A inteligência artificial avança enquanto cresce uma pergunta desconfortável: o que acontece se a tecnologia escapar do controle? Nos Estados Unidos, executivos do setor já levantam cenários extremos e discutem até a possibilidade de desacelerar seu desenvolvimento. A China também reconhece riscos sérios, mas construiu uma visão própria sobre como enfrentá-los. E essa diferença ganha peso justamente quando os dois países disputam a liderança mundial da IA.
Pequim quer inteligência artificial em praticamente tudo
A China não trata a inteligência artificial apenas como mais uma inovação tecnológica. O objetivo é incorporá-la progressivamente a diferentes áreas da economia e da sociedade, da agricultura e saúde até aplicações militares.
Isso não significa que Pequim ignore os riscos. Pelo contrário: as autoridades chinesas discutem possíveis consequências negativas da tecnologia há anos.
Em 2017, o governo já apontava problemas relacionados à privacidade, estabilidade social e relações internacionais. Desde então, o país adotou medidas como a obrigatoriedade de identificar determinados conteúdos produzidos por IA nas redes sociais e restrições ao uso de deepfakes para espalhar desinformação. Também estabeleceu limitações a companheiros virtuais baseados em inteligência artificial voltados a menores.
Em julho de 2026, Xi Jinping reforçou uma ideia central da estratégia chinesa: a inteligência artificial deve permanecer sob controle humano. Em setembro, a Administração do Ciberespaço da China também apresentou um novo marco de segurança que defende medidas preventivas diante de riscos que poderiam atingir até a sobrevivência e o desenvolvimento da humanidade.
O ponto curioso aparece quando se observa como esses riscos são interpretados.
O medo existe, mas a prioridade é outra
Nos Estados Unidos, parte importante da discussão sobre segurança da IA passou a incluir cenários de perda de controle sobre sistemas extremamente avançados. Executivos do setor, entre eles Dario Amodei, da Anthropic, vêm defendendo maior cautela diante da velocidade atual do desenvolvimento tecnológico.

Na China, o debate tende a seguir outro caminho.
Especialistas apontam que Pequim costuma concentrar atenção em problemas mais diretamente administráveis pelo Estado: uso indevido da tecnologia, impactos sociais, segurança, controle dos sistemas e consequências econômicas.
Isso não significa que autoridades chinesas descartem cenários extremos. A diferença está no peso dado a eles. A possibilidade de uma IA escapar do controle humano aparece como um dos diversos riscos que podem ser enfrentados por políticas públicas, e não necessariamente como o eixo dominante de toda a discussão.
Existe ainda uma razão econômica para essa postura. A China considera a inteligência artificial um possível motor de crescimento em um período de desaceleração econômica.
E o país já construiu um ecossistema poderoso. Gigantes como Tencent, Alibaba, Baidu e ByteDance desenvolvem seus próprios modelos, enquanto empresas como DeepSeek, MiniMax, Moonshot AI, 01.AI e Z.ai ampliaram a competição no setor.
Desacelerar demais, portanto, teria um custo.
O problema é que existe uma corrida acontecendo

A discussão sobre segurança seria complicada por si só. Mas existe outro elemento que torna tudo ainda mais difícil: Estados Unidos e China estão competindo diretamente pela liderança em inteligência artificial.
Donald Trump tem descrito essa disputa como uma corrida estratégica e afirmou recentemente que deseja preservar a vantagem americana. Do outro lado, Chen Yixin, uma das principais autoridades de inteligência da China, descreveu a IA como um novo campo de rivalidade estratégica entre grandes potências.
É nesse contexto que propostas americanas para desacelerar o desenvolvimento tecnológico encontram resistência em Pequim.
Quando Dario Amodei defendeu maior cautela com o avanço da IA, veículos estatais chineses criticaram suas posições e relacionaram algumas delas aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos. Isso ajuda a explicar o impasse: uma proposta apresentada como medida de segurança por um lado pode ser interpretada pelo outro como tentativa de limitar um concorrente.
A confiança necessária para um grande acordo internacional fica, assim, muito mais difícil de construir.
Ainda existe um pequeno espaço para acordo
Apesar da rivalidade, especialistas não descartam completamente a cooperação.
Um possível terreno comum envolve ameaças que afetam os dois países sem exigir que nenhum deles revele segredos tecnológicos ou limite diretamente seus modelos. Ataques cibernéticos contra infraestruturas críticas facilitados por IA e o uso perigoso da tecnologia por grupos não estatais aparecem entre as áreas nas quais algum entendimento bilateral poderia ser possível.
A questão deve ganhar ainda mais atenção com o encontro previsto entre Xi Jinping e Donald Trump em Washington. Autoridades chinesas consideram a inteligência artificial um dos pontos relevantes da agenda.
Um pacto para diminuir a velocidade da corrida tecnológica, porém, parece muito mais difícil.
China e Estados Unidos podem até concordar que a IA envolve riscos. O verdadeiro obstáculo está em decidir quais perigos merecem prioridade e, principalmente, quanto cada potência estaria disposta a abrir mão para enfrentá-los.
E é justamente aí que segurança tecnológica e geopolítica começam a se misturar.
[Fonte: bbc]