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A guerra na Ucrânia está chegando a um lugar que Putin queria manter distante

O conflito está atravessando uma nova fronteira dentro da Rússia, e alguns sinais começam a aparecer justamente onde Moscou menos gostaria de vê-los.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante meses, a guerra na Ucrânia pareceu uma realidade distante para boa parte da população russa. Mas essa separação está ficando cada vez mais difícil de sustentar. Ataques com drones, incêndios em centros logísticos e problemas no abastecimento de combustível começam a atingir setores diretamente ligados à rotina dos cidadãos. E, enquanto o Kremlin tenta transmitir uma imagem de controle, suas próprias medidas indicam que a situação merece mais atenção.

A guerra começa a atingir a rotina

Vladímir Putin procurou minimizar os efeitos dos ataques ucranianos dentro do território russo. Segundo o presidente, os danos provocados contra instalações logísticas eram relevantes, mas não representavam consequências críticas para o funcionamento do país.

Poucos dias depois, porém, surgiram sinais de que Moscou está levando o problema cada vez mais a sério.

A campanha ucraniana de ataques de longo alcance deixou de se concentrar apenas em alvos militares e refinarias. Grandes centros de armazenamento e distribuição também passaram a fazer parte desse cenário.

Desde meados de julho, pelo menos 24 depósitos ligados à Wildberries, uma das maiores plataformas de comércio eletrônico da Rússia, teriam sido atingidos. O impacto não fica restrito aos prédios: esses armazéns concentram mercadorias de milhares de vendedores e funcionam como pontos essenciais para o comércio cotidiano.

A Ozon, outra gigante russa do setor, também sofreu ataques contra instalações logísticas no sul do país. Houve incêndios, evacuações e interrupções nas operações, enquanto o mercado reagiu negativamente às notícias.

O que parece, à primeira vista, uma sequência de incêndios isolados começa a formar um padrão mais amplo.

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© Meduza

O combustível virou outro sinal de alerta

A pressão também chegou a um setor ainda mais sensível: os combustíveis.

A Rússia enfrenta uma nova onda de escassez de gasolina após ataques contra refinarias e outras estruturas relacionadas ao abastecimento. Pelo menos dez regiões adotaram restrições de venda, enquanto algumas localidades próximas a Moscou registraram postos sem combustível.

Para um dos maiores produtores de petróleo do planeta, a situação tem um componente especialmente desconfortável.

O governo russo respondeu com uma combinação de medidas emergenciais: restringiu exportações, flexibilizou determinadas exigências de qualidade e aumentou a entrada de derivados de petróleo vindos do exterior.

Essas ações não significam que a economia russa esteja à beira de um colapso. Mas mostram que ataques contra infraestruturas podem produzir efeitos muito além do local atingido.

Quando uma refinaria deixa de operar, o problema não termina no perímetro da instalação. Ele pode aparecer posteriormente no transporte, nos preços e, finalmente, na rotina de quem precisa abastecer um carro.

O Kremlin começa a preparar uma resposta diferente

É nesse ponto que a resposta de Moscou se torna particularmente reveladora.

Pouco depois das declarações de Putin sobre a ausência de consequências críticas, o presidente assinou um decreto permitindo que o Estado assuma temporariamente o controle de determinadas infraestruturas consideradas vulneráveis.

A medida alcança setores como energia, indústria, logística, transporte e comunicações.

Na prática, o governo está criando um mecanismo para intervir quando considerar que uma instalação privada não está suficientemente protegida contra ataques. Paralelamente, Moscou também iniciou planos para reconstruir depósitos destruídos.

O contraste é difícil de ignorar: oficialmente, os ataques não seriam capazes de provocar consequências graves; ao mesmo tempo, o Estado amplia sua capacidade de controlar e reconstruir estruturas atingidas.

Tudo isso acontece enquanto a economia russa enfrenta inflação acima da meta e juros elevados. O Banco da Rússia mantém a taxa de referência em 14%, enquanto a inflação anual está em torno de 6%.

Por isso, o chamado “Agosto Negro” russo não precisa de nenhuma superstição para chamar atenção. O que preocupa é a soma dos acontecimentos: combustível escasso, centros logísticos incendiados, pressão sobre preços e ataques cada vez mais distantes do campo de batalha.

A guerra, para uma parcela crescente da população russa, pode estar deixando de ser apenas uma notícia sobre o front. E é justamente essa mudança silenciosa que ajuda a explicar por que o Kremlin está começando a preparar novas formas de resposta.

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