A reunião entre Donald Trump e Vladimir Putin no Alasca terminou sem grandes anúncios e deixou claro que os objetivos dos dois líderes seguem distantes. Trump esperava um cessar-fogo imediato, mas não conseguiu o compromisso que desejava. O semblante, o discurso contido na coletiva e até a entrevista protocolar a Sean Hannity, na Fox News, transmitiram insatisfação. Já Putin, por sua vez, falou mais, mas também evitou detalhes, classificando o encontro apenas como “oportuno” e “útil”.
Agora, todas as atenções se voltam para a próxima etapa: a visita de Volodymyr Zelensky à Casa Branca, anunciada para esta segunda-feira, que pode definir se Trump ainda manterá seu otimismo em relação a uma saída negociada.
Expectativas frustradas

Trump queria repetir a fórmula de seu livro The Art of the Deal: transformar o encontro em um momento histórico com resultados imediatos. Elevou o status da visita de Putin a uma cúpula formal, com todos os símbolos de Estado. Mas não saiu com o que mais buscava: o anúncio de um cessar-fogo.
Para Trump, parar o derramamento de sangue já seria uma vitória política. Na sua lógica, um armistício criaria uma fronteira de facto — como aconteceu em 1949 entre Israel e vizinhos árabes, ou em 1953 entre as duas Coreias — congelando o território ocupado pela Rússia, hoje cerca de 20% da Ucrânia.
Putin, no entanto, enxerga a guerra como parte de uma negociação maior: a revisão das fronteiras pós-URSS. Desde o início dos anos 2000, insiste que o colapso soviético foi rápido demais, criando novos Estados sem um acordo adequado com Moscou. Para ele, a guerra da Ucrânia é apenas o começo dessa discussão, não o fim.
A guerra mais longa do que parece
Trump lembra que o conflito não começou em 2022, mas em 2014, com a anexação da Crimeia e o apoio russo a separatistas no Donbass. Ou seja, trata-se de uma guerra de 11 anos, marcada por tentativas frustradas de negociações, dos Acordos de Minsk à mediação de países europeus.
Putin, por sua vez, continua acumulando ganhos militares graduais. Embora lentos e custosos, os avanços russos mantêm a pressão sobre Kiev, que sofre com ataques diários a civis e infraestrutura.
Zelensky em xeque

Para complicar, Zelensky enfrenta desafios internos. Ele não convocou eleições previstas para 2023, alegando a impossibilidade durante a guerra. Pesquisas indicavam que poderia perder para o ex-comandante Valerii Zaluzhny, considerado herói da resistência inicial.
Qualquer concessão territorial ou promessa de neutralidade poderia enfraquecer ainda mais sua posição política. E é exatamente disso que Putin se aproveita: quer que a Ucrânia aceite um modelo semelhante ao de Finlândia e Áustria na Guerra Fria — soberania limitada, neutralidade forçada e exclusão da OTAN e da União Europeia.
O desgaste da mediação
Trump não é o primeiro a tentar. Houve iniciativas anteriores: mediação de Israel em 2022, negociações em Istambul, reuniões no chamado “Formato da Normandia” com França e Alemanha, e até 20 tentativas de cessar-fogo registradas desde 2014. Todas fracassaram.
A dificuldade é estrutural: cada parte narra a origem da guerra de forma diferente. Moscou culpa o Ocidente pelo levante da Praça Maidan em 2013 e pela queda de Yanukóvich em 2014. Kiev, por sua vez, vê nesses episódios apenas a resistência legítima contra a influência russa.
O que está em jogo para Trump
Ao não obter o cessar-fogo no Alasca, Trump pode perder interesse no tema e buscar outras vitórias diplomáticas — como já fez ao intermediar acordos em regiões como Índia-Paquistão e Congo-Ruanda. Mas, por ora, insiste em exibir-se como único líder disposto a encarar o impasse ucraniano.
O problema é que o tempo joga contra. Em breve, começam as eleições de meio termo nos EUA, e depois toda a agenda política estará dominada pela corrida presidencial — sem Trump como candidato.
Com Zelensky em Washington, Trump terá nova chance de mostrar resultados. Mas, diante da complexidade das ambições de Putin e da fragilidade política do presidente ucraniano, as perspectivas de um cessar-fogo imediato parecem cada vez mais distantes.
[ Fonte: Infobae ]