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Ciência

Um ponto vermelho no universo primitivo pode esconder um dos objetos mais estranhos já imaginados pelos astrônomos

Uma descoberta feita com o James Webb está obrigando astrônomos a reconsiderar objetos misteriosos do universo jovem. Por trás de um brilho avermelhado pode existir uma estrutura completamente inesperada.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Desde que começou a observar as regiões mais distantes do cosmos, o telescópio James Webb encontrou pequenos pontos vermelhos que desafiam explicações simples. Agora, um deles se destacou por ser maior e muito mais luminoso. Ao analisar sua luz em detalhes, cientistas perceberam que estavam diante de algo incomum, capaz de produzir uma quantidade extraordinária de energia e que pode representar uma categoria de objeto astronômico até então desconhecida.

Um objeto de 660 milhões de anos depois do Big Bang

Um ponto vermelho no universo primitivo pode esconder um dos objetos mais estranhos já imaginados pelos astrônomos
© SpaceX – Pexels

Um grupo internacional de pesquisadores identificou o que está sendo chamado de uma possível “estrela buraco negro”, uma estrutura que pode ajudar a solucionar um dos enigmas surgidos com as observações do universo primitivo realizadas pelo telescópio espacial James Webb, da NASA.

O objeto estudado existia aproximadamente 660 milhões de anos depois do Big Bang, quando o universo ainda estava em uma fase relativamente inicial de sua história. A pesquisa foi publicada na revista científica Nature.

A descoberta chama atenção porque o objeto, visto à distância, poderia facilmente ser confundido com uma estrela gigantesca. Seu tamanho aparente seria comparável ao do Sistema Solar. No entanto, a análise indica que sua verdadeira natureza pode ser muito mais exótica.

Os pesquisadores acreditam que não se trata de uma estrela convencional. No centro da estrutura provavelmente existe um buraco negro envolvido por uma nuvem extremamente densa de gás.

Esse material formaria uma espécie de casulo ao redor do buraco negro e produziria uma aparência semelhante à de uma estrela. Mas existe uma diferença fundamental: a quantidade de energia envolvida é muito maior do que qualquer estrela comum conseguiria gerar.

A potência impressionante esconde o segredo da descoberta

Segundo o estudo, essa estrutura pode produzir cerca de 100 bilhões de vezes mais energia do que uma estrela, alcançando uma potência compatível com aquela associada à atividade de um buraco negro.

O objeto recebeu o nome de MoM-BH-1*. A designação combina referências a “black hole star”, ou “estrela buraco negro”, enquanto o número indica que os pesquisadores consideram a possibilidade de existirem outros exemplares dessa categoria.

A descoberta também oferece uma possível explicação para um mistério que acompanha o James Webb praticamente desde o início de suas observações científicas.

Desde 2022, o telescópio vem detectando numerosos objetos compactos e extremamente brilhantes no universo primitivo. Por causa da aparência apresentada nas imagens, eles ficaram conhecidos entre os astrônomos como “pequenos pontos vermelhos”.

Esses pontos rapidamente se transformaram em um quebra-cabeça. Eles são luminosos demais para algumas das explicações inicialmente consideradas e aparecem em uma época cósmica na qual os cientistas ainda tentam compreender como galáxias e buracos negros conseguiram crescer tão rapidamente.

Foi justamente entre essas estruturas misteriosas que surgiu uma pista particularmente importante.

O vermelho não vinha de onde os cientistas imaginavam

Em uma das observações, os pesquisadores encontraram um ponto vermelho maior e mais luminoso do que os demais. Essa característica permitiu analisar sua luz com um nível de detalhe difícil de alcançar nos objetos menores.

Inicialmente, havia uma explicação bastante natural para a coloração.

Objetos muito avermelhados no universo frequentemente parecem dessa maneira porque estão cercados por poeira cósmica. Esse material funciona de forma semelhante a uma cortina, absorvendo determinados comprimentos de onda e alterando a luz que chega aos telescópios.

Mas os dados do James Webb mostraram algo diferente.

Ao examinar o espectro do objeto, os pesquisadores perceberam que sua luz praticamente desaparecia em determinadas regiões. O comportamento não combinava bem com a hipótese de que a poeira fosse a principal responsável pelo vermelho.

A alternativa apontava para grandes quantidades de gás hidrogênio.

Isso ajudava a explicar a cor, mas criava outra pergunta ainda mais intrigante: de onde vinha toda aquela energia?

Um buraco negro escondido dentro de um enorme casulo de gás

Um ponto vermelho no universo primitivo pode esconder um dos objetos mais estranhos já imaginados pelos astrônomos
© YouTube

A solução considerada mais provável pelos autores é justamente a que transforma a descoberta em algo tão incomum.

No centro do objeto estaria um buraco negro extremamente ativo, cercado por uma enorme quantidade de gás. Conforme o material interage com o buraco negro, enormes quantidades de energia são liberadas.

O casulo gasoso ao redor modificaria a radiação antes que ela escapasse para o espaço. Vista a bilhões de anos-luz de distância, toda a estrutura acabaria apresentando características que lembram uma estrela gigantesca, apesar de seu motor central ser completamente diferente.

É daí que surge a expressão “estrela buraco negro”.

A descoberta também pode fornecer uma nova interpretação para pelo menos parte dos pequenos pontos vermelhos encontrados pelo James Webb. Em vez de serem simplesmente galáxias extremamente compactas ou objetos escondidos por grandes quantidades de poeira, alguns deles poderiam representar buracos negros envolvidos por densas estruturas gasosas.

Ainda será necessário estudar outros exemplares para descobrir até que ponto esse modelo pode ser aplicado à população desses misteriosos pontos vermelhos.

Se novas observações confirmarem a existência de mais estruturas semelhantes à MoM-BH*-1, os astrônomos poderão ter encontrado não apenas um objeto extraordinário, mas também uma peça importante para compreender como buracos negros cresceram tão rapidamente durante os primeiros capítulos da história do universo.

[Fonte: Perfil]

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