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Ciência

Uma rede de sensores revelou uma atividade sob a Cordilheira dos Andes

Durante meses, uma rede de sensores captou sinais que ninguém conseguia perceber da superfície. O que eles revelam ajuda a entender como uma das maiores cordilheiras do planeta continua mudando.
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Tempo de leitura: 4 minutos

À primeira vista, a Cordilheira dos Andes parece uma estrutura gigantesca e praticamente imóvel, moldada há milhões de anos. Mas, sob as montanhas, a realidade é bem diferente. Pequenos movimentos da crosta acontecem continuamente e, durante muito tempo, muitos deles permaneceram invisíveis para os instrumentos convencionais. Agora, uma pesquisa realizada no Chile conseguiu observar esse processo de maneira muito mais detalhada — e encontrou pistas sobre o que ainda está acontecendo dentro da cordilheira.

Uma montanha que parecia silenciosa

Durante décadas, os cientistas estudaram os Andes usando grandes redes sísmicas capazes de registrar os terremotos mais importantes da região. O problema é que esses equipamentos são especialmente úteis para acompanhar a intensa atividade relacionada à subducção da placa de Nazca sob a América do Sul.

Os movimentos muito menores e próximos da superfície podem acabar passando despercebidos.

Foi justamente essa região pouco observada que uma equipe de pesquisadores da Universidade do Chile decidiu investigar. Para isso, instalou uma rede mais densa de sensores na pré-cordilheira da Região de Valparaíso, em uma área de aproximadamente 100 quilômetros quadrados.

O local escolhido fica próximo ao sistema de falhas Cariño Botado, uma estrutura geológica associada à deformação do setor ocidental dos Andes.

Os equipamentos permaneceram atentos a vibrações extremamente pequenas. E foi aí que a aparente tranquilidade da montanha começou a mudar.

Entre o fim de 2023 e o início de 2024, os sensores registraram centenas de eventos sísmicos de magnitude muito baixa. Eles ocorreram a profundidades de aproximadamente 2 a 6 quilômetros e, na maioria dos casos, seriam impossíveis de perceber para uma pessoa na superfície.

O mais interessante, porém, não era simplesmente a quantidade de pequenos terremotos. Era o padrão formado por eles.

Os pequenos terremotos formam um mapa escondido

Ao analisar os registros, os pesquisadores identificaram 803 microsismos associados à região estudada. Em vez de aparecerem distribuídos aleatoriamente, muitos deles estavam concentrados nas proximidades do sistema de falhas.

Esse detalhe é importante porque permite observar onde a crosta está acomodando parte das forças que atuam sobre os Andes.

Para entender melhor o fenômeno, a equipe não utilizou apenas sensores sísmicos. Os dados foram combinados com medições de gravidade e estudos de magnetotelúrica, capazes de revelar características diferentes das estruturas subterrâneas.

Também foram utilizadas ferramentas de inteligência artificial para ajudar a detectar, localizar e caracterizar automaticamente os pequenos eventos.

O resultado funciona quase como uma espécie de radiografia da parte superficial da cordilheira.

Os pesquisadores conseguiram identificar estruturas que continuam apresentando atividade e observar como a deformação está sendo distribuída no interior da crosta. O estudo publicado na revista Geology representa, segundo os autores, uma evidência inédita desse tipo de sismicidade extremamente superficial associada à região de Cariño Botado.

Isso ajuda a responder uma pergunta importante: como uma cadeia de montanhas que começou a se formar há milhões de anos continua se modificando atualmente?

A resposta está ligada a uma força geológica que continua atuando em profundidade.

O processo que continua empurrando os Andes

A origem desses movimentos está relacionada à subducção da placa de Nazca. Essa enorme placa oceânica continua avançando sob a placa Sul-Americana, submetendo a região a forças capazes de deformar a crosta continental.

Mas existe uma particularidade nessa parte dos Andes.

Entre aproximadamente 27°S e 33°S, a placa de Nazca apresenta uma configuração conhecida como subducção de baixo ângulo, ou flat slab. A presença da dorsal de Juan Fernández influencia essa geometria e pode modificar a maneira como as forças são transmitidas para o continente.

Em determinadas condições, parte da compressão gerada pelo encontro das placas pode ser transferida para estruturas localizadas mais para dentro do continente.

O sistema de falhas Cariño Botado parece ser uma dessas estruturas que continuam respondendo a essas forças.

Pesquisas geológicas anteriores já haviam encontrado evidências de que a falha esteve envolvida em movimentos durante o período Quaternário e no levantamento da borda ocidental dos Andes. O novo estudo acrescenta uma informação fundamental: essas estruturas não são apenas marcas deixadas por acontecimentos antigos.

Elas ainda podem apresentar atividade hoje.

Isso não significa, entretanto, que exista uma grande ruptura prestes a acontecer.

O que esses 803 sinais realmente significam

Os 803 microsismos não são uma previsão de um grande terremoto. As magnitudes registradas, geralmente entre Mw 1 e 2, são extremamente pequenas e, isoladamente, não representam uma ameaça imediata à população.

O verdadeiro valor da descoberta está em outro lugar.

Cada pequeno terremoto funciona como um sinal produzido pelas rochas quando elas se deformam. Ao reunir centenas desses sinais, os pesquisadores conseguem identificar regiões onde a crosta está se ajustando e entender melhor como as forças da subducção se distribuem.

É uma diferença importante: em vez de observar apenas os grandes terremotos, os cientistas começam a acompanhar os pequenos movimentos que acontecem muito antes de qualquer evento significativo.

O estudo também mostra como novas tecnologias estão mudando a capacidade de investigar regiões consideradas silenciosas. Sensores mais próximos uns dos outros, métodos geofísicos diferentes e algoritmos capazes de processar enormes quantidades de dados permitem enxergar fenômenos que antes simplesmente desapareciam no ruído.

E isso muda a maneira como os Andes podem ser entendidos.

A cordilheira não é uma estrutura acabada. Ela continua sendo comprimida, deformada e lentamente elevada por processos que acontecem muito abaixo dos nossos pés.

Durante meses, os sensores instalados no Chile conseguiram captar uma pequena parte dessa transformação. Os 803 eventos são, portanto, menos importantes pelo tamanho de cada terremoto do que pela história que contam juntos: a gigantesca cordilheira que parece imóvel na superfície continua se movendo por dentro.

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