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Tecnologia

Israel espalha artigos na internet para tentar influenciar respostas de chatbots de IA

Uma investigação revelou que conteúdos favoráveis a Israel estão sendo publicados por uma organização de pouca transparência com o objetivo de ganhar visibilidade em ferramentas de inteligência artificial. A estratégia utiliza técnicas conhecidas como Generative Engine Optimization (GEO).
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Tempo de leitura: 4 minutos

À medida que milhões de pessoas começam a usar chatbots como fontes de informação, governos, empresas e organizações encontram novas maneiras de disputar espaço nas respostas produzidas pela inteligência artificial. Uma investigação publicada nesta quarta-feira (26) aponta que Israel está utilizando justamente essa estratégia para tentar influenciar o conteúdo encontrado por sistemas como ChatGPT e Claude.

Segundo documentos públicos e reportagens do Guardian e da 404 Media, parte dessa operação envolve o Hanover Institute for Public Policy, uma organização que publica extensos relatórios na internet, mas não apresenta autores identificados, endereço físico ou uma estrutura institucional convencional.

Israel investe milhões em campanhas de influência

Segundo informações publicadas pelo Politico, Israel gastou pelo menos US$ 100 milhões desde 2023 em iniciativas destinadas a influenciar a opinião pública nos Estados Unidos. Globalmente, os investimentos chegariam a aproximadamente US$ 1 bilhão.

Parte desse esforço estaria direcionada à produção e distribuição de conteúdos capazes de aparecer em mecanismos de busca e, cada vez mais, nas respostas geradas por inteligência artificial.

Essa estratégia é conhecida como Generative Engine Optimization, ou GEO.

O conceito possui semelhanças com o tradicional SEO, utilizado para melhorar a posição de páginas nos resultados de buscadores. No GEO, entretanto, o objetivo é aumentar as chances de determinado conteúdo ser encontrado, processado ou citado por sistemas de IA generativa.

Essa prática não é exclusiva de governos. Empresas e agências de marketing também estão desenvolvendo estratégias para aumentar sua presença nas respostas dos chatbots.

Um instituto sem pesquisadores identificados

O Hanover Institute for Public Policy aparece como uma das peças mais controversas dessa estratégia.

Segundo o Guardian, não foi possível encontrar uma entidade jurídica registrada com esse nome nem um endereço físico associado ao instituto. Os relatórios também não apresentam autores ou pesquisadores responsáveis.

O próprio site tenta justificar essa ausência.

Segundo a organização, os pesquisadores permanecem anônimos porque os resultados deveriam ser avaliados com base nas fontes apresentadas, e não na reputação de seus autores. O instituto também afirma que os temas abordados podem gerar assédio contra os responsáveis pelas pesquisas.

A organização sustenta que essa é uma decisão editorial deliberada.

Documentos revelam participação de empresas de publicidade

A origem dos conteúdos aparece com mais clareza em registros apresentados sob a Lei de Registro de Agentes Estrangeiros dos Estados Unidos, conhecida como FARA.

Segundo esses documentos, a agência francesa Havas Media participou da produção da campanha. A Piro Inc., empresa de publicidade contratada no projeto, aparece envolvida na distribuição de conteúdos favoráveis a Israel.

Os registros descrevem o objetivo como informar o público americano sobre Israel e questões relacionadas por meio de conteúdos distribuídos publicamente.

Entre os materiais publicados pelo Hanover Institute estão relatórios sobre a quantidade de ajuda humanitária que teria chegado à Faixa de Gaza e textos que discutem a relação entre antissionismo e antissemitismo.

Esses são temas particularmente disputados no debate público sobre a guerra em Gaza.

Guerra em Gaza mudou a opinião pública americana

A campanha acontece em um momento de deterioração da imagem de Israel entre parte da população dos Estados Unidos.

Após os ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, que mataram cerca de 1.200 pessoas em Israel, o governo israelense iniciou sua ofensiva militar em Gaza. Segundo autoridades de saúde do território, o número de palestinos mortos desde então ultrapassou 73 mil.

Pesquisas recentes do Pew Research Center indicam que 60% dos adultos americanos possuem atualmente uma visão negativa de Israel. Entre pessoas com menos de 50 anos, essa proporção chega a 70%.

Ao mesmo tempo, os chatbots estão se tornando uma fonte cada vez mais comum de informação. Cerca de metade dos americanos já utiliza ferramentas desse tipo, enquanto aproximadamente um quarto afirma usá-las diariamente.

Site foi preparado para facilitar a leitura por inteligências artificiais

Um detalhe técnico chamou especialmente a atenção dos investigadores.

O site do Hanover Institute possui um arquivo chamado “llms.txt”, desenvolvido para organizar informações destinadas a sistemas baseados em grandes modelos de linguagem.

A 404 Media também destacou que a Piro oferece comercialmente um serviço chamado AI Story Optimization, voltado justamente para aumentar a presença de determinadas narrativas e conteúdos em ferramentas de inteligência artificial.

Nesse caso, porém, a estratégia estaria sendo aplicada à imagem pública de um país.

A quantidade de material produzido também impressiona. Segundo levantamento do Guardian, o Hanover Institute publicou 124 relatórios, somando mais de 560 mil palavras, em apenas nove dias.

A 404 Media considera provável que grande parte desse conteúdo tenha sido produzida com auxílio de inteligência artificial. Essa hipótese, entretanto, não foi confirmada de maneira independente pelo Gizmodo.

A disputa por informação agora também chegou aos chatbots

O caso mostra como a batalha pela influência digital está mudando rapidamente.

Durante anos, organizações investiram em SEO para aparecer no Google e em campanhas nas redes sociais para alcançar grandes audiências. Agora, uma nova fronteira começa a ganhar importância: aquilo que sistemas de inteligência artificial encontram quando procuram informações na internet.

O Hanover Institute reconhece em seu próprio site algumas de suas relações institucionais, mas ainda existem dúvidas sobre quem produz individualmente seus relatórios e como o conteúdo é elaborado.

Com milhões de pessoas recorrendo aos chatbots para entender notícias, política e conflitos internacionais, influenciar as fontes disponíveis para essas ferramentas pode se transformar em uma poderosa estratégia de comunicação — e em um novo desafio para avaliar a procedência das informações encontradas pela inteligência artificial.

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