consumo contínuo pode levar à dependência química, exigindo doses cada vez maiores e provocando desgaste emocional e cardiovascular. “Cria-se um ciclo de falsa produtividade: a pessoa acredita que está rendendo mais, mas na verdade está sacrificando sono, equilíbrio e saúde mental”, alerta Zoldan.
A cultura da exaustão
A popularização das smart drugs reflete uma sociedade obcecada por performance. O filósofo Byung-Chul Han chama isso de “sociedade do cansaço”: um mundo em que a autocobrança e a hipercompetitividade nos fazem acreditar que descanso é fracasso.
“Essas substâncias viram uma solução mágica para sustentar o ritmo, mas acabam ampliando o problema”, diz Zoldan. Muitos casos de abuso, acrescenta, se confundem com burnout, já que os sintomas — ansiedade, insônia e queda de rendimento — são semelhantes.
Questão ética e desigualdade de acesso
Além da saúde, há um dilema ético e social: quem pode pagar por esses “atalhos cognitivos” sai na frente. Sahakian compara o fenômeno ao doping esportivo: “Devemos discutir quem teria acesso a essas drogas e se seu uso seria justo em ambientes competitivos, como exames ou contratações”.
O problema se agrava porque a regulação ainda é vaga. Nos Estados Unidos, a modafinila é aprovada para tratar distúrbios do sono em turnos de trabalho; no Reino Unido, não. No Brasil, o uso sem receita é ilegal, mas amplamente ignorado.
Enquanto o debate não avança, a desigualdade cresce: os mais ricos compram inteligência química; os demais, exaustão e culpa.
O que realmente funciona

Para os especialistas, as melhores estratégias de aprimoramento cognitivo continuam sendo as mais antigas — e acessíveis: sono adequado, alimentação equilibrada, atividade física e manejo do estresse.
“Se quisermos melhorar o desempenho, precisamos priorizar hábitos que sustentem o cérebro, em vez de atalhos que cobram caro da saúde”, conclui Zoldan.
[ Fonte: CNN Brasil ]