Quando se fala sobre os empregos mais promissores da era da inteligência artificial, é natural imaginar programadores, engenheiros de software e especialistas em aprendizado de máquina. Jensen Huang, CEO da Nvidia, está olhando para outro grupo. Para ele, a expansão da IA exigirá tanta infraestrutura física que algumas profissões tradicionais poderão se tornar cada vez mais disputadas. E há uma razão simples: alguém precisará construir o mundo onde toda essa tecnologia vai funcionar.
A inteligência artificial precisa de muito mais do que chips

Modelos de inteligência artificial parecem existir exclusivamente no mundo digital. Uma pergunta é enviada pela internet, servidores realizam os cálculos e uma resposta aparece segundos depois na tela.
Por trás dessa aparente simplicidade existe uma infraestrutura gigantesca.
Centros de dados precisam ser construídos, conectados à rede elétrica e equipados com sistemas de refrigeração, servidores, tubulações, equipamentos de comunicação e milhares de componentes.
E quanto maior se torna a inteligência artificial, maior tende a ser essa estrutura.
É justamente por isso que Jensen Huang acredita que eletricistas, encanadores, trabalhadores da construção civil, técnicos, instaladores e outros profissionais especializados podem estar diante de um período especialmente favorável.
Durante uma conversa com Larry Fink, CEO da BlackRock, no Fórum Econômico Mundial de Davos, Huang chegou a descrever a expansão da IA como uma das maiores construções de infraestrutura da história.
O executivo divide esse ecossistema em cinco camadas: energia, chips, infraestrutura computacional, modelos de IA e aplicações. Todas dependem da anterior.
Isso significa que não basta desenvolver um modelo cada vez mais inteligente. Antes que ele consiga responder a qualquer pergunta, alguém precisou instalar os equipamentos, conectar a energia e construir o lugar onde os computadores funcionam.
E essa necessidade pode criar uma disputa por trabalhadores.
Alguns desses profissionais poderiam superar os US$ 100 mil por ano

Huang voltou ao tema durante a conferência Dreamforce, em San Francisco, destacando as oportunidades para jovens dispostos a seguir escolas de formação profissional em vez de necessariamente buscar uma carreira universitária tradicional.
Sua previsão é particularmente chamativa.
Segundo o executivo, alguns desses trabalhadores especializados poderiam alcançar rendimentos superiores a US$ 100 mil anuais, especialmente em mercados como os Estados Unidos, onde já existe escassez de determinados profissionais.
Isso não significa, evidentemente, que todo eletricista, encanador ou trabalhador da construção passará automaticamente a receber esse valor. Os salários variam enormemente conforme localização, especialização, experiência e demanda.
A tendência apontada por Huang está relacionada à escala dos investimentos planejados.
Um único centro de dados de aproximadamente 76 mil metros quadrados pode exigir cerca de 1.500 trabalhadores durante sua construção, segundo números citados pela BioBioChile. E a necessidade de mão de obra continua depois que o prédio entra em funcionamento.
Há servidores para manter, redes para administrar, sistemas de refrigeração para operar e equipamentos que precisam funcionar continuamente.
A expansão da IA, portanto, não cria apenas empregos dentro dos computadores.
Ela cria trabalho ao redor deles.
A quantidade de trabalhadores necessária chama atenção
Algumas projeções ajudam a dimensionar esse movimento.
Uma estimativa da McKinsey citada pela BioBioChile calculou que, até 2030, a expansão da infraestrutura tecnológica nos Estados Unidos poderia exigir aproximadamente 130 mil eletricistas adicionais.
A mesma projeção apontava para cerca de 240 mil trabalhadores extras na construção e outros 150 mil supervisores de obras.
A própria Nvidia afirma que essa transformação já está acontecendo.
A companhia diz que a infraestrutura de IA baseada em seus chips está sustentando mais de 100 mil empregos nos Estados Unidos em 2026, incluindo eletricistas, encanadores, técnicos de HVAC, montadores de tubulações e trabalhadores da construção. A estimativa divulgada pela empresa vem de uma análise da Public First.
A escala industrial também é enorme. Nvidia e seus parceiros planejam produzir até US$ 500 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial nos Estados Unidos, envolvendo fabricação de semicondutores, sistemas eletrônicos e os chamados AI factories.
O resultado cria uma ironia interessante.
Quanto mais sofisticada fica a tecnologia, maior pode ser a necessidade de pessoas capazes de trabalhar diretamente com cabos, estruturas, refrigeração, energia e máquinas.
A IA pode transformar o mercado de trabalho de uma maneira inesperada
Grande parte da discussão sobre inteligência artificial se concentra em substituição.
Modelos já conseguem escrever textos, produzir imagens, programar, analisar documentos e automatizar diversas tarefas administrativas. Isso naturalmente provoca dúvidas sobre quais empregos continuarão existindo.
Huang apresenta outro lado dessa transformação.
Para que a IA automatize determinadas tarefas, será necessário construir uma quantidade extraordinária de infraestrutura. E essa expansão pode aumentar a demanda justamente por trabalhos físicos que são muito mais difíceis de substituir por software.
Isso não elimina os riscos de automação em outras áreas, nem garante uma explosão salarial uniforme. As declarações de Huang representam a visão do executivo de uma companhia que também se beneficia diretamente da expansão dessa infraestrutura.
Mas existem sinais concretos de que a demanda por profissionais especializados está se tornando parte importante da corrida tecnológica.
Até governos começaram a preparar trabalhadores especificamente para esse mercado. No Chile, por exemplo, foram apresentados em 2026 novos perfis ocupacionais destinados à indústria de data centers diante da necessidade crescente de pessoal especializado para operar essas instalações.
A próxima geração de empregos tecnológicos, portanto, talvez tenha uma aparência diferente daquela que muitos imaginavam.
Algumas pessoas estarão desenvolvendo modelos de inteligência artificial.
Outras estarão fabricando seus chips.
E milhares poderão ganhar a vida construindo paredes, instalando tubulações e conectando os cabos que permitem que tudo isso exista.
[Fonte: Biobiochile]