Durante muito tempo, acreditou-se que a geração Z teria vantagem no mercado de trabalho por ser nativa digital. Porém, a mesma tecnologia que parecia abrir portas agora está fechando-as. Nos Estados Unidos, onde mais de 1,2 milhão de empresas já utilizam inteligência artificial em seus processos, cresce o temor de um futuro sem oportunidades de primeiro emprego.
O sinal de alerta no mercado de trabalho
Economistas de instituições como Goldman Sachs, Stanford e Harvard vêm acompanhando o impacto da IA nos Estados Unidos, considerado o grande laboratório mundial dessa transformação. O fenômeno preocupa: as empresas crescem, o PIB avança, mas o emprego juvenil fica estagnado.
Um relatório recente do Goldman Sachs descreve o cenário como de “crescimento sem emprego”. O aumento da produtividade vem dos algoritmos, não da contratação de pessoas. Para os jovens, isso significa o desaparecimento dos tradicionais postos de estágio e assistente, antes essenciais para aprender o ofício. Agora, essas tarefas são desempenhadas por softwares capazes de redigir, traduzir, analisar ou projetar em segundos.
Produtividade em alta, portas fechadas
Pesquisadores de Stanford calculam que os jovens enfrentam 13% mais dificuldades para conseguir posições iniciais, mesmo em setores com lucros recordes. Analistas como David Mericle e Pierfrancesco Mei resumem: “A economia cresce, mas com menos gente contratada”.
Enquanto a IA acelera processos, os departamentos de RH automatizam triagens, relatórios são gerados por máquinas e as atividades que serviam de treinamento para novatos simplesmente desapareceram. Áreas como tecnologia, finanças e comunicação viram as vagas júnior se tornarem raridade. Afinal, algoritmos não pedem férias, não erram por inexperiência e não exigem salários.
A tempestade perfeita para a geração Z
Outro dado inquietante vem do relatório Hiring Benchmark Report 2025-2026, da Criteria: 92% dos recrutadores acreditam que os jovens não estão preparados para o mercado atual. Embora dominem a tecnologia, carecem de experiência prática — que antes se adquiria justamente nos cargos de entrada, agora substituídos por sistemas automatizados.
No passado, aprender significava executar tarefas rotineiras e ganhar confiança. Hoje, essas mesmas tarefas são resolvidas por inteligência artificial, deixando os jovens sem espaço para errar, experimentar e amadurecer.

Crescimento econômico sem inclusão
O Goldman Sachs projeta que essa tendência se torne ainda mais evidente em caso de recessão. As empresas que já provaram ser eficientes com menos funcionários não voltarão atrás. Para a geração Z, isso significa enfrentar um mercado que cresce sem criar oportunidades para quem está começando.
Dados recentes apontam que mais de 3% dos jovens de 20 a 30 anos perderam empregos no setor tecnológico apenas em 2025. As demissões em gigantes como Microsoft, Google e Meta atingiram principalmente os recém-contratados, substituídos por profissionais mais experientes.
Quando a tecnologia se torna barreira
O mercado de trabalho moderno nunca havia visto uma barreira de entrada tão clara. Não se trata de demissões em massa, mas da ausência de vagas iniciais. O risco maior é estrutural: sem estágios e cargos de base, desaparece também a transmissão de conhecimento dentro das empresas.
Assim, o paradoxo se consolida: a inteligência artificial acelera o progresso, mas fragiliza o futuro. A verdadeira questão talvez não seja se a IA destruirá empregos, mas se ainda haverá espaço para aprender a trabalhar na era das máquinas.