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Tecnologia

Elon Musk quer aposentar a sigla IA — e a explicação vai muito além de uma simples mudança de nome

Uma ordem de Donald Trump propõe abandonar um termo usado há 70 anos. Elon Musk gostou da ideia, e sua reação revela uma disputa maior sobre o futuro da tecnologia.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Inteligência artificial pode estar prestes a ganhar outro nome, pelo menos dentro do governo dos Estados Unidos e das empresas de Elon Musk. Donald Trump determinou que órgãos federais adotem uma expressão muito mais ambiciosa para falar da tecnologia, e Musk rapidamente abraçou a proposta. A mudança parece apenas semântica, mas toca em uma discussão importante: os sistemas atuais realmente ultrapassaram aquilo que historicamente chamamos de IA?

Trump decidiu que “artificial” já não é suficiente

Em 29 de setembro, Donald Trump assinou uma ordem executiva determinando que departamentos e agências do governo dos Estados Unidos passem, sempre que permitido pela legislação, a utilizar “Super Intelligence” e a sigla “SI” no lugar de “Artificial Intelligence” e “AI”.

A justificativa apresentada pela Casa Branca é que a expressão criada há cerca de 70 anos já não representaria adequadamente as capacidades dos sistemas modernos.

Segundo o texto da ordem executiva publicada pela Casa Branca, as tecnologias atuais não apenas automatizam tarefas relacionadas à inteligência humana, mas ampliam capacidades em áreas como ciência, medicina e criatividade.

Há, porém, um detalhe importante. A ordem não transforma magicamente os sistemas atuais em uma “superinteligência” no sentido científico normalmente associado ao termo. Para implementar a mudança, o próprio documento define temporariamente SI usando a definição legal já existente de inteligência artificial.

Ou seja: inicialmente, muda principalmente o vocabulário.

Elon Musk não demorou a embarcar na ideia

Elon Musk quer aposentar a sigla IA — e a explicação vai muito além de uma simples mudança de nome
© Fabrice COFFRINI / AFP via Getty Images

A reação de Elon Musk foi praticamente imediata.

O empresário afirmou que pretende mudar o nome da divisão de inteligência artificial da SpaceX, atualmente chamada SpaceXAI, para SpaceXSI. Questionado por um usuário da rede X sobre a alteração, Musk respondeu que faria a mudança. Ele também publicou que “SI” seria um termo melhor que “AI”.

A decisão combina com uma ideia que Musk defende há anos: sistemas de inteligência artificial podem eventualmente superar amplamente as capacidades cognitivas humanas.

Ele chegou a publicar uma imagem do livro Superintelligence, do filósofo Nick Bostrom, obra de 2014 que se tornou uma das referências do debate moderno sobre os riscos associados a máquinas capazes de ultrapassar seres humanos em praticamente todas as atividades intelectuais.

Mas existe uma diferença fundamental entre essa ideia de superinteligência e a nomenclatura adotada por Trump.

Superinteligência significa outra coisa para pesquisadores

No debate acadêmico e tecnológico, “superinteligência” geralmente descreve uma hipótese muito mais extrema do que os chatbots e modelos generativos disponíveis atualmente.

Ela seria uma inteligência capaz de superar significativamente os melhores seres humanos em praticamente todos os domínios cognitivos relevantes.

Isso também não deve ser confundido com AGI, ou inteligência artificial geral. A AGI costuma representar sistemas capazes de desempenhar uma ampla variedade de tarefas intelectuais em nível comparável ao humano. A superinteligência iria além.

Nenhum consenso científico estabelece que os modelos atuais já tenham alcançado qualquer uma dessas duas condições.

Por isso, chamar toda IA de “SI” pode criar uma situação curiosa: ferramentas relativamente simples de automação poderiam tecnicamente receber a mesma denominação utilizada para descrever uma hipotética inteligência superior à humana.

Então por que Musk considera “SI” melhor?

Para Musk, a expressão parece representar melhor a direção para a qual a tecnologia está caminhando, e não necessariamente uma descrição precisa de todos os sistemas existentes.

Há também um componente estratégico.

A empresa de Musk está aprofundando sua relação com o governo americano. A própria SpaceXAI afirma que pretende disponibilizar seus modelos avançados para órgãos federais e fornecer equipes especializadas para ajudar na implementação dessas ferramentas.

Além disso, Musk participou recentemente de discussões na Casa Branca sobre segurança de sistemas avançados. Em setembro, afirmou que empresas haviam concordado com princípios envolvendo monitoramento e avaliações mútuas de segurança.

Adotar “SI”, portanto, aproxima sua empresa da linguagem escolhida pelo governo e reforça uma narrativa que Musk já utiliza: estamos entrando em uma fase tecnológica diferente daquela representada pelos primeiros 70 anos da inteligência artificial.

Uma troca de duas letras que pode mudar a percepção pública

A mudança já começa a produzir efeitos concretos. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos orientou funcionários a usar “super intelligence” em vez de “artificial intelligence” em comunicações, documentos de política pública e, quando apropriado, até documentos judiciais.

Isso não significa que “IA” esteja desaparecendo do restante do mundo. Universidades, empresas, pesquisadores e organizações internacionais continuam usando o termo normalmente.

A discussão, porém, mostra como palavras influenciam a maneira como uma tecnologia é percebida.

“Inteligência artificial” sugere algo criado para reproduzir ou complementar determinadas capacidades humanas. “Superinteligência” transmite imediatamente uma ideia diferente: algo potencialmente superior a nós.

Trump quer transformar essa segunda visão em linguagem oficial do governo americano. Musk aparentemente acredita que ela descreve melhor o destino da tecnologia.

A questão mais difícil permanece em aberto: mudar o nome é fácil. Construir uma inteligência que realmente mereça ser chamada de “super” é outra história.

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