Pular para o conteúdo
Tecnologia

“Vai mudar o mundo”: a revolução das máquinas da China vai muito além dos robôs humanoides

A China está acelerando uma transformação industrial baseada em robótica, inteligência artificial e automação. Com bilhões de dólares em investimentos e milhões de máquinas já trabalhando nas fábricas, Pequim aposta em uma nova geração de engenheiros para disputar a liderança tecnológica com os Estados Unidos.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

“Eu tiro uma soneca e o mundo muda”, brinca Chen Tianyu.

Aos 28 anos, ele tenta acompanhar uma transformação que parece não desacelerar. Em seu tempo livre, visita fábricas automatizadas para descobrir quais tecnologias deve priorizar nas aulas de inteligência artificial e robótica.

Diante dele, cerca de 30 universitários aprendem programação. Alguns tentam ensinar braços robóticos a transportar objetos. Outros trabalham no desenvolvimento de equipamentos médicos automatizados.

Para Chen, a mensagem aos alunos é simples: eles precisam encontrar seu espaço nesse novo mundo.

“Se o setor de IA e robótica não precisar deles, certamente estarão entre aqueles que serão substituídos”, afirma.

A China prepara sua próxima revolução industrial

Ia Deve Concentrar Quase Metade Da Automação Industrial Até 2030
© Getty Images- Unsplash

A cena acontece no Instituto Técnico de Hangzhou, uma das grandes escolas profissionais criadas para formar uma nova geração de trabalhadores especializados em tecnologia.

Ela faz parte de uma estratégia muito maior.

O governo de Xi Jinping está investindo cerca de US$ 20 bilhões para colocar a China na vanguarda da inovação e competir diretamente com os Estados Unidos.

Os sinais dessa transformação já aparecem por todo o país. Mais de dois milhões de robôs trabalham atualmente nas fábricas chinesas, número superior ao de qualquer outro lugar do planeta.

Além disso, mais da metade dos robôs industriais fabricados globalmente já sai da China.

A automação também está avançando rapidamente. São máquinas que soldam, pintam, carregam materiais, montam componentes e trabalham continuamente.

Algumas já estão sendo desenvolvidas para fabricar outros robôs.

Robôs que constroem robôs

Robots Trabalhando
© Imagem criada por inteligência artificial

Em uma fábrica da CRP Technology, na cidade de Chengdu, trabalhadores e máquinas dividem o mesmo espaço.

Cerca de 30 funcionários montam braços robóticos usados em setores como automóveis, eletrônicos e turbinas eólicas. Segundo a empresa, um único equipamento pode ser programado para executar mais de 90% das tarefas repetitivas de uma linha industrial.

Enquanto isso, jovens engenheiros trabalham em um projeto ainda mais ambicioso: um robô capaz de ajudar na fabricação de outros robôs.

A tecnologia ainda está longe da autonomia completa.

“Talvez daqui a seis meses ele consiga realizar outra tarefa”, afirma Pang Kai, engenheiro de 31 anos da equipe de pesquisa e desenvolvimento.

O objetivo final, porém, é muito maior.

“Queremos que nosso novo robô seja como um ser humano. Esperamos que consiga pensar sozinho”, explica.

A China pode ficar sem trabalhadores

Existe uma razão demográfica para tanta pressa.

A população chinesa está diminuindo e envelhecendo rapidamente. Estimativas oficiais indicam que, até 2035, mais de um terço dos habitantes do país terá mais de 60 anos.

Algumas projeções também apontam que a China poderá perder cerca de 60 milhões de habitantes na próxima década.

A automação poderia preencher parte dessa lacuna.

O problema é encontrar a velocidade certa para essa transformação. Aproximadamente 120 milhões de chineses ainda trabalham na indústria. Uma substituição rápida demais poderia eliminar milhões de empregos.

Na Leapmotor, fabricante chinesa de veículos elétricos, robôs já participam de praticamente todas as etapas da produção.

“Nos setores de estampagem, soldagem e pintura, basicamente alcançamos 100% de automação”, afirma Cao Li, vice-presidente da companhia.

Mesmo assim, trabalhadores humanos continuam realizando inspeções e verificações finais.

Isso também poderá desaparecer.

Quando questionado se essas funções poderiam ser automatizadas, Cao é direto: “É totalmente possível”.

A enorme vantagem industrial da China

Fábricas de carros na China viram destino popular de excursões escolares
© YouTube

A China possui uma vantagem difícil de reproduzir: sua gigantesca cadeia de fornecedores.

Motores, baterias, sensores, engrenagens e componentes eletrônicos necessários para construir robôs são produzidos dentro do próprio país.

“Se você quiser construir um robô em Shenzhen, existe todo um ecossistema”, explica Susanne Bieller, secretária-geral da Federação Internacional de Robótica.

Segundo ela, determinados componentes podem ser encontrados em menos de uma hora. Na Europa, o mesmo processo pode levar vários dias.

Mas existe uma divisão importante nessa corrida.

A China domina cada vez mais o “corpo” dos robôs. Os Estados Unidos ainda possuem vantagem no “cérebro”, especialmente nos sistemas avançados de inteligência artificial.

Essa diferença, porém, está diminuindo.

Empresas chinesas como DeepSeek e Moonshot já desenvolveram modelos de IA que buscam competir com os melhores sistemas americanos.

A próxima batalha tecnológica pode, portanto, não depender apenas de quem possui o modelo de inteligência artificial mais poderoso.

A questão será quem conseguirá colocar essa inteligência dentro de milhões de máquinas.

Uma geração treinada para trabalhar com máquinas

Pequim também está preparando trabalhadores para esse futuro.

No Instituto Técnico de Hangzhou, estudantes podem começar a formação profissional aos 15 anos. Existem instalações dedicadas a motores, aeronáutica, robótica e até processamento de terras raras, recurso estratégico na disputa tecnológica com Washington.

A estratégia também pode ajudar a enfrentar outro problema: o elevado desemprego entre os jovens chineses.

Segundo Chen, seus estudantes praticamente não precisam procurar emprego.

“As empresas chegam a reservá-los antes mesmo de terminarem os estudos”, afirma.

Ainda assim, ninguém sabe exatamente onde essa transformação terminará.

A China continua enfrentando uma crise imobiliária prolongada, dívidas elevadas dos governos locais e consumo fraco. Também permanece a dúvida sobre quem realmente será beneficiado pela automação.

Os robôs poderão aumentar a produtividade e compensar a falta de trabalhadores. Mas também poderão eliminar milhões de empregos.

Os próprios estudantes querem saber a resposta.

“Eles me perguntam o que vai acontecer no futuro”, conta Chen.

“Eu digo que não sei. A tecnologia está mudando rápido demais. Mas não podemos ficar parados. Precisamos continuar avançando para descobrir do que somos capazes.”

 

[ Fonte: BBC ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados