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Ciência

O açúcar consumido nos primeiros anos de vida pode deixar uma marca que só aparece décadas depois

Um período histórico incomum permitiu aos cientistas investigar como a exposição ao açúcar no início da vida pode estar relacionada ao cérebro, às preferências alimentares e à saúde mental adulta.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Ninguém se lembra do que comia quando tinha um ou dois anos, mas o organismo pode guardar registros desse período por muito mais tempo do que imaginamos. Um novo estudo aproveitou um experimento natural ocorrido no Reino Unido há mais de sete décadas para investigar essa possibilidade. Os resultados sugerem que a quantidade de açúcar disponível desde a gestação até os primeiros anos pode estar associada a diferenças observadas muito tempo depois.

Um acontecimento dos anos 1950 criou um experimento quase impossível de repetir

Para investigar os possíveis efeitos de longo prazo do açúcar, pesquisadores recorreram a um episódio bastante particular da história britânica: o racionamento de alimentos implantado durante a Segunda Guerra Mundial e mantido nos anos seguintes.

O açúcar consumido nos primeiros anos de vida pode deixar uma marca que só aparece décadas depois
© Unsplash

Enquanto as restrições estavam em vigor, a disponibilidade de açúcar era limitada. Quando o racionamento terminou, em 1953, o consumo aumentou rapidamente. Dados históricos utilizados em pesquisas recentes indicam que a ingestão chegou a mais do que dobrar após o fim das restrições.

Isso criou uma oportunidade científica rara.

Pessoas nascidas com poucos meses de diferença cresceram sob condições muito diferentes de disponibilidade de açúcar justamente durante uma fase considerada crítica para o desenvolvimento: os primeiros 1.000 dias desde a concepção, período que inclui a gestação e aproximadamente os dois primeiros anos de vida.

Em um estudo publicado na Translational Psychiatry, pesquisadores analisaram dados de 46.448 participantes do UK Biobank nascidos entre outubro de 1951 e março de 1956. Eles foram divididos conforme o tempo durante o qual estiveram expostos ao racionamento.

O objetivo não era simplesmente descobrir quem consumia menos doces. Os cientistas queriam saber se aquele ambiente alimentar tão distante no tempo poderia estar relacionado à saúde mental na idade adulta.

E foi aí que apareceu o resultado mais intrigante.

A diferença apareceu décadas depois na ansiedade

As pessoas que passaram todo o período inicial de desenvolvimento sob o racionamento apresentaram menor risco de ansiedade posteriormente quando comparadas ao grupo sem exposição às restrições. A associação permaneceu mesmo depois de diferentes ajustes estatísticos.

No estudo da Translational Psychiatry, a exposição durante os 1.000 dias completos esteve associada a um hazard ratio de 0,67 para ansiedade em comparação ao grupo de referência. Para depressão, o valor foi de 0,71, embora essa segunda associação tenha perdido força e deixado de ser estatisticamente significativa em algumas análises adicionais.

Isso é importante porque evita uma interpretação simplista.

Os pesquisadores não demonstraram que consumir açúcar durante a infância cause ansiedade décadas depois. O trabalho identifica uma associação em uma população específica e utiliza uma circunstância histórica para tentar separar os efeitos da disponibilidade de açúcar de outros fatores.

Outro estudo publicado em 2026, usando uma metodologia e amostra diferentes do UK Biobank, também encontrou associação entre restrição de açúcar nos primeiros 1.000 dias e menores riscos posteriores de ansiedade e depressão. Nesse trabalho, quanto maior o período de exposição ao racionamento, maior era a associação observada.

A história, porém, ficou ainda mais interessante quando os pesquisadores olharam além dos diagnósticos.

O cérebro e a preferência por doces também entraram na investigação

O açúcar consumido nos primeiros anos de vida pode deixar uma marca que só aparece décadas depois
© Elif Bayraktar via Shutterstock

Os pesquisadores analisaram imagens cerebrais de parte dos participantes e encontraram diferenças em regiões específicas de acordo com o tempo de exposição ao racionamento durante o desenvolvimento inicial. Entre as áreas identificadas estavam regiões do cerebelo.

Isso não significa que tenham encontrado uma “região da ansiedade causada pelo açúcar”. A relação entre alimentação, desenvolvimento cerebral e saúde mental envolve inúmeros fatores e continua sendo investigada.

Mas existe outro detalhe curioso.

Décadas depois da infância, participantes que haviam passado mais tempo sob as restrições demonstravam menor preferência por alimentos doces. No grupo exposto aos 1.000 dias completos, a pontuação média dessa preferência foi inferior à observada entre participantes não expostos ao racionamento.

Uma possível interpretação é que o ambiente alimentar no início da vida participe da formação de preferências que permanecem durante muitos anos. Ainda assim, estabelecer exatamente quais mecanismos biológicos e comportamentais explicariam essa relação exigirá novas pesquisas.

E existe uma questão particularmente importante: os resultados não são um convite para simplesmente eliminar todo açúcar da alimentação infantil.

O estudo não significa que crianças nunca devam consumir açúcar

Transformar os resultados em uma regra do tipo “açúcar causa ansiedade” seria ir além do que os dados permitem afirmar.

Trata-se de uma pesquisa observacional baseada em um experimento natural histórico. Apesar de o fim do racionamento oferecer uma oportunidade excepcional de comparação, os cientistas não controlaram a alimentação dos participantes desde o nascimento como aconteceria em um ensaio clínico.

Além disso, saúde mental é resultado de uma combinação complexa de fatores biológicos, sociais, ambientais e individuais.

O que a pesquisa acrescenta é uma evidência de que a alimentação durante uma janela muito precoce do desenvolvimento pode ter associações detectáveis muitas décadas depois.

Os primeiros 1.000 dias já são considerados um período particularmente relevante porque cérebro, metabolismo e outros sistemas estão atravessando etapas intensas de desenvolvimento.

O estudo britânico adiciona uma peça inesperada a esse quebra-cabeça: aquilo que estava disponível no prato antes mesmo de alguém conseguir lembrar de suas refeições pode estar relacionado não apenas à saúde física, mas também a características observadas na vida adulta.

E é justamente isso que torna um antigo programa de racionamento iniciado em tempos de guerra tão interessante para a ciência atual. Mais de 70 anos depois, ele continua oferecendo pistas sobre uma pergunta que permanece aberta: quanto da nossa saúde futura começa a ser definido nos primeiros anos de vida?

[Fonte: La Razon]

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